Nos bravios mares da internet
Celulares e demais dispositivos eletrônicos, tão abominados por sua interferência durante os espetáculos teatrais, são elementos indispensáveis à interação entre atores e plateia na peça Argonautas de um mundo só, em cartaz de sexta a domingo em Juiz de Fora, no Diversão & Arte. Com direção de Júlio Vianna, o espetáculo do agrupamento de artista O Coletivo fez sua estreia no último mês em Belo Horizonte – promovido pelo programa Vivo EnCena com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – e reflete sobre a virtualização das relações humanas.
Vídeos enviados no início da apresentação poderão ser utilizados em cena, e, para isso, um computador será disponibilizado no espaço teatral. Durante a peça, o público poderá ainda manter computadores e aparelhos celulares ligados, em modo silencioso, e postar mensagens no Facebook e blog do espetáculo, que será transmitido on-line.
Em cena, os Usuários P, X, F e G – como são chamadas as personagens interpretadas por Alexandre Vasconcelos, Flávia Fernandes, Priscilla D´Agostini e Glauco Mattos – iluminam relações humanas marcadas pela virtualização das práticas cotidianas. Assim como na história da mitologia grega, na qual os heróis capitaneados por Jasão partem em expedição à procura do Velocino de Ouro, as personagens da peça navegam nos mares bravios da internet.
Contudo, no espaço físico-virtual, os usuários vivem a incessante busca do outro e de si mesmos, como explica o diretor Júlio Vianna. Pela tela de seus dispositivos móveis, pela janela de seu quarto, pelo espelho, pelo calor advindo de um disco rígido entorpecido e inquietante, pelo olhar difuso e sem foco (mesmo com megabytes e megapixels admiráveis), essas personagens anseiam e promovem encontros e buscas infinitas e socialmente acolhedoras, fomentando sua própria sorte, vício, tentação.
A montagem – bem como as pesquisas e experimentações desenvolvidas pelo grupo desde 2010 – se apropria da linguagem fragmentada e repleta de conexões da rede para formular seu conceito. Depoimentos intimistas, registros audiovisuais, partituras corpóreas e intensa articulação entre atores, espaço e objetos compõem a proposta, a partir histórias entrelaçadas por tensões, ambiguidades e afetos. O espetáculo não quer, assim, dar respostas, mas trazer reflexão e ação, ao se inundar de perguntas e questionamentos sobre nós, ‘bicho-máquina-homem’, em tempos de relações permeadas por elementos de comunicação virtual, elucida o diretor.
Hoje em dia as relações são extremamente pautadas pelas interações virtualizadas e virtualizantes. Essa reflexão sobre o tema se dá sem juízo de valores. Existem muitas críticas a respeito dos dispositivos eletrônicos, como, por exemplo, a sua superficialidade. Mas é preciso pensar que não são os dispositivos que são negativos, mas sim a maneira como os usamos, explica a diretora de produção e atriz Priscilla D’ Agostini. A relação entre elenco e plateia no teatro acontece desde que este existe. Propomos apenas levar essa interação para um cenário contemporâneo, ressalta a atriz.
A fim de aprofundar os profissionais de artes cênicas locais no objeto de estudo da peça, o diretor Júlio Vianna ministra no espaço, neste sábado, das 14h às 17h30, a oficina temática Criação cênica a partir de elementos presentes no universo virtual. A iniciativa propõe uma criação dramatúrgica, a partir de uma análise pessoal e coletivizada, de elementos potencialmente teatralizáveis existentes nesse contexto.
‘ARGONAUTAS
DE UM MUNDO SÓ’
Dias 18 e 19 de janeiro, às 21h, e dia 20, às 19h
Diversão & Arte
(Rua Halfeld, 1322).
3213-0931









