Cadê o fone de ouvido?
Você se senta no banco do ônibus em seu caminho de volta ao trabalho. A seu lado ou no fundo do coletivo, o som de uma música (ou mesmo várias), acompanhada de ruídos, não para. Necessitados de música, ou de barulho, aproveitam das últimas tecnologias portáteis e propagam seus gostos musicais dentro dos lotados meios de transporte coletivos. São os já muito conhecidos em todo o país, e não menos odiados, "DJs de buzu".
Porém, a prática da falta de fone de ouvido pode estar com os dias contados em Juiz de Fora. Tramita na Câmara Municipal um projeto, de autoria do vereador José Sóter de Figueirôa (PMDB) em parceria com os parlamentares José Emanuel (PSC) e José Fiorilo (PDT), que pretende proibir a audição de música sem fone através de aparelhos como telefones celulares, rádios, caixas de som portáteis, mp3 e mp4 no interior dos coletivos. A previsão, de acordo com o vereador, é que a proposta seja votada ainda este mês. "O projeto já recebeu parecer favorável da Procuradoria da Câmara. Sua intenção é pedagógica e educativa. Ele surgiu a partir de reclamações da população na casa e tem dado bastante repercussão", comenta Figueirôa.
Caso a proposta seja aprovada, em um primeiro momento, os ônibus deverão ter cartazes informando a proibição. Quem desrespeitar a norma estará sujeito a advertência, multa de R$ 250, além de poder ser retirado do ônibus. Os valores arrecadados com as sanções serão destinados ao Fundo Municipal de Transporte. Assim como em Juiz de Fora, a proibição também está em debate na cidade de São Sebastião, no interior de São Paulo. Em Porto Alegre (RS), desde dezembro do ano passado, é proibido som alto dentro de coletivos.
Das ruas para a rede
O incômodo transpôs as fronteiras urbanas e motivou campanhas nas redes sociais. Dentre muitas, as mais famosas e compartilhadas são "Não seja o DJ do buzu" e "Doe um fone de ouvido a um funkeiro". O publicitário, especialista em redes sociais, Filipe Machado, afirma que este tipo de iniciativa vem normalmente de um único usuário e é rapidamente disseminada na rede. "As campanhas surgem de alguma oportunidade que uma pessoa enxerga e cria em cima disto. Este é o conceito do viral, que é algo despretensioso que toma grandes proporções", explica.
Filipe, que já sofreu muito com os "DJs do ônibus", principalmente quando morava em São Paulo, quando passou por situações em que três pessoas, em um mesmo coletivo, escutavam músicas diferentes em alto volume, ressalta que campanhas como esta ajudam a criar o verdadeiro conceito de uma rede social, com pessoas compartilhando ideias na web.
A prática, que se tornou moda, mostra que a sociedade brasileira carece de noções de cidadania e respeito ao próximo, segundo o psicólogo especialista em saúde mental coletiva, André Luís Dória. "Do ponto de vista coletivo, este ‘fenômeno’ revela que, para além do crescimento econômico, ainda temos um longo caminho a percorrer para alcançarmos o estatuto de sociedade desenvolvida."
Para Dória, quando um "modismo" que implica na invasão do espaço do outro é incorporado sem nenhum tipo de crítica pelas pessoas, fica clara uma prevalência do individual sobre o coletivo e, consequentemente, o nível de atraso educacional de uma sociedade. "Ainda parece haver uma noção acanhada da cidadania. Sem clareza desta noção, o respeito aos deveres a e reivindicação dos direitos não ocorrem de forma consistente."
Já o antropólogo Oswaldo Giovannini Júnior levanta a hipótese de a prática ser uma tentativa de mostrar pertencimento a uma turma ou tribo. "Observando as pessoas que escutam música alta no ônibus, vemos que a maioria delas é jovem, que tem a tendência da própria idade de se colocar um pouco além de seu espaço. Às vezes a mensagem que ele quer passar é a de fazer parte de um grupo descolado, e o aparelho de música é um acessório deste mundo que o identifica."
Apesar do incômodo, a atitude de muitas pessoas frente à moda vem de uma rejeição ao diferente e à cultura do outro. "É próprio das sociedades humanas estranhar a cultura diferente, o comportamento e jeito de vestir ou falar do outro. Na perspectiva etnocêntrica, vemos pessoas que fazem julgamentos dentro de seu padrão. Isso acontece muito com a língua, por exemplo, quando se aponta o jeito do outro de falar como errado."









