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Conheça Washington da Selva e seus bordados com imagens trocadas com a mãe

Com que fio a vida é tramada? Na série “Social Jungle”, com a qual recebeu dois prêmios e é um dos finalistas de concurso nacional, Washington da Selva borda imagens trocadas com a mãe pelo celular


Por Mauro Morais

19/01/2021 às 06h55

De menino, o único contato de Washington e de sua família com o mundo para além da pequena Carmo do Paranaíba era por meio de revistas, do rádio ou da TV. Passados os anos, a internet também se tornou uma opção. Hoje, o jovem de 29 anos, radicado desde 2013 em Juiz de Fora, comunica-se com a mãe pelo WhatsApp. “Quando me mudei, passei a me comunicar com minha família através dos dispositivos móveis”, conta ele, que até os 16 viveu na zona rural da cidade fincada no cerrado mineiro. Depois, mudaram-se todos para a área urbana do município com cerca de 30 mil habitantes. A vivência na roça, no entanto, tornou-se marca que hoje Washington da Selva alinhava em tecido, na série “Social jungle”, composta por bordados com as imagens que troca com a mãe.

Com “Social Jungle”, Washington é finalista do 11º Prêmio DasArtes 2021, cuja votação segue até 25 de janeiro. (Foto: Matheus de Simone/Divulgação)

“Minha mãe, hoje morando na área urbana de Carmo do Paranaíba, tem instalada uma câmera de segurança em sua casa. Isso tanto me suscitava questões de segurança e de vigilância quanto de informação do mundo. Sabe aquela senhora que antigamente ficava na janela vendo os vizinhos e as coisas acontecerem na rua? Percebi que ela foi criando esse tipo de relação com a câmera na casa dela”, conta o artista, graduado em artes e design pela UFJF e hoje aluno do mestrado na mesma instituição. Primeiro instruída pelo filho, Maria Aparecida passou a enviar as tais imagens. Depois, tornou-se algo espontâneo. Quando soube do trabalho artístico que Washington havia iniciado, ela disparou incontáveis cenas registradas que julgava interessantes.

Os bordados que o artista leva cerca de um mês e meio para concluir reproduzem a tela de um celular, mas enquanto o aparelho é retratado em fio prateado, os personagens da cena são fiados em cor. “Existe uma relação com a estética e também um desejo de que os personagens se sobressaiam”, explica ele, premiado nos editais Janelas Abertas, da Pró-Reitoria de Cultura da UFJF, e no Na Nuvem, da Funalfa, com a proposta. “Social jungle” também insere Washington da Selva entre os finalistas do 11º Prêmio DasArtes 2021, da Revista DasArtes, especializada em artes visuais, cuja votação popular para a escolha do vencedor segue aberta até 25 de janeiro no site do concurso.

A própria trama
Trabalho, deslocamento e paisagem estão em “Social jungle”. “Nos três consigo tratar de questões que são da minha experiência de vida, tornando-se quase um trabalho etnográfico de mim mesmo”, pontua o autor, que expõe na série os fios com que a própria vida foi tramada. “Venho de uma família de tradição rural, que sempre atuou num modelo de trabalho chamado de agricultura familiar, na qual todos os membros recebem algum tipo de função. Trabalhei na minha infância. Essa terra não era nossa. A gente cedia nossa força de trabalho para o proprietário e, numa troca, podíamos ter um chão e um teto. Então, essas questões estão comigo e se tornam latentes hoje, mesmo que trabalhando protegido do sol, com um computador, sem utilizar uma força braçal”, reflete Washington da Selva.
Ainda hoje o pai do artista é trabalhador rural. A mãe, adoentada pelo trabalho no campo, aposentou-se.

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Trabalho da série "Social Jungle", de Washington da Selva. (Foto: Matheus de Simone/Divulgação)

Rememorando o esforço familiar, Washington passa, então, a trabalhar com a noção de criatividade. “Nesses bordados, passei a notar que as pessoas que eram retratadas nessa cena não eram meros passantes, um flâneur (termo explorado pelo filósofo Walter Benjamin), porque estão, na verdade, indo de um lugar a outro, a trabalho ou utilizando o espaço das ruas como lugar laboral. Começo, então, a retroceder, pensando que, numa relação de trabalho versus tempo lúdico, de ócio, na microrregião de Carmo do Paranaíba as pessoas vão passar o maior tempo trabalhando, já que é uma região agrária e de grande exportação de café”, lamenta, afirmando reconhecer na oportunidade de desempenhar um trabalho criativo hoje a caminhada de toda a família rumo a um lugar que não seja o do desvalorizado e, muitas vezes, cruel trabalho pago com a cessão da terra.

A consciência da invisibilidade a que muitos são sujeitados no país, inclusive, fez com que Washington passasse de Silva a Selva. A troca do sobrenome, considerado um dos mais comuns no Brasil, se deu em agosto. E não corresponde a uma recusa do Silva, mas de seu reforço, de sua raiz e de sua resiliência. “Carrego uma herança. Quando olhamos o significado de onde vem, no latim Silva deriva de selva. Era um nome dado às pessoas, em algum lugar da Europa, que eram à margem da sociedade, não estavam nas cidades e muitas vezes estavam nas florestas. Hoje ainda, quando vem para o Brasil, Silva carrega um pouco dessa herança por ser um nome comum, por trazer certo anonimato”, observa.

A trama política
“Sempre fui muito tecnológico”, diz Washington da Selva, que na juventude aprendeu de maneira autodidata noções de design e empregou-se numa agência de Carmo do Paranaíba. Algum tempo depois fez as malas para estudar em Juiz de Fora. “O primeiro contato com um museu foi aqui. Isso é um fator interessante. À medida que ia fazendo as disciplinas, fui criando potenciais trabalhos artísticos, que começaram a figurar pequenas exposições, e convites maiores foram surgindo. Quando fui divulgar esse prêmio em Carmo, que tem 30 mil habitantes e reúne um grupo no Facebook com 11 mil membros, recebi alguns comentários como ‘Tem que trazer sua arte para cá, porque aqui não tem nada cultural!’ ou ‘Nossa, um artista carmense falando sobre sua própria terra no trabalho!’. Existe um orgulho. Recebi mais de 300 comentários e mais de 200 likes na postagem, com as pessoas reforçando o quão importante era ter essa representatividade”, narra.

Washington da Selva: “Sinto que tem uma força política por trás do que faço” (Foto: Matheus de Simone/Divulgação)

Na academia, o artista também alcançou outras dimensões do próprio. “Hoje estou mais consciente de algumas relações que antes já eram evocadas”, reconhece. “Com o tempo, à medida em que fui atuando como artista, sentia que surgiam coisas que demandavam uma complexidade maior. O motivo de eu estar hoje no mestrado é estudar questões que começaram a emergir no meu trabalho. Antes eu não compreendia e hoje passei a entender estudando, como no caso das questões que tratam da mineração, extrativismo, ecologias, geopolíticas. O discurso que trago com mais firmeza através de minha pesquisa acadêmica flerta muito com a geografia e com as ciências sociais.”
A consciência, por sua vez, estancou as urgências. “Sempre estive acostumado a utilizar suportes que fossem mais rápidos, como, por exemplo, a fotografia ou a performance”, lembra Washington, que tomou contato com o bordado há dois anos, numa oficina do namorado e também artista Matheus de Simone. Depois, passou a integrar o grupo nacional de arte postal Carta Borda. Pouco a pouco, fio a fio, Washington da Selva vai compondo imagens, memórias e bandeiras. “Sinto que tem uma força política por trás do que faço.”

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