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Pequenas felicidades


Por Raphaela Ramos

18/09/2011 às 07h00

A alegria plena talvez esteja no esforço capaz de alargar compreensão e limites. Para a mineira Crepúsculo Companhia de Dança, que se apresenta em sessão única na cidade neste domingo, o equilíbrio se dá exatamente nesse canteiro: sem deixar de respeitar os seis bailarinos com deficiência, o grupo explora a vontade de deixar os obstáculos para trás. "Uma das integrantes, por exemplo, usa muletas, mas consegue dar alguns passos sozinha durante o espetáculo. Ela se superou", conta o produtor Cláudio Márcio. A montagem "Conatus – a essência do ser", apoiada pela Lei Rouanet, cultiva pequenas felicidades, como o nascimento, o encontro entre homem e mulher, o afeto por alguém. Mesclando ações cênicas da dança e do teatro, a proposta investiga as reações do corpo a partir de sentimentos, pensamentos e atitudes.

Outros três bailarinos, sem deficiência, fazem parte da companhia, capitaneada por Luciane Kattaoui. Entre eles, está Cláudio, ator que desde o início de 2010 também faz a assistência de direção. Imagético, "Conatus" segue em turnê pelo Sudeste e já passou por Rio e São José do Rio Preto (SP). Depois de Juiz de Fora, a produção se dirige para Vitória (ES) e São Paulo e se prepara para uma excursão pelo Nordeste. Há 15 anos na estrada, a Crepúsculo soma cinco espetáculos e integra a Associação Crepúsculo – Arte, Saúde e Educação sem Barreiras, ONG que promove em Belo Horizonte, através da arte, a convivência de pessoas com e sem deficiência.

Para sair pensando

Sobre o palco, artistas com síndrome de Down, déficit cognitivo e paralisia cerebral, além de um cadeirante, tornam-se criadores. Conforme ressalta Cláudio Márcio, o coletivo trabalha com outra ideia de coreografia. "Ela não é imposta por ninguém. Os movimentos são sugeridos pelo elenco e saem de dentro", observa o ator, completando que a intenção é fazer o público pensar. "Tenho visto tantas coisas em que o espectador entre e sai da mesma maneira", lamenta.

Para ampliar as reflexões, a Crepúsculo opta pelo debate ao final das apresentações. Durante a passagem pelo Rio, decidiu suprimir esse momento, mas foi impedida pela plateia, que não arredava pé após os aplausos. "Vimos que essa troca é essencial. Afinal, as pessoas se perguntam: ‘como assim, um bailarino que não anda?’"

Profissionais, os integrantes recebem salário e participam das decisões. Segundo Cláudio, essa possibilidade os valoriza como seres humanos e os retira da passividade – essa, muitas vezes, é estimulada dentro da própria casa. "Se ficarmos só na deficiência, estacionamos", aponta. O ator e bailarino conta que um dos artistas, tetraplégico, não se comunicava antes da dança. "Ele ainda não fala, mas ouve e dá retorno de alguma forma. Eu converso com ele."

Atrás do arco-íris

Além da dança, outras atividades, como teatro, circo, contação de histórias, artes plásticas e música, são desenvolvidas na Associação Crepúsculo. A peça amadora "Atrás do arco-íris", por exemplo, acaba de ser selecionada para o Festival Estudantil de Teatro (Feto), de Belo Horizonte, que acontece em outubro. Acompanhamentos de fonoaudiologia, psicologia e psicopedagogia também são oferecidos pela instituição.

CONATUS – A ESSÊNCIA DO SER

Domingo, às 20h

Pró-Música (Av. Rio Branco 2.329)

3215-3951