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‘Ser reconhecido por fazer o que se ama é um privilégio’


Por MAURO MORAIS

17/10/2014 às 09h00

Daniela Arbex conquistou o segundo lugar do Prêmio Jabuti na categoria livro-reportagem

Daniela Arbex conquistou o segundo lugar do Prêmio Jabuti na categoria livro-reportagem

“Holocausto brasileiro” (Geração Editorial), escrito pela repórter especial da Tribuna Daniela Arbex faz história não apenas por revelar, sob o olhar dos sobreviventes, a trágica história do Hospital Colônia de Barbacena, considerado um dos maiores hospícios do país durante o século XX, responsável pela morte cruel de pelo menos 60 mil internos, a maioria deles sem nenhum diagnóstico de doença mental. “Holocausto brasileiro” levará a premiada jornalista a subir no palco do Auditório Ibirapuera, no dia 18 de novembro, para receber o disputado e respeitado troféu do Prêmio Jabuti pelo segundo lugar na categoria livro-reportagem. Daniela será, então, a primeira juiz-forana residente na cidade a conquistar o prêmio, que já está em sua 56ª edição. Anunciado ontem, o resultado da mais longeva láurea literária aponta “1889” (Globo), de Laurentino Gomes, como o vencedor na categoria. Ele já havia levado o prêmio com os dois títulos anteriores de sua trilogia histórica, “1808” em 2008 e “1822” em 2011. Veras Gertel ficou em terceiro lugar com sua autobiografia “Um gosto amargo de bala” (Civilização Brasileira). “Holocausto brasileiro” já havia sido eleito o melhor livro-reportagem de 2013 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Na categoria contos e crônicas, outro juiz-forano ganhou o prêmio. Radicado há mais de cinco décadas no Rio de Janeiro, Rubem Fonseca ficou em primeiro lugar com “Amálgama” (Nova Fronteira), enquanto Luiz Vilela, com “Você verá”, ficou em segundo. “Nu, de botas” (Companhia das Letras), de Antonio Prata, e “Um solitário à espreita”, de Milton Hatoum, dividiram a terceira posição. Lira Neto e seu “Getúlio – Do governo provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945)” (Companhia das Letras), segundo volume da monumental narrativa, sagrou-se vitorioso na categoria biografia. “Breve história de um pequeno amor” (FTD), de Marina Colasanti, ficou com o primeiro lugar na categoria infantil, assim como “Reprodução” (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho, na categoria romance. Preparando um documentário para 2015, com produção de uma grande rede de televisão internacional, e escrevendo o novo livro, Daniela Arbex fala sobre a carreira e o seu ofício nesta entrevista. “Cada história me transforma”, diz a jornalista, contadora de histórias que faz história em sua Juiz de Fora e em seu país.

Tribuna – Qual a importância do Jabuti na sua carreira literária?

Daniela Arbex – Um presente. Sou uma autora estreante, concorrendo com um veterano, gigante no jornalismo e na literatura, e estar ao lado dele é muito bom. Não só pelo número de livros que já vendeu, Laurentino Gomes representa muito hoje para a literatura nacional.Vejo esse prêmio como o reconhecimento de um trabalho muito minucioso, que exigiu de mim muito tempo e dedicação.

– E esse prêmio confirma sua presença no meio literário…

– Entrei com o pé direito. O jornalismo é essencialmente literário, porque não basta investigar, é preciso contar histórias que toquem o leitor. Isso mostra que em qualquer suporte, seja no jornal, seja no livro, escolhi a profissão certa. Ser reconhecido por fazer o que se ama é um privilégio.

– O que mudou no seu fazer jornalístico?

– Muita coisa, porque o jornalismo diário é direto, já que há uma limitação de espaço. O livro me deu mais confiança em relação ao texto, fazendo matérias mais literárias, sem abrir mão da informação.

– Foi esse exercício diário que preparou você?

– O jornalismo diário me preparou para ser uma escritora. E não dá para contar histórias sem estar na rua. Sou essencialmente uma repórter de rua. Esse contato é fundamental. Por isso, a coisa mais emocionante em ser jornalista é poder entrar na casa e na vida das pessoas, tendo a oportunidade de revelar para o mundo o que estava encoberto, trazendo um novo olhar. Escrevi “Holocausto brasileiro” em 18 anos, porque se eu não tivesse passado por todas as etapas que a Tribuna me proporcionou jamais teria feito esse livro.

– No próximo dia 30, você vai estar na mesa “Escritas do desassossego”, no Fórum das Letras de Ouro Preto, ao lado de Eliane Brum e Natalia Viana. Como tem sido a expriência de viajar o país participando de eventos literários?

– Não tinha experimentado esse contato direto com o leitor, o corpo a corpo. Tem sido algo emocionante para mim. Além disso, tenho recebido através das redes sociais mensagens de todo o país e também de Portugal, onde o livro foi lançado este ano. Muitas relatam que “Holocausto brasileiro” mudou a vida delas, que passaram a ter um outro olhar sobre o tratamento oferecido a pessoas com transtorno mental. Na última quarta-feira, após uma palestra que dei na Unicamp, ouvi de uma estudante de jornalismo que ela não desistiu do curso porque o livro a inspirou. Isso é muito estimulante e também me enche de novas responsabilidades em relação ao que faço.

– E tudo isso representa uma pressão pelos próximos trabalhos?

– Estou ansiosa, porque quando escrevi “Holocausto brasileiro”, não era conhecida como escritora, mas como jornalista. Não tinha muitas expectativas, assim como o público. Meu novo livro, com lançamento marcado para abril, contará outra história desconhecida do Brasil. Estou me dedicando muito para oferecer um livro que traga emoção e informação, e que, principalmente, passe a história do país a limpo.

– Como essas histórias ressoam em você?

– O mais bonito para mim é que nenhuma dessas histórias passa por mim e vai embora. Cresço junto com cada uma delas. Chego a elas e elas me transformam.