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Para dar a volta por cima


Por JÚLIO BLACK

18/06/2015 às 04h00- Atualizada 18/06/2015 às 08h31


Se os filmes de animação, hoje, perderam a pecha de produções feitas exclusivamente para crianças, muito disso se deve à Pixar. Criada ainda na década de 1980 como uma divisão (a Graphics Group) pouco expressiva da Lucasfilm, logo ela passou para as mãos da Apple e, menos de uma década depois, começou a revolucionar os desenhos de longa-metragem com o surpreendente e emocionante “Toy story”. A partir daí, o “padrão Pixar” se tornou o norte do setor, a ponto de as animações ganharem categoria própria no Oscar, e a Disney, parceira da empresa em suas produções, adquiri-la em 2006.

Motivos para a Pixar ter tomado conta do pedaço não são poucos e vão além da excelência técnica das animações por computador e o software criado por ela que se tornou referência, o RenderMan. Ao contrário da sua atual proprietária, ela apostou em histórias que fugiam do convencional, com personagens dos mais inesperados e que, mesmo assim, se tornaram sucesso de bilheteria e crítica, com a Pixar acumulando 27 estatuetas do Oscar em suas prateleiras – sete deles apara alguns dos seus mais arriscados filmes, como “Ratatouille”, “WALL-E”, “Up – Altas aventuras”, “Monstros S.A.” e “Os Incríveis”, além de “Procurando Nemo”, “Toy story 3” e “Valente”.

Nos últimos anos, porém, o estúdio andou perdendo o rumo em produções que fizeram Hollywood duvidar da capacidade da empresa de criar algo que voltasse a fazer com que o público sentisse os mesmos sentimentos de outrora. Mesmo conquistando o Oscar, “Valente” não é considerado um filme “típico” da Pixar, enquanto que “Universidade Monstros” não teve o mesmo impacto do original e “Carros 2” é uma continuação inferior a um dos filmes mais fracos do estúdio. O baque foi tão grande que a Pixar cancelou “Newt”, considerado muito parecido com “Rio” (Fox-Blue Sky Studios) e adiou “O bom dinossauro” para 2016. Tudo para se concentrar em uma ideia que tivesse o real espírito da Pixar – e é aí que entra em cena “Divertida Mente”, produção dirigida pelo mesmo Pete Docter de “Monstros S.A.” e “Up – Altas aventuras”.

Para a nova produção, a Pixar apostou em um personagem pouco afeito aos desenhos infantis: a mente humana, suas emoções primordiais e como lidamos com elas e de que forma essas nos definem e guiam vida afora. Mais abstrato que isso, difícil. A mente escolhida é a da garota Riley, de 11 anos, que vive uma existência feliz em uma cidadezinha do frio estado de Minnesota com seus amigos, a escola e as partidas de hóquei. Sua vida vai mudar quando o pai aceita um emprego na ensolarada e cosmopolita São Francisco, e é aí que as emoções em sua cabeça (Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho) terão que fazer com que ela consiga se adequar ao novo mundo. A tarefa vai sendo realizada com êxito até Alegria e Tristeza serem expelidas por acidente do “centro de comando” da cabeça de Riley, que passa a se sentir ainda mais insegura sem duas de suas emoções.

Nos labirintos da mente

Perdidas no cérebro de Riley, Alegria e Tristeza precisam encontrar o caminho de volta e passam, por isso, por diversos pontos do inconsciente da garota, como a Terra da Imaginação e o local onde são criados os sonhos. No caminho, encontram ainda com o amigo imaginário da menina, há muito perdido. As emoções que restaram, por sua vez, precisam dar um jeito de não perderem o controle da situação. Apesar de o tema parecer complexo para os pequenos, Pete Docter escreveu com Meg LeFauve e Josh Cooley um roteiro de rápida e fácil identificação. Além disso, o visual criado para a mente de Riley é simplesmente deslumbrante e criativo, muitas vezes surreal – e Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho são, no mínimo, fofos, facilmente identificáveis pelos pequenos por suas cores diferentes. Essa mistura de personagens originais, psicologia, nostalgia, crescimento pessoal, emoções, entretenimento e apuro técnico mostra que a Pixar, após alguns anos pouco inspirados, está voltando a sua melhor forma.