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‘O riso é contagiante’


Por AMANDA FERNANDES

18/11/2011 às 07h00

Depois de a Cia. Barbixas de Humor vir a Juiz de Fora no início do mês, o teatro de improviso volta ao palco do Cine-Theatro Central com o espetáculo "DEZimprovisa", da Deznecessários Cia. de Humor, hoje, às 21h. Formado por Paulinho Serra, Talita Werneck, Rodrigo Capella e Felipe Ruggeri, o grupo está no ar com os programas "Quinta categoria" e "Comédia MTV", famoso, principalmente, por paródias de canções e estilos musicais.

Em entrevista à Tribuna, por telefone, o humorista Rodrigo Capella constata que o grupo vive uma fase do que chama de "humorfobia" e reclama do monitoramento dado a comediantes, em detrimento a restrições e punições a políticos.

– Tribuna – Vocês e os Barbixas estão levando o teatro de improviso no Brasil, que está crescendo. A que atribui este crescimento?

– Rodrigo Capella – Acho que hoje em dia tem tanta coisa chata acontecendo no mundo, tantas notícias ruins que vemos todos os dias que as pessoas procuram sempre se distrair. Costumo falar que quem vai assistir ao nosso espetáculo gosta de ouvir algumas besteiras para exorcizar o cansaço do trânsito, da vida moderna. Mas temos um público muito jovem também, que é muito exigente e difícil de agradar. Hoje ninguém fica mais de um minuto na frente de uma tela se não tiver um atrativo. Este formato de espetáculo procura ser a suavidade, e nos inteiramos do que está acontecendo no mundo, para que ele seja atual.

– Que diferenças aponta entre os dois grupos?

– Os Barbixas são uma companhia talentosa que improvisa há bastante tempo. Somos amigos, mas nos falaram que somos mais anárquicos. Não ligamos muito para a maneira como as coisas acontecem e não temos pretensão de ser melhores. Acredito, porém, que, assim como eles, procuramos nos divertir e divertir a plateia. Acho que uma qualidade nossa é o fato de sermos despretensiosos e buscarmos a diversão independente do que vier. O riso é contagiante.

– É um formato importado. Como criar uma identidade brasileira no espetáculo?

– Existem vários jogos que caíram na graça do brasileiro, mas criamos alguns próprios da nossa realidade. Temos um que precisamos improvisar um funk a partir da sugestão de tema da plateia. Não tem nada mais brasileiro que isso. Criamos para dar a nossa cara e a cara da molecada brasileira, mas, ao mesmo tempo, não temos o objetivo de criar algo totalmente tupiniquim, isso porque vários clássicos funcionam perfeitamente bem. Não vejo problema em fazer algo que seja de outro país.

– Como intercalar o trabalho na TV e no teatro? Um completa o outro ou são antagônicos?

– Em termos de agenda, é difícil conciliar. A TV consome muito tempo, e já tivemos que desmarcar apresentações por conta da agenda de gravações. A família reclama um pouco também, pois o tempo fica escasso. Porém, artisticamente acho que os dois trabalhos se completam. No "Quinta categoria", temos o mesmo feedback da plateia do teatro, onde você tem o retorno na hora.

– Para o ator, qual a diferença de trabalhar o improviso e o stand-up?

– Várias pessoas estão fazendo stand-up sem serem atores. Já no teatro de improviso, a formação e o estudo cênico são essenciais. No stand-up, as pessoas estão ali fazendo uma reflexão sobre suas observações do cotidiano, coisas que notam no seu dia a dia, e isso é bem legal, não tenho nada contra. Entretanto, no improviso, como as cenas são criadas na hora, é preciso preparo do ator e consciência cênica. Por exemplo, se fazemos uma cena em um bar, criamos o espaço do balcão que tem que ser respeitado. Se você vai mudar de lado, precisa ter o estudo desse espaço imaginário e passar em volta dele e não simplesmente ‘passar por cima’. O ator deve estar preparado para improvisar, pois você treina, mas na hora do jogo tudo muda.

– A plateia funciona como um termômetro para o espetáculo. Há casos em que não há química em uma cena?

– Sem a plateia, não tem espetáculo. Ela determina como vai ser, o que vai ser. Às vezes, uma cena dá errado, uma piada não entra. Quando erramos, assumimos o erro e vamos em frente. Não precisa dar certo sempre. Acredito que todas as cenas são possíveis de serem feitas com jogo de cintura.

– Como é feito o programa "Comédia MTV", do qual a companhia participa?

– O segredo é a participação de todos. Somos nove pessoas no elenco mais dois roteiristas, mas todos contribuem. Às vezes, pensamos em algo para o outro ou para nós mesmos e vamos acrescentando. Gravamos três vezes por semana, e os momentos de interação no camarim ajudam a criar. Poderíamos colocar uma câmera para não perder nada que surge nesse processo criativo. O dia da gravação é praticamente um recreio. A hora de gravar é como se fosse a professora chamando de volta para a aula, mas mesmo assim é divertido.

– As paródias de músicas/estilos musicais deram mais visibilidade ao programa. Como elas são feitas?

– Essencialmente da mesma forma do programa como um todo. No começo, ficavam mais a cargo do Marcelo Adnet e do Rafael Queiroga, mas hoje é um complemento de ideias com todos. Temos abertura para fazer o que queremos.

– O que você acha do monitoramento que está acontecendo a comediantes e suas piadas?

– Digo que estamos em um momento de "humorfobia", com comediantes sendo caçados. Hoje não se pode mais brincar com negro, loira, careca, narigudo, com ninguém. O humor está sendo levado a sério quando tem que ser encarado como brincadeira. Foi o que aconteceu com o Rafinha Bastos. Ele fez uma piada, infeliz ou não, não me interessa, e está sendo caçado de uma maneira cruel que políticos que roubam não são. É tão absurdo que chega a ser engraçado. O que tem que ser sério é a política, mas política é chato. Hoje as pessoas se lembram mais de quem votaram no último "BBB" que para deputado, prefeito, senador.

DEZIMPROVISA

Hoje, às 21h

Cine-Theatro Central

(Praça João Pessoa). 3215-1400