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Construindo territórios


Por Marisa Loures

18/11/2012 às 07h00

Apesar de estar envolvida desde criança no meio artístico – a mãe é bailarina e a irmã cineasta -, quando se tornou estagiária da Ekilíbrio Cia de dança, a juiz-forana Raíssa Ralola ainda não nutria qualquer projeto. "Tinha apenas 13 anos, e não pensava em trabalhar profissionalmente com a dança, mesmo tendo uma vivência familiar", comenta. Os anos se passaram e, ao que parece, a vontade de explorar as várias possibilidades da relação da arte com o corriqueiro a direcionou para o que ela chama de modo de vida. "A arte para mim é mais que um trabalho. É uma outra forma de me relacionar com o mundo", revela. Nos dias 10 e 11 deste mês, a dançarina, de 25 anos, foi a única mineira a apresentar duas performances em dança contemporânea dentro do projeto "Outras danças: Brasil/Uruguai/Paraguai" – evento que reuniu, desde outubro, 26 artistas, entre bailarinos e coreógrafos, dos três países latino-americanos.

A oportunidade de participar do "Outras danças" surgiu ao se inscrever em uma convocatória pública lançada pela Funarte/Minc em agosto deste ano. Após ser selecionada, ela seguiu para Porto Alegre, onde, há 40 dias, entre 13h e 19h, ela e outros 12 profissionais integraram a residência coordenada pelo coreógrafo argentino Luis Garay. Os outros 13 ficaram sob a responsabilidade da uruguaia Adriana Figueiroa. Nesse primeiro momento, foi a vez de estreitarem o convívio dentro e fora da dança e refletir como essa arte pode interferir no corpo, na forma e no resultado da criação. Todos os custos com hospedagem e alimentação ficaram por conta da instituição.

 

Apresentações de solos e duos

Depois de mais de um mês de reflexão e experimentação de novas estratégias, no último fim de semana a bailarina entrou na fase final do projeto. Dessa vez, ela teve que mostrar os aprimoramentos gerados nos treinamentos artísticos.

No sábado, dia 10, ela, ao lado do paulista Rodrigo Andreolli, se dedicou ao duo "Atração e repulsão". Nesse trabalho, Raíssa assumiu o papel de uma performer, e Andriolli, o de diretor. Já no domingo, 11, a bailarina apresentou o solo "Projeto AMO: Ateliê Móvel Oficial" – desdobramento da pesquisa que desenvolve no mestrado em arte e cultura contemporânea, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – cidade onde reside desde 2011. De acordo com a juiz-forana, essa conferência dançada procura evidenciar a relação do artista que vai para a academia e que depois retorna para o campo prático. "Pude dar novos encaminhamentos cênicos para os meus estudos", afirma. "O mais rico foi compartilhar outros métodos e outros entendimentos de pensar o corpo."

 

Nada de convenções

No processo criativo da dança contemporânea não há espaço para um sistema de métodos convencionais. Raíssa explica que em suas performances o que menos faz é dançar. Coreografias prontas, como ocorre com o balé clássico, e roteiro pré-concebido não estão inseridos em seu universo. "É mais que um estilo, tem mais a ver com o modo de produzir, não tem uma cara específica, depende de como o artista vai fazer suas escolhas", observa. "Um modo de caminhar na rua pode ser uma atividade contemporânea, está ligado ao olhar. É uma apropriação de coisas a princípio extra-artísticas, fora do pensamento tradicional de arte. A meta é construir território", avisa.

Raíssa é graduada em artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduada em Metodologia Angel Vianna e em Teatro e Dança na Educação pela Faculdade Angel Vianna, passou um período em terras londrinas para se aperfeiçoar no Instituto Center Laban, e, desde 2008, se mantém desenvolvendo trabalhos independentes. Além de bailarina, também desenvolve trabalhos na área de artes plásticas. Suas influências passam pelos artistas experimentais americanos da década de 1970, como Bruce Nauman e os criadores da Judson Church, até chegar a Yves Klein, Rebeca Horn, Min Tanaka, Antonin Artaud, além dos brasileiros Helio Oiticica, Lygia Clark, Angel e Klauss Vianna.