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‘Stalking’: Buraco da fechadura


Por MAURO MORAIS

18/06/2013 às 07h00

Não há quem não se seduza por um buraco de fechadura. Há, sempre, uma curiosidade pelas frestas do que não se pode saber. Por isso, para conter os desejos, existe o conceito de privacidade, que, além de colocar certa ordem social, faz valer a prática de outra noção, ainda mais preciosa: a intimidade. Pelas gretas de uma porta, que o jornalista e escritor Flávio Braga não deixa escancarar, surge a história de Stalking: A história real de uma perseguição amorosa (Editora nVersos, 151 páginas), A surreal saga entre amantes que não comungavam do mesmo sentimento começou a ser escrita quando o autor colheu entrevistas de um arquiteto carioca. Aos 49 anos, o homem relatou os absurdos cometidos por uma mulher abandonada.

Eduardo, o personagem quarentão – que poderia, facilmente, pertencer ao campo da ficção, mas dificilmente seria aceito como verídico -, conhece uma garota na praia e logo se encanta. Para sua surpresa, a menina é filha de uma velha conhecida, Tânia. Na tentativa de se aproximar da jovem, ele acaba ganhando a mãe. Enviada para a casa do pai, em Minas Gerais, a garota abre um espaço na casa, que logo em seguida é ocupado por Eduardo, fisgado pelo sexo, mas não pelo coração. Uma amiga delirou, argumentando que é um jogo no qual eu faço a minha parte. Que eu a incentivei inconscientemente, sabe como é? Mas isso não explica nada, é só uma especulação a mais, relata o narrador logo no início do texto.

Sem emprego fixo, morando na casa dos pais e sem filhos, Eduardo estava completamente suscetível ao risco de uma paixão e tinha consciência de que arriscar também envolve errar. Quando percebeu o passo em falso, Eduardo recuou e largou Tânia. No momento, já estava caído de amores por Dirce, uma cliente. Enlouquecida, a mulher desamparada arma inúmeras tramas para fazer o quase marido voltar para casa. Num dos casos que Braga relata de maneira leve, assumindo a voz do perseguido, Tânia se esconde para aguardar Eduardo sair de casa, segue-o até o ônibus e faz um escândalo dentro do coletivo. Em outro, denuncia-o como um grande traficante, fazendo com que a polícia invada sua casa e vasculhe todos os espaços.

Caçadora cheia de garras

Desesperado, Eduardo procura ajuda psicológica, tenta conversar amigavelmente com a mulher, muda de rota e para de atender o telefone. Mas já era tarde, ele vivia um inferno. Armado de indignação e prudência, procurei Tânia em sua casa. Fui recebido por uma nova surpresa. Ela não morava mais ali, conta o narrador, para logo constatar: Pela primeira vez eu me senti vítima de stalking, Flávio, como a nova expressão que você me ensinou define. Eu estava sob a mira de um caçador. Poderia ser abatido em qualquer momento.

Constituído de pequenos capítulos, com um projeto gráfico leve e atraente, a obra é fluida, apesar de muito mais jornalística que ficcional. Certamente os mesmos recursos utilizados pelas notícias são o que alimentam o leitor a encarar uma narrativa irreverente, surreal e hilariante, haja vista a loucura de Tânia diante de uma separação. Com uma proposta maior, Flávio Braga, que já se lançou no romance entre mais de duas dezenas de títulos – a maioria com temáticas voltadas aos relacionamentos amorosos, como O que contei a Zveiter sobre sexo, de 2007 e Sob Masoch, de 2010 – encara um drama comum, porém ainda desconhecido.

O termo inglês stalker, que dá nome ao título, aplica-se a alguém que importuna de forma insistente e obsessiva uma outra pessoa. Normalmente, celebridades, principalmente as mulheres, são as maiores vítimas, mas o que Braga confirma com seu livro é que até nossas leis carecem de mais atenção a esse fenômeno. Do outro lado da fechadura pode haver uma boa dose de humor, mas, também de espanto.