Identidade em concreto
Espalhado por vários pontos da cidade, o legado do arquiteto Raphael Arcuri ajuda a identificar a paisagem urbana de Juiz de Fora. Basta uma breve caminhada pelo Centro para se tomar consciência desse fato. Pontos muito conhecidos dos juiz-foranos, como o edifício das Repartições Municipais, onde funciona a Funalfa (na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Halfeld), o Cine-Theatro Central, a Associação Comercial, o Castelinho dos Bracher e o Palace Hotel, têm em comum a autoria desse "ítalo-brasileiro", que por décadas assinou os projetos da construtora Pantaleone Arcuri & Spinelli. A obra de Raphael e de seu pai, Pantaleone, são o tema do livro "Ornamento, ponto e nó – Da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri", do professor Marcos Olender, lançado hoje, no anfiteatro João Carriço.
A publicação do livro coincide com o reconhecimento do trabalho desenvolvido por Olender na defesa do patrimônio cultural de Juiz de Fora. O arquiteto é um dos agraciados do Prêmio Amigo do Patrimônio, entregue hoje pela Funalfa em comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio. Segundo Olender, aliás, as ações em defesa dos imóveis históricos colaboraram para que ele tomasse consciência da importância dos imigrantes italianos na construção da cidade, um legado reconhecido pelo município – e, em alguns casos, pelo Governo federal -, mas nem sempre elencado como tema de estudo. O arquiteto decidiu, portanto, pesquisar o assunto em sua tese de doutorado em arquitetura e urbanismo, defendida na Universidade Federal da Bahia.
Respaldo familiar
Embora o foco inicial tenha sido a obra de Raphael Arcuri, Olender conta que foi indispensável incluir a contribuição do patriarca da família, Pantaleone, personagem notável tanto pelo patrimônio arquitetônico que legou à cidade quanto por sua trajetória. O italiano começou a vida no Brasil como pedreiro e conseguiu erguer um verdadeiro um complexo industrial, que englobava desde a fabricação e a venda de materiais de construção ao fornecimento de um corpo técnico para a realização dos projetos. "Costumo dizer que, ao entrar na construtora, só era necessário ter a ideia", comenta o professor, que destaca o apoio da família Arcuri em sua pesquisa, permitindo a consulta a seus arquivos e concedendo depoimentos.
Pantaleone chegou ao Brasil pela primeira vez, em 1876, com o pai Agnelo Raphaeli, também pedreiro. Entretanto, retornou à Itália tempos depois, onde ficou morando com parentes. Há divergências em relação ao ano da fixação definitiva do construtor no Brasil, mas estima-se que teria acontecido entre os anos de 1887 e 1889. Nessa época, o italiano voltou ao país não como um simples imigrante, mas contando com o apoio de uma estrutura familiar e com o suporte de outros imigrantes de mesma nacionalidade.
Olender argumenta que o crescimento da empresa, nos anos seguintes, ocorreu por uma soma de fatores, a começar pelo olhar empresarial de Pantaleone Arcuri, que, além de enxergar bons negócios, sabia criar uma rede social, que abria novos caminhos. "Ele tinha um grande senso de oportunidade. Isso, em uma época em que a cidade estava se desenvolvendo muito, havia muita demanda por construções", comenta o professor, ressaltando também a competência do empresário como mestre de obras.
Apesar dos empreendimentos no Brasil, Pantaleone não perdeu a ligação com sua terra natal, tanto que levou a mulher grávida para a Itália, para que o filho Raphael também fosse italiano. Foi lá, aliás, que o primogênito da família viveu seus primeiros anos de vida. A ligação com a Europa também foi mantida nas participações da Pantaleone Arcuri nas feiras "Italiani all estero", que reuniam trabalhos de compatriotas que estavam fora do país. Os prêmios recebidos apareciam na capa dos catálogos da empresa. Foi em um desses eventos, em 1906, que o construtor teria conhecido a tecnologia do cimento de amianto na produção de telhas. Vislumbrando um bom negócio, ele patenteou e trouxe para o Brasil no ano seguinte.
Formação na Itália
Em uma época em que a mão-de-obra qualificada era raríssima, ter um funcionário com algum tipo de instrução formal em arquitetura representava um grande passo a frente em relação à concorrência. Melhor ainda se esse funcionário fosse o próprio filho. Até o retorno de Raphael Arcuri da Itália, os projetos da construtora eram feitos pelo próprio Pantaleone, ou pelo italiano Salvatore Notarroberto, ambos contando apenas com a experiência adquirida como mestre de obras. "Por um lado, Raphael foi criado na oficina do pai, às voltas com materiais de construção, por outro, teve uma educação mais formal", destaca o professor.
Durante suas pesquisas, Olender passou um ano na Itália, quando teve oportunidade de visitar diversas vezes a cidade de Nápoles, onde Raphael Arcuri estudou arquitetura. No livro, entretanto, o autor esclarece que o primogênito de Pantaleone não chegou a cursar oficialmente a Escola de Belas Artes. O aprendizado desse ofício se deu no escritório de arquitetura de Giovanni de Fazio. Essa, aliás, era uma prática muito comum em um tempo em que a profissão não era reconhecida como hoje.
Dessa época, data um estudo de Raphael Arcuri para o prédio de um café, que já demonstra sua tendência de incorporar influências contemporâneas, como a da art nouveau, a uma linguagem mais tradicional do estilo eclético. Nas visitas à cidade italiana, Olender também pode conhecer a vizinhança de Vomero. Em plena expansão nas primeiras décadas do século XX, o bairro em que Raphael morou representou mais uma oportunidade de contato com as linguagens modernas.
Quando retornou ao Brasil, o arquiteto trouxe consigo essa mistura, sendo capaz de realizar projetos com diferentes linguagens. No primeiro deles, modificou a Capela do Senhor dos Passos, na Santa Casa de Misericórdia, acrescentando uma torre neogótica ao prédio. Em seguida, desenhou o Edifício Pinho, na esquina das ruas Halfeld e Batista de Oliveira, o maior da cidade em 1913. Anos depois, criou a Vila Iracema (na Rua Espírito Santo), com estilo puramente art nouveau. Um dos últimos projetos assinados por Raphael, antes de passar a se dedicar a outras atividades dentro da construtora, foi o da Casa d’Itália, na Avenida Rio Branco.
Diante de um legado tão variado, Raphael Arcuri escapa de classificações. "É um profissional que transita em vários estilos, o que faz com que eu só possa chamá-lo de arquiteto da modernidade."
ORNAMENTO, PONTO E NÓ
Lançamento hoje, às 18h30
Anfiteatro João Carriço
(Av. Rio Branco 2.234 – 3º andar)









