Minas Gerais pelo olhar estrangeiro
Belo Horizonte – Nonada. O neologismo que abre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é o mesmo projetado no palco antes de o grupo de dança 1º Ato entrar em cena para mais uma apresentação do espetáculo Pó de nuvens. No chão do tablado, uma travessia de papéis, que, ao ser percorrida, leva às belezas e aos costumes de Minas Gerais, com suas montanhas representadas por pequenos banquinhos de madeira e livros, empilhados no ar por bailarinos, formando uma espécie de escada sob os olhos curiosos da plateia. Para cortar o silêncio e o prosear das Gerais, a poesia musicada de Milton Nascimento. Tendo como companheiros de viagem os dois artistas mineiros, a trupe articula teatro, dança, literatura, artes visuais e mímica num só trabalho. Depois de cumprir temporada nos dias 9 e 10 de março no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna, em Belo Horizonte, ela seguiu com a montagem comemorativa dos seus 30 anos para São Paulo, no Sesc Pinheiro. Em abril, desembarca no festival Vivadança, de Salvador.
Mais que bailarinos, os nove integrantes do elenco são performers. Seus movimentos são entrecortados por curtos diálogos criados por eles mesmos. A conversa, à primeira vista sem qualquer nexo, sobre o tudo e o nada, travada na boca de cena, arranca gargalhadas do espectador. Apesar de, em certos momentos, o jeito mineiro de ser vir carregado de estereótipos, Pó de nuvens propõe um olhar, por vezes irônico, mas também carinhoso do berço do grupo balzaquiano. Organizado como um livro com capa, capítulos e contracapa, a cada passagem de páginas, os dançarinos interpretam o que está sendo mostrado nas imagens. Nem mesmo as famosas gravatas-borboletas, as preferidas do autor de Cordisburgo, ficaram de fora. Elas serviram de acessório durante um dos números.
O vídeo, a iluminação, o figurino, vêm de uma necessidade do espetáculo, que puxa essas informações. Queríamos que a beleza das montanhas e que o nosso azulado que se mistura com o ocre, com as cores da terra das roupas, aparecessem, comenta a diretora Suely Machado.
A representação do processo de inspiração do autor merece um olhar mais atento, pois instiga a refletir sobre as angústias que rodeiam o pensamento durante o ato da escrita. Debruçado sobre uma mesa composta por pilhas de livros e uma antiga máquina de escrever, um personagem, acompanhado por outros, vai dando vazão a suas ideias, simulando estar redigindo em todos os lugares, nos braços, nas pernas, no ar. Eles disseram para o Alex (ator): ‘quero que você seja o meu Guimarães. Deixa as palavras virem à tona’, contou Suely Machado, referindo-se ao casal de coreógrafos radicado há 30 anos em Paris, Denise Namura, brasileira, e Michael Bugdahn, alemão. Utilizamos músicas que casam com o espetáculo. Não há uma narrativa. A proposta dos dois era trazer o tempo de Minas Gerais. Tempo lento e pausado, diz a diretora.
Como diz a letra da canção de Milton Nascimento, Nuvem cigana, que serviu de inspiração para o nome do espetáculo, concebido em apenas dois meses e meio, se você deixar o coração bater sem medo e se entregar à magia da dança, será arrebatado pela loucura, aparentemente, desconexa do universo roseano.
Local, mas universal
Quando Suely Machado decidiu que a condução da coreografia ficaria a cargo de uma dupla forasteira, o objetivo era enxergar Minas Gerais pelo olhar estrangeiro. Eu queria me ver de fora, que uma pessoa que não é daqui mostrasse como ela vê Minas. Certa vez, meu cunhado me deu um livro que dizia: ‘quem nunca saiu do seu lugar não conhece nem o seu lugar’. Por isso, acho que se eu não me permitir uma crítica do outro sobre mim, na realidade tenho uma ilusão sobre mim, justifica. Mas ao mesmo tempo, a pesquisa foi feita muito dentro de nós. Eles visitaram conosco cidades como Bichinho, Tiradentes e Barroso. Cada integrante teve que falar quem era, de que parte vinha, o que era Minas para ele, o que achava que tinha do seu estado. É um trabalho local, mas, ao mesmo tempo, universal, porque é pessoal, porque cada um de nós tem em comum uma característica que é peculiar, reflete.
O dia que a Denise e o Michael colocaram os banquinhos em cena, não acreditei na justificativa deles. Eles falaram: ‘vocês estão sempre subindo e descendo o tempo todo por causa das montanhas em Minas, mas também estão sempre subindo e descendo de dentro de vocês mesmos’.
Arte híbrida e
sem preconceitos
O que é apresentado no palco não é novidade para o 1º Ato e nem mesmo representa uma tendência, conforme aponta Suely. O grupo abriu as portas para o cenário da dança, expressão utilizada pela diretora, em 1982, já com a proposta de levar ao público uma arte híbrida e sem preconceitos. Quando fizemos nosso primeiro trabalho, os críticos falaram que aquilo não era dança. Vinte anos depois, a Marcela (Rosa) ganhou prêmio de melhor bailarina com personagem masculino com esse mesmo número. Nada é igual a nada. Essa mistura é que nos fez criar o 1º Ato. Estou falando por mim, porque sou fundadora do grupo, e a minha história tem a ver com isso. Como artista, não comecei pela dança, comecei pela música, pelo piano, pelo violão. Depois fui cantar, fui ser atleta, até chegar à dança. A dança veio harmonizar a música, o canto e o exercício, explica Suely.
A diretora ainda aponta que mais importante do que ser bailarino é ser um artista inquieto, o que muitas vezes significa sacrificar visões pré-concebidas do perfil do profissional. Uma vez uma menina me falou: ‘dizem que você não gosta de bailarina.’ Eu disse não. Não é isso. Gosto de pessoas interessantes que saibam dançar. Quanto mais estranhas são, melhor. O Marcelo Castilho (crítico) fez uma crítica dizendo que, no 1º Ato, tem sempre os mais altos, os mais baixos, os mais redondos. Acho que é por aí mesmo. A gente tem que ser uma mostra da diversidade brasileira. Nunca quisemos parar de dançar. Gosto da dança dançada, e eu tive parceiros no meu projeto. Somos um grupo de pessoas que pensamos da mesma maneira, observa.
Tenho bailarinos de 18 a 40 e poucos anos. A gente vive num país em que as pessoas pensam que uma pessoa de 30 não pode mais dançar. Para mim, é exatamente aí que começa a ficar bom. É uma característica que eu acredito e que foi usada no Pó de nuvens para mostrar as várias nuances de Minas Gerais. Essa coisa do ouro, da riqueza que está debaixo da terra, faz com que a superficialidade para a gente seja quase uma heresia.
Compartilhando da mesma opinião, o bailarino e também coreógrafo Alex Dias afirma que o resultado do que é apresentado no espetáculo está intimamente relacionado à capacidade de entrega do elenco. Para o 1º Ato, o corpo não se resume a sua plasticidade. O nosso gesto tem que falar alguma coisa. Nossa preocupação nunca foi só com um corpo que desenhasse formas no espaço. Sempre tivemos que ter um conceito atrás disso, uma ideia ou um tema. Alguma coisa que pudesse trazer para fora nossa expressão. A entrega é muito importante. Nesse contexto, quando os coreógrafos misturaram teatro e dança, a gente também conseguiu entrar na deles. Os dois sabem muito bem o que querem. Mesmo quando a coreografia é marcada, você tem a liberdade e a segurança de poder colocar ali o que quer dizer, relata Dias.
O vídeo tem que acontecer naquela hora e a luz naquele segundo, complementa Suely, acrescentando que a temática do espetáculo consegue atrair públicos de outras regiões. A brincadeira de não finalizar e emendar as palavras não é uma coisa só nossa. No fundo, tem Minas em vários lugares. O modo de conversar acaba virando piada. São brincadeiras que muita gente se pega fazendo sem querer. Tenho certeza que a maioria das pessoas não entende a mensagem, mas tem a curiosidade aguçada, diz a diretora.
* A repórter viajou a convite do Espaço Oi Futuro









