Olhos voltados para o alto

Com a retirada das plataformas, os fiéis já conseguem ver a imagem de Santo Antônio sendo recebido no céu

A cúpula ganhou quatro painéis que remetem ao estilo clássico, retratando por, exemplo, a Virgem Maria e os seis bispos
Habituados com a plataforma que impede a visão da cúpula da Catedral Metropolitana de Juiz de Fora desde meados de 2013, fiéis ocupam os acentos da matriz sem se dar conta de que, lá nas alturas, as novas pinturas se revelam. “Nossa, não tinha visto ainda, ficou lindo”, diz, surpresa, uma mulher, ao perceber uma movimentação diferente na tarde da última segunda-feira. A retirada das estruturas de madeira e das vigas utilizadas na vedação segue pelos próximos dias, motivo pelo qual a igreja ficará fechada entre 8h e 16h30 durante essa semana. Levando em conta o andamento dos trabalhos, tudo indica que a inauguração das imagens feitas pelo artista plástico Roberto José Pereira acontecerá até o Natal. Até lá, deverá ser instalada uma iluminação que dará ainda mais destaque aos painéis.
Para estar bem perto da cena que retrata Santo Antônio sendo recebido por anjos no céu, a repórter, acompanhada do repórter fotográfico Leonardo Costa, precisou de fôlego para subir os 68 degraus de uma escada em formato de caracol. De perto, a perfeição das proporções que remetem ao estilo clássico e a sensação de movimentação dos corpos impressionam. De um lado, está o “Milagre dos peixes”, relacionado à liturgia da palavra. No campo localizado justamente em cima da capela do Santíssimo (lado esquerdo do altar), os traços mostram o “Milagre do burro”, relacionado à eucaristia.
Olhando com atenção, é possível distinguir os rostos de dom Gil, dom Eurico, dom Clóvis, dom Juvenal, dom Geraldo e dom Justino, bispos que presidiram a Arquidiocese de Juiz de Fora. Ostentando uma coroa dourada e vestes azul e vermelha, Nossa Senhora também é homenageada em um dos quadros. Não menos fascinantes ficaram as colunas da cúpula e seus capitéis (parte superior da coluna). Na restauração, elas passaram por um processo de douração em alto-relevo. Mesmo antes da instalação da iluminação no anel da cúpula, a luz do sol que entra pela área central colabora para perceber o efeito.
Até então, para as gerações nascidas após a década de 1960, aquela área côncava do teto da Catedral foi sempre tingida de azul. Não se sabe quando as pinturas artísticas feitas entre os anos de 1957 e 1960 deixaram de existir. O arcebispo metropolitano dom Gil Antônio Moreira contou que a obra anterior trazia cenas de Santo Antônio e de Nossa Senhora, além de uma referência da posse de dom Justino. Se a intenção inicial era recuperar as antigas imagens, a ausência de registros fotográficos em bom estado de conservação ocasionou a mudança nos planos.
“Temos que agradecer os paroquianos e todos os fiéis que nos ajudam. Isso revela o zelo que o povo tem com a casa de Deus. A arte evangeliza, por isso nosso cuidado em zelar para que nossas igrejas sejam bonitas. Ser bonito e ornamentando torna o lugar sagrado”, afirma o monsenhor Luiz Carlos de Paula. À imagem e semelhança
Autor de obras em mais de dez igrejas nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, Roberto Pereira, em seu trabalho em Juiz de Fora, deixou algumas curiosidades. O semblante do homem pecador que se curva diante da hóstia consagrada é do próprio artista, mineiro de Pouso Alegre. Já o rosto do homem vestido de branco ao lado dos bispos é de Weverton Américo, assistente de Roberto durante a execução dos painéis. A face angelical de um dos anjos que rodeiam Nossa Senhora pertence ao filho de Roberto. Escolhido para a tarefa por indicação de outros bispos a dom Gil, ele teve o desafio de criar seguindo as orientações litúrgicas. Os estudos nas artes começaram aos 12 anos. Entre seus trabalhos, está a pintura da igreja principal da Administração Apostólica de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
A conclusão da pintura da cúpula entra para a lista de intervenções que vem sendo feitas na Catedral desde 2002. O próximo passo é a reforma da pintura externa e interna. De acordo com monsenhor Luiz Carlos, brevemente, os juiz-foranos terão de volta a pintura decorativa das paredes do interior. A empreitada não vai ser das mais fáceis. “A pintura do lado de dentro vai ser mais demorada porque é artística. São várias camadas de tinta que deverão ser retiradas com cuidado. Em alguns lugares, também tem camada de massa. Nossa intenção é encerrar a pintura de fora em junho ou julho de 2015.” Por enquanto, o espaço tombado pelo município em setembro de 2001 já recebeu duas capelas laterais – uma para adoração ao Santíssimo Sacramento e outra para onde foram levados os restos mortais dos religiosos -, novo altar, novos pisos e equipamentos de som e ar-condicionado.








