Ouça agora

‘Não se pode blefar com a vida’


Por RAPHAELA RAMOS

17/09/2011 às 07h00

"O segundo sexo", de 1949, foi a primeira obra de Simone de Beauvoir a cair nas mãos de Fernanda Montenegro. O clássico analisa a posição da mulher na sociedade. Para a jovem atriz descendente de italianos e portugueses, criada no subúrbio carioca, a proclamação feminista de que as mulheres deviam assumir seus pendores profissionais não pareceu tão impressionante. Outro ponto do discurso da francesa chamou bem mais a atenção: uma visão realista do temperamento humano. "A ideia de que não se pode blefar com a vida me tocou bastante", diz Fernanda, pelo telefone. A conversa com a Tribuna durou pouco mais de 15 minutos. Período suficiente para que a primeira-dama do teatro brasileiro expusesse seu afeto pelo espetáculo "Viver sem tempos mortos", monólogo baseado nos escritos de Beauvoir e dirigido pelo premiado Felipe Hirsch. Lançada em 2009 como parte da programação do Ano da França no Brasil, a peça descerra as cortinas do Teatro Solar hoje, às 18h e às 20h, e amanhã, ao meio-dia.

Dispensando movimentos excedentes e tentativas de se assemelhar à filósofa, Fernanda comprova que poucos elementos bastam para o acontecimento teatral. A partir do encontro entre plateia, atriz e um tema relevante, instaura-se a imaginação, algo essencial nesse espetáculo feito de palavras e uma única cadeira. "O apelo da montagem está na minha condição de porta-voz de uma pessoa extraordinária, que revolucionou o pensamento sobre o feminino." A autobiografia verdadeira e contundente de Beauvoir, nas palavras de Montenegro, é colocada sob o foco durante toda a peça. O que interessa é ouvir a companheira de Jean-Paul Sartre. Segundo a intérprete, o tom minimalista foi pinçado exatamente para que a personagem pudesse se contar calma e intensamente, afinal, o depoimento de Simone não se trata de dramaturgia, mas espelha sua visão sobre a sociedade e sobre si mesma.

 

Qualquer maneira de amar

A negação de recursos histriônicos para a empreitada, com direção de arte de Daniela Thomas e iluminação de Beto Bruel, não aponta em direção a preferências. Pelo contrário. "Qualquer maneira de amor vale a pena, desde que haja honestidade", menciona Fernanda, referindo-se às muitas escolhas teatrais, das mais experimentais às tradicionais. A propósito, para a atriz, a cena nacional apresenta farto repertório, embora seja delineada e codificada pelo poder público. De acordo com ela, os artistas se veem, constantemente, nas mãos de uma comissão que julga o que é e o que não é bom. "Assim, nosso teatro vai sendo feito como pode", observa. "Viver sem tempos mortos", título que faz alusão a um slogan de maio de 1968, tem patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura (MinC) e, por isso, circula pelo país a preços populares. "A intenção do projeto é disseminar a cultura."

Fernanda já esteve outras vezes em Juiz de Fora. Recorda-se com clareza da bela arquitetura do Cine-Theatro Central e da plateia, "presente e bem informada". Nas turnês de seu atual monólogo, visitou comunidades do interior e sempre foi acolhida de forma comovente. Segundo a artista, quando se interessa por algum assunto, sabe que outras pessoas terão o mesmo olhar e, por isso, não se amedronta diante do que há de vir. Acredita no homem e no acaso. Será que escolheria Simone de Beauvoir não fosse a ideia sugerida pelo amigo Sérgio Britto? "Ele faria Sartre, mas acabou seguindo por outros caminhos."

 

Mulher do palco

Montenegro trabalhou muito ao lado de Hirsch, um diretor criativo e doce, como atesta ela, acrescentando que já passou por comandantes com todos os tipos de temperamento, mas sobreviveu. Da mesma maneira, a atriz, que veio do rádio, passeou pelas grandes companhias do século XX – como Teatro Brasileiro de Comédia, Companhia Maria Della Costa e Teatro dos Sete – e furou a pós-modernidade experimentando ao lado de Gerald Thomas ("The flash and crash days – Tempestade e fúria", de 1993). "É um desdobramento natural de uma artista de palco. Nunca houve risco por enfrentar nova estética. Apenas fui julgando se as propostas valiam a pena ou não."

Segundo Fernanda, a evolução das artes cênicas brasileiras também não foi premeditada e abriu veios na medida em que enfrentava a história. Questionada se o teatro ainda cabe no mundo, sentencia: "ele está morrendo há três mil anos, mas sobrevive, e sempre sobreviverá, porque coloca um ser humano diante do outro". Para quem recusa os blefes, o palco, com sua sinceridade avassaladora, realmente é o melhor lugar para se viver.

VIVER SEM TEMPOS MORTOS

Sábado, às 18h e às 20h. Domingo, ao meio-dia.

Teatro Solar

(Av. Independência 2.104)

3214-3912