Harmonia em meio ao caos
Gerson Guedes conheceu o desenho riscando o barro, no terreiro visto como infinito pelo menino engraxate na pequena Santo Antônio de Chiador, Juiz de Fora. A curiosidade pelas formas já era evidente na rebeldia em conhecer o que havia além do círculo da bandeira do Brasil, desenhada no grupo escolar, que jamais poderia extrapolar o losango ou fugir aos tons do verde, amarelo, azul e branco. A geometrização e a sobreposição das formas, a transparência das cores, ora vibrantes, ora opacas, e os temas tipicamente juiz-foranos são algumas das características que fizeram os traços do artista serem facilmente reconhecidos. As representações de trilhos, estações, alpendres, candeeiros, café, festa junina e domingos de Minas extrapolaram as galerias para estampar pontos de ônibus e shopping centers da cidade. "Minha pintura é uma colcha de retalhos. Pequenas porções de cores e fatos que garimpo ‘diuturnamente’ em meu malão do inconsciente", reflete o artista.
Mais um retalho foi costurado à colcha existencial de Gerson Guedes, na mostra "Juiz de Fora vide urbe", aberta no Espaço Cultural Correios na última quinta. No vernissage, ele também lançou o livro homônimo, que resgata as três décadas da trajetória artística do autor e a relação de sua obra com a cidade. O projeto, patrocinado pelos Correios e assinado pela livraria A Terceira Margem, conta com a curadoria da jornalista Izaura Rocha.
"Vide urbe" significa "ver a cidade". "O artista nos ensina a ver o que persiste ainda de belo nessa urbe apressada, tumultuosa e em contínua e irrefreável transformação", explica a curadora. Não por acaso, a iniciativa chega ao público em maio. Dezesseis telas fazem parte da exposição e 162 páginas – preenchidas por imagens, poemas e narrativas – contam a história do artista, em homenagem aos 162 anos de Juiz de Fora.
Traços que não se apagam
O desenho é a estrutura da obra de Guedes. Todos os traços dos esboços são feitos à caneta. "Dessa forma, fica impossível apagá-los", justifica. No ateliê do artista, na casa com horta e fogão à lenha – lembranças da infância no interior -, as linhas são sobrepostas, e conjuntos desenhados em folhas separadas são unidos até resultarem na paisagem desejada. Em seguida, ganham a tela e adquirem tons propositais, narrativas em dégradés. "Antes de pintor, sou um contador de histórias."
"O artista olha por nós e vê muito além do que somos capazes de enxergar. Ele exprime esse seu olhar do mundo em sua obra, e nesta reencontramos, reelaborada, a memória das coisas perdidas e irrecuperáveis", observa Izaura, responsável também pela coordenação editorial do livro. Passado e presente dialogam insistentemente na arte de Guedes. Novos ícones arquitetônicos, como a passarela construída recentemente na Avenida Itamar Franco – interligando o Hospital Monte Sinai -, motoboys e semáforos, se contrapõem às chamadas pelo artista "curvas e linhas arcurianas", que delineiam monumentos históricos da cidade.
Na mesma obra, o passado, representado por tons amarelados e desgastados como um retrato antigo, convive com o presente, de um colorido vivo e brilhante, verde cítrico, vermelho e roxo. "Nada lhe escapa por entre os dedos tingidos de arco-íris – o ipê que vigia a rua, a rua do jornaleiro que lê o mundo, o mundo do aposentado que conta o tempo, o tempo do violeiro que canta a vida, o riso da morena que encanta o resto", exemplifica o autor do projeto gráfico da publicação, Carlos Alberto Reis. "É uma constante busca pela beleza e pela harmonia em meio ao caos", resume Guedes.
Mineiridade
Morro do Cristo, Rio Paraibuna, Rua Halfeld, Paço Municipal, Cine-Theatro Central, Museu Mariano Procópio. "Gerson Guedes e Juiz de Fora. Não há como falar de um sem falar da outra", conclui Izaura. Colocando-se no lugar de um viajante do século XIX, Gerson possibilita uma viagem pela memória da cidade e da Zona da Mata em uma carta escrita por ele com a data do dia 17 de maio de 1862. "À distância, pode-se avistar o velho sobrado do ‘juiz de fora’ e outras tantas construções aquém da pedreira", escreve o autor, no texto que acompanha a obra "Viagens e diligências".
"Os pilares que sustentam a qualidade de vida de Juiz de Fora são a história e a cultura", avalia Guedes, que elege uma característica como a principal representante da cidade e de seus habitantes: a tolerância com a diversidade. "A grande maioria da população de Juiz de Fora não nasceu aqui. Mesmo assim, a cidade é muito generosa e acolhedora", acredita o artista, destacando que, apesar do otimismo, o aspecto crítico permeia a todo tempo o seu trabalho. "É um engano as pessoas pensarem que são mais importantes que o local em que vivem. Elas se vão, e a cidade fica. Somos passageiros. E a cidade é o palco onde podemos deixar nossas marcas."
JUIZ DE FORA VIDE URBE
De segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h. Até 30 de junho
Espaço Cultural Correios
(Rua Marechal Deodoro 470)









