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Um dos maiores nomes da poesia peruana, Renato Sandoval participa de sarau em Juiz de Fora


Por MAURO MORAIS

18/10/2014 às 06h00

Idealizador de um dos maiores eventos de poesia do mundo, Sandoval é também escritor, tradutor e professor

Idealizador de um dos maiores eventos de poesia do mundo, Sandoval é também escritor, tradutor e professor

Às vezes, a fronteira pode ser um abismo. Ainda que ao lado do Brasil, ligado aos estados do Amazonas e Acre, o Peru parece muito mais longe. E isso está impresso na própria literatura. Da mesma forma que os brasileiros consomem pouco os livros escritos no vizinho sul-americano, lá também parecemos invisíveis. Com seu monumental Festival Internacional de Poesia de Lima n(FipLima), e com suas muitas outras iniciativas literárias, Renato Sandoval tem vivido para encurtar distâncias. Ano passado, o evento homenageou o Brasil, convidando dez escritores. “Agora, voltando ao Peru, vou fazer uma tentativa de traduzir as obras de Murilo Mendes, que é um poeta ótimo”, diz Sandoval, que desde terça-feira está em Juiz de Fora, lançando a revista Fórnix, que homenageia os poetas brasileiros, ministrando uma oficina e, neste sábado, participa de um sarau, às 18h, no Museu de Arte Murilo Mendes. Além dele, estão os poetas Fabrício Marques, Camila do Valle, Iacyr Anderson Freitas (estes convidados do FipLima), Edimilson de Almeida Pereira e Prisca Agustoni.

Segundo Sandoval, não existem muitos livros de nossos autores nas livrarias das bandas de lá. “Leem Clarice Lispector, que está toda traduzida em espanhol. Já Machado de Assis, que é um clássico daqui, quase ninguém conhece. Talvez o Carlos Drummond de Andrade, mas só aqueles que sabem, leem. Tem uma série de livros que foram publicados pela embaixada do Brasil no Peru, há 20 anos, contando toda a história literária brasileira em edições bilíngues. Isso foi uma contribuição realmente importante, mas poucas pessoas têm. Hoje vão fazer uma reedição”, comenta. A escolha dos dez nomes que integraram o festival foi feita com a ajuda do amigo Affonso Romano de Sant’Anna e também da embaixada do Brasil em Lima. “A ideia geral era boa, porque não foram apenas os mineiros, mas também os paulistanos e outros do Norte e do Sul”, pontua. “Não há uma grande relação. A ideia é que, ao falar dos poetas viajantes, pode se desenvolver uma real conexão. O presente e o passado são importantes, mas também não podemos esquecer o que poderia acontecer a partir de nossas ações. Não sei o quanto isso é utópico, mas gosto das utopias”, brinca.

Homem de múltiplas utopias poéticas, Renato Sandoval e sua aparente calma esconde uma rotina apertada, pautada no encontro e na difusão das palavras escritas. “Vivo por, para, de, embora, com todas as preposições e posposições possíveis. Faço literatura e em particular poesia. Dou aulas na universidade, não de literatura hispano-americana, mas da literatura francesa medieval e contemporânea, alemã e nórdicas. Morei e estudei muitos anos na Finlândia, fiz filologia românica, li muito as literaturas nórdicas, pelas quais sempre fui apaixonado. Também sou tradutor de finlandês, sueco, alemão e italiano. Tenho uma editora, a Nido de Cuervos, que originalmente foi criada para as traduções dos grandes poetas que conheci e ninguém estava interessado em publicar. Agora temos várias coletâneas, não somente de tradução, mas também de ensaios, contos, crônicas, literatura infantil e a revista ‘Fórnix'”, enumera, recobrando o fôlego.

Reconhecido em seu país e fora dele, Sandoval tornou-se um dos maiores agitadores de sua área ao tomar para si a responsabilidade por um dos maiores eventos de poesia do mundo. “Não sei se criei isso em mim, mas descobri o que sempre tive. Falo que nesse mundo, que você conhece e também padece, muitos vivem em estado de competição, e eu não. Para mim, o que fala mais alto é a solidariedade. Acho que é possível sonhar e fazer coisas grandes”, sorri.

Na abertura da primeira edição do festival, em 2012, o anfiteatro estava completamente lotado, com 4.200 pessoas. “Estava o Lêdo Ivo e o Antonio Cisneros, que era o maior poeta vivo do Peru e também morreu. O Cisneros, que era um cara superorgulhoso, começou a chorar de emoção diante do público. Foi algo mágico. Todo mundo, pela primeira vez no país, escutando poesias em 30 línguas. O impacto midiático foi muito grande, sobre 1,5 milhão de pessoas. Na segunda edição, foi um impacto sobre 2,5 milhões de peruanos”, entusiasma-se.

Esse ano vai chegar ao fim sem a terceira edição. “Gostaria de fazer, mas tive graves problemas de saúde. E isso foi, em grande medida, pelos esforços em prol do festival. Eu fazia tudo, negociava tudo, traduzi tudo, durante vários meses, e o coração explodiu. Agora estou bem, e no próximo ano espero que ocorra. Tomara que o país convidado seja o México. Procuro, também, alguém que assuma o meu lugar”, pontua, comentando sobre sua insatisfação em relação ao Governo de seu país, cujo Ministério da Cultura foi implantado apenas há pouco mais de três anos. “O Peru só coloca os poetas em outros festivais, mas é incapaz de fazer algo próprio, em nível oficial e público. Esse evento foi produto dessa frustração e também da convicção de que o Peru tem o que mostrar, sobretudo compartilhar experiência com poetas de diferentes partes do mundo”, completa.

E, assim como a poesia no Brasil, o momento não tem sido tão ruim no país da antiga cidade inca de Machu Picchu. “Nunca publicaram poesia, nem as grandes editoras, que são duas ou três e são de origem estrangeira. Em compensação, hoje existem muitas editoras independentes, formadas por gente nova, com muito entusiasmo, pensando em edições limitadas, para 300, 400 pessoas. O Peru tem grandes poetas ainda vivos, os clássicos modernos. A literatura peruana sempre esteve ativa. A realidade no que está presente lá é muito desafiadora”, comemora.

Um projeto superlativo