Viajando com Thom Yorke

Thom Yorke mantém a busca pela desconstrução da estrutura tradicional da canção em ‘Tomorrow’s modern boxes’
Enquanto a humanidade (pelo menos o povo indie) aguarda ansiosamente o lançamento do novo álbum do Radiohead, o vocalista do grupo, Thom Yorke, resolve colocar na praça mais um trabalho da sua carreira solo, “Tomorrow’s modern boxes”. Lançado oito anos após “The eraser”, sua estreia sem os parceiros de banda, e à venda por módicos US$ 6 através do serviço BitTorrent, ele parece preencher o vazio pela espera do sucessor de “The king of limbs”, de 2011, o mais recente – e hermético – disco do Radiohead.
E é o hermetismo sonoro a principal característica de “Tomorrow’s…”. Produzido por Nigel Godrich, o álbum parece uma versão ainda mais radical, esparsa e fantasmagórica não só de “The eraser”, mas também de “Kid A”, “Amnesiac” e “The king…”, os mais experimentais produtos da grife Radiohead. São oito faixas etéreas, em que os climas são mais importantes que o próprio conceito de canção. Yorke brinca com seus sintetizadores e teclados para criar batidas interrompidas de forma abrupta, camadas de som que parecem dissipar-se no infinito e vocais que surgem do nada e escondem-se em lugar algum.
Sem precisar prestar contas do que aprontou em estúdio, Thom Yorke parece cada vez menos interessado nas estruturas do que chamamos de “música convencional”, passando longe de sucessos como “Creep” e “Fake plastic trees”, só para ficar nas mais conhecidas canções do Radiohead, e seguindo na linha iniciada há quase 15 anos com as “disfuncionais” “Everything is in the right place” e “Kid A”. Exemplos disso são a faixa de abertura, “A brain in a bottle”, na quase dançante “There is no ice (for my drink)”, a gélida “Guess again!” e os ruídos e sons “tortos” (como num tocador de fita cassete na velocidade errada) de “Pink section”/”Nose grows some”.
Para os admiradores de uma música em que os climas se sobrepõem ao esquema verso-refrão-verso, “Tomorrow’s modern boxes”, mesmo não sendo perfeito, promete uma viagem que pode levar o ouvinte a outras ondas sensoriais. Para os detratores, Thom Yorke pode ser visto como um quarentão preso a uma fórmula sonolenta e pretensiosa que já dura mais de uma década. Para os curiosos, vale investir uma meia dúzia de Obamas no trabalho do inglês – nem que seja, apenas, para relaxar.








