Feito com garra e baixo custo

Em uma casa do Bom Clima, elenco gravou o filme durante o carnaval
Enquanto a cidade praticamente dormia durante o carnaval, um grupo suava a camisa em uma casa no Bairro Bom Clima durante as filmagens de “Estamos vivos”, uma coprodução das cariocas Cavideo e Roda Produtiva e da juiz-forana Impulso. Capitaneado pelo tarimbado do cinema independente Cavi Borges, o longa tem o desafio de contar, em plano-sequência, uma história pelo olhar de Rafa, um menino autista de 10 anos de idade, que registra a ação através das imagens que ele capta com sua câmera. “É quase uma peça filmada, pois tem um pouco desse improviso do teatro, não é aquela coisa controlada do cinema. Entrei nesse projeto num segundo momento. O pessoal tinha os atores, o diretor, o autor, já estava fazendo os ensaios e não tinha o produtor. A Patrícia Niedermeier (atriz do filme e esposa do Cavi) disse que eles dominavam a parte artística, mas não sabiam como viabilizar o projeto e onde filmar”, conta Cavi, que trouxe para os jovens realizadores da cidade em um curso sobre “Como produzir filmes com baixo custo” a fórmula que o faz finalizar dez longas, 15 curtas e três séries em um ano, de modo colaborativo. Nesse esquema, elenco, direção e produção só lucram lá na frente. O público em geral também pode “patrocinar” a obra por meio de depósitos bancários. As informações estão disponíveis em https://www.facebook.com/filmeestamosvivos?fref=ts. Até agora, foram aproximadamente R$ 6 mil captados, mas a intenção é chegar a, pelo menos, R$ 20 mil.
“A gente tem sempre em mente que, para fazer cinema, precisa ter muito dinheiro. Quando estava na faculdade, minha desculpa era ‘nao faço porque não tenho equipamento.’ Com as voltas que a vida deu, percebi que a gente tem tudo na mão, mas não faz nada. Temos que fazer filme”, comenta Daniel Couto, da Impulso, criada há 1 ano e meio para produzir conteúdos. “Gosto de contar histórias, independentemente de ser para cinema ou televisão. Se forem as minhas histórias então, melhor ainda”, completa o produtor, antecipando que, em abril, a empresa juiz-forana realizará um painel audiovisual com palestras e oficinas.
De acordo com Álvaro Chaer, mineiro radicado no Rio de Janeiro, de onde vêm todos os atores, a trama em que Miguel se reencontra com seus irmãos por conta da morte do patriarca traz à tona personagens encontrados em toda a família. O homem chega acompanhado da esposa, Cris, e do pequeno Rafa, depois de anos afastado de casa. Desse encontro, ressurgirão traumas antigos. “História e formato pintaram ao mesmo tempo. Já escrevi pensando que ele seria filmado dessa forma. É uma loucura pensar que a gravação foi feita em uma hora e 20 minutos sem qualquer corte, e todo mundo topou”, afirma o roteirista, que, desde o início do processo, apostou no amigo Felipe Codeço para a direção. “A característica do cinema é poder cortar o tempo inteiro. No nosso caso, tivemos que ensaiar durante um mês para desenvolver uma espécie de partitura cinematográfica em que o câmera é um personagem. Como conhecia muito bem a movimentação dos atores, qual seria a visão dessa criança autista, resolvi assumir essa função”, comenta o diretor.
Entrevista Cavi Borges, produtor de cinema
Cavi Borges reconhece que nunca esteve tanto na mídia e nunca fez tantos filmes como agora, mas ainda não descobriu os caminhos das pedras para ganhar muito dinheiro. “Minhas propostas são sempre malucas”, disse ele, que prefere continuar investindo no cinema independente e sem patrocínio público por uma simples razão. “O cinema brasileiro é muito burocrático, tudo demora muito. Para você ter um filme com estrutura, num sistema convencional, leva cinco anos na captação do dinheiro. Porém, tem filme que é urgente. Nesse tempo todo, os atores já foram para outros caminhos, já não gostam mais daquela ideia. Até brinco assim: em vez de esperar cinco anos para fazer um filme, prefiro fazer cinco filmes por ano. Acho que “Estamos vivos” pode ser feito dessa forma urgente, mas não é todo filme que pode ser feito assim”, comenta o empresário, dono da locadora Cavideo desde 1997. Demonstrando ser extremamente agitado, ele não gosta de perder tempo. Frequenta os festivais mais badalados do país com o DVD de suas produções debaixo do braço, negocia com canais fechados e joga seus trabalhos na internet. A propósito, é com essa ferramenta que ele faz chegar “Cidade de Deus – 10 anos depois” a mais de cem países. A expectativa é que a Impulso exiba o filme em Juiz de Fora em junho.
Tribuna – Eu li que você queria fazer um grande filme algum dia. Já conseguiu?
Cavi Borges – Ser grande ou não é muito relativo. Acho que quis dizer um filme com muito orçamento. Mas dinheiro não necessariamente quer dizer qualidade. Nem sei se algum dia eu tiver muito dinheiro vou conseguir fazer um filme melhor do que faço hoje com pouco. Acho que é uma experiência nova. Todo filme que ajudo, como este aqui, tenho chance de conhecer uma galera muito legal, atores de teatro muito legais, que não fazem quase cinema. Com certeza vou chamá-los para outros filmes.
– Por que fazer cinema independente? Como está esse mercado?
– O cinema independente é muito visto nos festivais. No Brasil, são 200, no mundo, são milhões de eventos desse tipo. Também desenvolvemos muitas parcerias com o Canal Brasil e o Canal Curta, de cunho mais autoral, TV fechada basicamente. É possível que o Canal Brasil seja nosso parceiro nesse filme e ainda ajude com alguma graninha. Um outro caminho também é a internet. Por exemplo, o meu filme “Cidade de Deus – 10 anos depois”, que estou lançando agora, está disponível em 112 países pelo iTunes. Eu não conseguiria nunca chegar a esses locais pelos cinemas e pelas TVs, mas, pela internet, consigo. Lógico que a gente sonha em ver nossos filmes na tela grande, mas essas novas tecnologias estão mostrando que a internet é um novo caminho. O Brasil produz 150 longas por ano, e, desses, 30 chegam ao cinema. Onde estão os outros 120? Vejo que o cinema vai ser um lugar só de filmes grandões, blockbusters. Os menores serão descobertos pela internet nesse mundo afora.
– Qual vai ser a forma de distribuição de “Estamos vivos”?
– O filme está sendo feito de forma colaborativa. A gente oferece contrapartidas para as pessoas ajudarem a produzi-lo. Conseguimos uma graninha mínima, algo em torno de R$ 5 mil, R$ 6 mil, mas é um filme específico, feito em cinco dias, em plano sequência. Todo mundo abriu mão de ganhar cachê, todo mundo é sócio do filme, se der grana no futuro, todos vão ganhar. Por Para a próxima etapa, que é a finalização, vamos precisar batalhar com crowdfound. Nosso grande sonho é lançá-lo no Festival do Rio. Até lá, vamos melhorar o filme, fazer ficar o mais bonito possível e depois fazer uma estreia aqui em Juiz de Fora também.
– Quanto precisa para finalizar o projeto?
– Se conseguirmos mais R$ 10 mil, R$ 15 mil, finalizamos o filme. Se analisar, são R$ 20 mil gastos. Lógico que, se fôssemos pagar tudo quanto merecia, seria um filme de R$ 300 mil a R$ 500 mil. Antes de fazer cinema, fiz economia, e, na economia, é assim: você investe, vende e ganha com o lucro lá na frente. No cinema brasileiro, todo mundo está muito mal acostumado, quer ganhar antes de começar a fazer.
– Hoje você vive somente dos seus filmes?
– Durante muito tempo, a locadora sustentou a produtora. Hoje em dia, a produtora sustenta a locadora. Nesses dez anos, fizemos mais de 150 filmes. Se pararmos, não conseguimos pagar as contas. É uma bola de neve, e a gente vai vivendo do nosso sonho.








