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Toninho Dutra avalia sua atuação na Funalfa


Por MARISA LOURES Repórter

19/12/2012 às 07h00

Há mais de quatro anos no cargo de superintendente da Funalfa, função ocupada desde o final da administração do ex-prefeito José Eduardo Araújo, Toninho Dutra revela que chega ao final da atual gestão com a sensação de dever cumprido. "Estou muito feliz por estar vivendo esse momento. Terminando o mandato com uma aceitação muito grande da classe artística, com a qual tive um diálogo muito bom, com manifestações explícitas de carinho da população, respeito, admiração, solidariedade e apoio." Entre suas realizações, destaca o Corredor da Folia e o programa "Gente em primeiro lugar" – projeto social realizado no Centro Cultural Dnar Rocha e que se estende a vários bairros da cidade, atendendo cerca de seis mil crianças, adolescentes e jovens de baixa renda. Durante conversa de uma hora com a Tribuna em sua sala, fez um balanço das atividades desenvolvidas nesse período, avaliou o Festival Nacional de Teatro e enfatizou o seu desejo de ver aprovado o Plano Municipal de Cultura. "A gente está tentando construir uma política para a cultura, que seja de estado, e a primeira garantia disso é ter a aprovação do plano, que deve ser efetivo e respeitado por todos." Prestes a encerrar os trabalhos, garante que ações positivas realizadas por sua equipe receberam o sinal verde da próxima administração.

 

Tribuna – Qual foi o maior desafio enfrentado por sua gestão?

Toninho Dutra – É uma área em que você tem que lidar muito com os seres humanos, e isso gera demandas bastante diferenciadas. A Funalfa tem um escopo de trabalho que, talvez, as pessoas nem sonhem que exista, que vai desde a montagem de um palco numa pequena manifestação cultural num bairro ou numa igreja até a decisão de tombamento do bem arquitetônico mais importante da cidade. Nesse meio, você passa por Lei Murilo Mendes, coordenação de carnaval, Semana da Consciência Negra e administração de espaços públicos. Compor isso tudo e tentar, minimamente, atender todas essas frentes é o grande desafio, pois, para cada cidadão, a sua necessidade é a mais importante.

 

– E a maior conquista?

– A gente pode não ter conseguido realizar tudo o que deveria e nem tenho a pretensão de ter sanado todos os problemas que a cultura traz, mas, pelo menos, as coisas foram conversadas. Outra grande conquista é deixar organizado o Plano Municipal de Cultura, que já está servindo de exemplo para outras cidades do país e que, em breve, estará na Câmara para ser votado como lei, organizado democraticamente, ouvindo várias vozes da sociedade.

 

– Você considera que todas as formas de manifestações artísticas da cidade foram contempladas em pé de igualdade durante sua gestão?

– O pessoal do teatro acha que eu poderia ter feito mais pela classe, já os representantes das outras áreas acham que, como sou do teatro, fiz mais pelas artes cênicas. Nós trabalhamos com a realidade. Não adianta eu pensar que tenho orçamento de Rio de Janeiro ou São Paulo. Temos uma arrecadação menor do que a cidade precisa para resolver todos os seus problemas, e isso reflete também na cultura. A nossa preocupação é focada na questão do acesso à cultura. Nesse ponto, conseguimos que algumas questões saíssem do discurso e fossem para a prática. Trouxemos a fotografia para o diálogo, conversamos com a memória, com o movimento negro, com as artes plásticas, ampliamos o acesso à musica, demos visibilidade e tornamos robustos o Festival Nacional de Teatro e o de Dança, que eram eventos acanhados. Além disso, trouxemos o patrimônio para o diálogo da mesa do conselho, mas também o colocamos na mão do cidadão comum, através de produtos que o fizessem tomar conhecimento de que aquele bem é tombado e qual a importância dele. A gente não pode mais deixar o patrimônio ser discutido só por meia dúzia de pessoas, que entendem desse processo.

 

– Quais são os projetos em andamento hoje que continuarão com a nova administração?

– Está confirmada pelo prefeito eleito a realização do Corredor da Folia. Estamos em pleno processo de contratação das pessoas. Uma pesquisa de 2009 mostrou que a população indicava a manutenção da tradição e, ao mesmo tempo, a criação de um modelo novo de carnaval. Temos também a garantia de que todas as ações, avaliadas como positivas, continuem: o programa "Gente em primeiro lugar", a questão da valorização do patrimônio e o processo de educação patrimonial.

 

– Como a população pode ter a garantia de que as iniciativas não vão se resumir a eventos pontuais?

– O que vai garantir que a gente não tenha somente atividades pontuais é a vivência democrática do direito da cultura. São os artistas participando dos fóruns das suas áreas, mostrando quais são as demandas, suas dificuldades e exercitando sua paciência histórica. É preciso ter em mente que questões colocadas há 30 ou 50 anos não vão se resolver em dois ou três dias, como é o caso da falta de espaço para encenação e exposição e ausência de parcerias com a iniciativa privada. As metas do plano não podem ser suplantadas por outras metas tiradas da cabeça de alguém, que, ao invés de investir em educação patrimonial, vai fazer uma recuperação milionária de um prédio apenas. Por isso temos que transformar o plano em lei e cobrar do poder público.

 

– Por causa do Corredor da Folia, o carnaval da avenida não teria ficado um pouco de lado durante sua gestão?

– Pelo contrário, além do Corredor da Folia, que trouxe mais de 150 mil pessoas para as ruas nos dois últimos anos e que também virou uma nova festa popular, a Funalfa dá todo o apoio na organização do carnaval das escolas de samba e faz questão de manter essa tradição. Nesse momento, ainda surgiram blocos muito significativos, como o Parangolé Valvulado. As manifestações populares, em clubes e nos bairros, também têm o apoio da Funalfa. O que a gente quis fazer foi mostrar que o carnaval não é só escola de samba. Existe um carnaval plural, e existe um desejo de o cidadão de Juiz de Fora participar da festa. A pessoa que está saindo há um tempo para ir para a praia e outras cidades do país voltou a participar da nossa folia, que é uma semana antes, e isso tem um gancho para que muitos pensem em ficar. Falo, também, desde o início, para sairmos da cópia do modelo do Rio de Janeiro e olharmos mais para Rio Novo, para o interior de Minas. Por que esses carnavais funcionam? O que eles têm de atrativo, que levam o cidadão de Juiz de Fora, do Rio e de São Paulo para lá? O público não está num mega espetáculo da Sapucaí, mas está se divertindo. Acho que quando desapegarmos do arremedo, teremos potencial para voltar a fazer um espetáculo que já atraiu multidões.

 

– Houve um investimento na criação de mais um espaço de arte, como o Centro Cultural Dnar Rocha. Por que não dar continuidade em algo já começado, como é o caso do Teatro Paschoal Carlos Magno?

– Porque a reforma do espaço tombado da Estação Mariano foi relativamente barata para os cofres públicos. A Prefeitura abraçou a causa, porque tinha obrigação de cuidar de um bem que estava sob sua guarda, e isso era cobrado sistematicamente. Ainda tem o programa "Gente em primeiro lugar" que abarcou o processo de criação do centro cultural. O teatro depende de um recurso maior, na ordem de R$ 4,5 milhões. Quando a cidade estiver com as suas finanças regularizadas, esse dinheiro vai ser possível, mas, no momento em que você tem que escolher entre áreas prioritárias, como saúde e educação, a gente ainda precisa buscar esse recurso lá fora.

 

– O Centro Cultural Dnar Rocha, hoje, abriga somente as atividades do "Gente em primeiro lugar". Existe a possibilidade de expandir a programação?

– Tem potencial, pois temos no Dnar três salas, que se conjugam num anfiteatro de 250 lugares. Porém, tudo tem que ser realizado lá no intervalo da passagem do trem, porque, para fazer um isolamento acústico total, teremos um outro investimento alto. No início, algumas pessoas questionavam, "mas vai colocar um centro cultural do lado da linha de trem?". Rebato dizendo que o "Mangueira do amanhã" funciona debaixo do viaduto do metrô no Rio de Janeiro e é conhecido no mundo inteiro. A sua localização não foi impedimento para que ele florescesse e se tornasse um programa de referência. A ideia agora é fazer programações em intercâmbio com o Museu Mariano Procópio, trazer outras manifestações de cultura e arte para dentro do espaço, mas sempre subordinado à formação.

 

– Existe uma ideia de que a mostra competitiva do Festival Nacional de Teatro não é aberta a grupos locais.

– De maneira alguma, só que é aberta à mostra nacional. É um espetáculo de teatro assistido por uma comissão paritária, formada por pessoas da Funalfa, da Apac e da comunidade artística do teatro. Quando eu entrei, 12 companhias participavam da mostra, sendo que quatro vagas eram reservadas a espetáculos de Juiz de Fora. Hoje já são 15 ou 16. Porém, em reunião com a classe artística, decidimos que todos os grupos deveriam competir em condições de igualdade, inclusive os daqui. Nos últimos anos, a mostra off começou a dar muito certo para a produção local, porque são projetos que já passaram por uma avaliação pública, que é a Lei Municipal de Incentivo à Cultura. É uma oportunidade de mostrar os trabalhos da cidade para pessoas quem vêm de fora.

 

– É preciso manter a competição?

– Existe um grupo que defende que o festival deveria se transformar numa grande mostra, envolvendo a de curtas performances, a competitiva, a mostra off e as apresentações convidadas. As coisas são mutáveis, e, se os grupos de teatro da cidade estão incomodados com as regras do festival, isso pode ser colocado na mesa e discutido, mas com maturidade. A gente tem um evento que cresceu em número de público, orçamento, visibilidade e que hoje faz parte do calendário dos festivais nacionais. Ter os grupos da cidade participando só vai enobrecer a mostra.

 

– Existe possibilidade de você continuar à frente da Funalfa?

– Existe o meu desejo de colaborar independentemente de estar como superintendente da Funalfa. Até 31 de dezembro, estou trabalhando com a equipe de transição, principalmente, na organização do carnaval, que é uma atividade pesada. Estou me disponibilizando a ajudar no que for possível para que não ocorra aquilo que nós criticamos, que é a falta de continuidade de governo para governo. Estou de peito aberto, de braços abertos e também pronto para fazer a troca, se for esse o caso.