Lembranças multifacetadas de pedro nava
A reedição das Memórias de Pedro Nava possibilita ao leitor contemporâneo ver quebradas as balizas da tradição que dão lugar a um texto, que é, ao mesmo tempo,uno e múltiplo, ao possibilitar uma escrita de si e da sociedade brasileira, no período de 1840 a 1940.
Leitor de Proust, Shakespeare, Eça de Queirós, Anatole France e Machado de Assis, dentre outros notáveis, Pedro Nava (1903 – Juiz de Fora / 1984 – Rio de Janeiro) iniciou a escrituração de suas Memórias, após sua aposentadoria, como médico, no serviço público, cuja intenção era, segundo declaração do próprio autor, simplesmente, a elaboração de um livro que ficasse no âmbito familiar. No entanto, o incentivo dos amigos o levou à publicação de Baú de ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978), Galo-das-trevas (1981) e O círio perfeito (1983). O sétimo volume das Memórias – Cera das almas – ficou interrompido, tendo em vista a abrupta morte do memorialista, sendo, posteriormente publicado.
Pedro Nava, ao escrever sobre si, seus familiares e coetâneos, permitiu um perfilamento de aspectos que refletiam atitudes e comportamentos ocorridos em determinados grupos sociais, corroborando a tese de Philippe Lejeune de que pela escrita (auto)biográfica se apreende o social, personificado nos sujeitos narrados e dinamizado no retrato de singulares vidas cotidianas.
Nas Memórias naveanas, encontramos pessoas inseridas na História, em tempo e espaço determinados. São pessoas, parafraseando Wander Miranda, metonímicas, quando, ao se ver o todo pela parte, pode-se ler o comportamento de uma época, através do uso e da recriação do memorialista.
Nava, observador arguto de conflitos de classe, lançou mão de pessoas reais e as pôs, explorando-lhes os mais variados temas, no papel, manipulando-as por sua visão de mundo. Não fosse a declaração autoral, a reversibilidade entre o discurso (auto)biográfico e o ficcional, desapareceria em favor do último.
A obra memorialística naveana se enquadra em uma literatura com vários recortes possíveis, dentre os quais destacamos: os espaços geográficos, onde se fazem presentes temas relacionados à cultura, à política, ao urbanismo, à educação, à religião e ao lazer; a medicina, que resgata a presença do pai, médico, bem como as posturas médicas; a presença feminina pela qual se vê destacado o papel da mulher brasileira no período delimitado: família, tradições, trato com os escravos e, posteriormente, trato na transição do trabalho escravo para o livre.
A obra naveana permite ao leitor regular os fatores do enunciado histórico aos acontecimentos, independentes de sua verdade objetiva, apresentada na narração imaginária do autor.









