‘O que não seria poesia do cotidiano?’
Em um dos poemas de "Rabo de baleia" (Editora Cosac Naify, 64 páginas), segundo livro de Alice Sant’Anna, a narradora conta: "queria repetir / o gesto, documentar tudo, dizer do gosto / da canela no pastel de nata / do primeiro dia azul de lisboa / mas não escrevia e com pressa para registrar / me tornava burocrática / no diário: hoje fomos de trem, estava quente". Com fina ironia e um tanto de subjetividade, os versos – que resumem bem o clima de toda a obra – não servem como ilustração para a escrita da autora. Alice não é burocrática, é extremamente livre, tanto que sua produção surpreende de tão pequena. "Para mim a poesia não é uma necessidade. Escrevo por prazer. Escrevo quando tenho vontade. A poesia ocupa um tempo muito pequeno em minha rotina", declara, despindo-se de qualquer romantismo que cerca seu artesanato e certa de que muitos de seus pares se gabam justamente por encarar a poesia como víscera. Mais jovem convidada da Festa Literária de Paraty (Flip) desse ano, que terminou no último dia 7, a escritora de 25 anos é um dos maiores expoentes da nova geração de poetas brasileiros, que vivem dias ensolarados com o boom comercial da poesia de Paulo Leminski. Coordenadora editorial da revista "Serrote", do Instituto Moreira Salles, colunista do jornal "O Globo" e mestranda em literatura pela Puc-Rio, Alice diz ter outro timing com sua pena: "Para mim, a poesia é urgente de outras maneiras. Quando termino de escrever, a urgência aparece depois de já ter sido saciada: ‘Ufa! Então era isso que estava me perturbando e eu não sabia’". Convidada para a última edição do Eco – Performances Poéticas, no Museu de Arte Murilo Mendes, a tímida e delicada poeta conversou com a Tribuna sobre carreira e seus contemporâneos.
– Tribuna – Como foi ser a mais jovem convidada da Flip 2013?
– Alice Sant’Anna – Eu já tinha ido para a Flip algumas vezes, desde 2004. Era um grande prazer ter esse momento do ano em que podíamos ver um autor favorito. Tinha uma vontade enorme de algum dia ser convidada, mas achava muito distante. E essa Flip foi especial para a poesia: Teve a nossa mesa das jovens poetas, a mesa que para mim foi a mais incrível da história da Flip com o Zuca Sardan e o Nicolas Behr, mediados pelo Chico Alvim, e a dona Cléo (Cleonice Berardinelli) e a (Maria) Bethânia lendo Pessoa.
– Existe um peso de responsabilidade em sua produção?
– Se eu for pensar como responsabilidade, não vou escrever nenhuma linha. Temos, sim, uma função porque acabamos representando algo, mas não há peso. Na Flip, estava com a responsabilidade de representar a poesia jovem, mas é claro que não sou a única e nem a melhor. Tem muita gente boa publicando.
– Hoje se fala que a poesia contemporânea esconde o esmero com a forma atrás de um discurso capaz de aproximar o leitor.
– Acho que a preocupação com a forma não foi deixada de lado, o verso livre tem, também, suas preocupações. Me incomoda esse papo de cotidiano. Realmente nós fazemos poesia do cotidiano, mas o que não seria a poesia do cotidiano? Você pode falar do cotidiano de uma forma sublime e pode falar do sublime com elementos do cotidiano. Se um rabo de baleia passar numa sala for algo cotidiano eu topo. Esses limites entre o que é cotidiano e o que é sublime são muito borrados.
– Falando em "Rabo de baleia", como foi seu processo de criação do livro?
– O primeiro livro, "Dobradura", lancei em 2008. Passei cinco anos até lançar o livro seguinte. Dá para ver que não escrevo muito, porque o livro tem 36 poemas, e foi tudo o que produzi em cinco anos. Talvez tenha produzido mais uns cinco, no máximo. Não cortei muito para criar esse livro. Minha ideia inicial era falar sobre viagens, sobre como é estar longe de casa, com um fio condutor que permeasse todos os poemas. Quando meu projeto foi aceito pela Petrobras Cultural, me dei conta de que não tinha como falar sobre viagens estando em casa, com um trabalho que consumia o tempo todo, os estudos e a vida cotidiana. Enfim, todas as outras coisas que ocupam o tempo todo e fazem com que a poesia seja um vaso numa sala de uma casa enorme. Então, tentei escrever um livro sobre viagens sem ter deslocamentos geográficos acontecendo. A ideia do "Rabo de baleia" foi criar essa viagem impossível. Meu livro não é temático. As viagens entram aqui de um jeito aberto, muito subjetivo. Não é um livro com um fio condutor muito claro. É claro para mim porque escrevi e tinha isso em mente. Quem lê não precisa e não vai pensar nisso. Qualquer poema pode ser uma viagem. Você pode pensar como a memória sendo uma viagem.
– E logo no segundo livro você já entrou para uma grande editora. Como é essa experiência?
– É um luxo total. Fico superhonrada de sair pela Cosac Naify, assim como de ter ido para a Flip. São coisas que eu sei que representam muito. Quando pensava em publicar meu primeiro livro, parecia inatingível. Mas isso não quer dizer que eu seja alguém importante. As editoras grandes talvez estejam pensando que a poesia pode não ser um grande marco de vendas, mas pode surpreender. O Leminski é um exemplo fora da curva, porque vendeu mais do que a média de poesia e de romance. Ele realmente foi uma apoteose para qualquer gênero. A poesia cria um burburinho diferente. Ela pode vender sim, pode não ser sempre um Leminski, mas a Angélica (Freitas) está aí para provar que a nossa geração pode criar assunto, conversas paralelas, interesse.
– Alguns escritores ainda veem a poesia como um veículo de resistência. Diante disso, como é integrar o mercado editorial?
– Não vejo nem uma coisa nem outra. O livro é um produto também, tem preço de capa e direitos autorais. Ao mesmo tempo, não vejo como um produto no sentido de ficar rica com isso, de fazer minha vida em cima disso, de pensar em dinheiro quando se pensa em poesia. Nesse sentido, a poesia pode ser resistência sim, mas ela fica no meio do caminho. Quem for publicar poesia pensando em ganhar dinheiro ou ficar famoso é melhor procurar outra área. Ela tem um papel político, de ser, talvez, o gênero que fica de fora, o menos prestigiado nas compras grandes.
– Esse atual momento de destaque em que a poesia se encontra tem muita influência dos saraus, da retirada dos versos dos papéis para os palcos.
– O que acontece é que o autor, hoje em dia, não é mais aquele cara que escreve sozinho no quarto. O autor cumpre outro papel, com certa performance, preenchendo outros espaços. Cada um faz isso num estilo próprio. Tem o Chacal que é hábil na poesia falada e no Rio é uma das figuras mais importantes, um mestre para todas as gerações que vieram depois, inclusive para mim. Ele tem esse lado muito performático, que é maravilhoso e único. Não tenho a performance dele. Nem de perto me sinto uma seguidora da poesia falada. Mas o poeta precisa, sim, ter a sua maneira de falar, de conseguir levar sua poesia para fora do livro. Você pode ser tímido e ler o poema. Fico sem graça de encarar plateias.
– Como expoente dessa nova geração, como você vê o seu entorno?
– Eu acho a nova produção incrível. Tenho muitos amigos e não digo isso por panelinha. Pelo contrário, fiquei amiga porque li os livros, fiquei encantada e entrei em contato com muitos poetas novos. Estamos vivendo um momento muito interessante de produção poética. E não é só para poeta que isso interessa. Pessoas de outras áreas estão percebendo que a nossa geração tem algo a dizer, um jeito de dizer que interessa.









