‘De achismo, o país está cheio’
Isento de qualquer relação com a cena juiz-forana, Aldo Valentim dispara em entrevista à Tribuna: Ambas as experiências me apontam que há muita vontade de fazer por parte dos artistas. Cabe ao poder público local potencializar e qualificar essas atividades, afirma o gestor cultural de São Paulo, fazendo referência a dois espetáculos produzidos com apoio da Lei Murilo Mendes. Todo projeto com financiamento público deve ter monitoramento, exigir prestação de contas, receber avaliação quantitativa e qualitativa sobre os seus impactos. A falta desses fatores são vícios que precisam ser extirpados da gestão cultural, diz ele, que esteve em Juiz de Fora, no último sábado, para participar da segunda edição do seminário Empreendedorismo e incentivos fiscais: soluções públicas para a cultura, promovido pela CorreCotia Produção Cultural.
Valentim teve o primeiro contato com a arte aos 8 anos de idade, na periferia de Osasco. Aos 19, decidiu que não queria se profissionalizar como ator e, sim, como produtor, época em que assessorou artistas como Regina Duarte e algumas companhias experimentais. Atualmente é coordenador do projeto Ademar Guerra, desenvolvido pelo Governo do Estado com grupos teatrais do interior e litoral paulistas. O trabalho se realiza em cima da contratação de artistas-orientadores para acompanharem os projetos de pesquisa e/ou montagem de espetáculos. Não sou um artista, sou um burocrata (=gestor) que administra programas governamentais no campo das artes. A mudança foi ocasionada pela minha passagem pelo governo e gerou uma reflexão que possibilitou uma reorientação do meu posicionamento pessoal, profissional e acadêmico. Tal mudança não é modelo para os artistas, pois, para esses, creio que três vetores são fundamentais: capacitação constante, planejamento estratégico e visão empreendedora.
Tribuna – O que você pensa sobre os critérios de avaliação das leis de incentivo?
Aldo Valentim – Creio que cabe sempre revisão e reflexão desses mecanismos no intuito de aprimorá-los e diminuir vícios e distorções. O problema é que não existem critérios, é um jogo de vale-tudo. Não há uma regulação do setor, e não há regulação do estado. Não há avaliação quantitativa e qualitativa do que é aprovado etc. O que os governos precisam refletir, com apoio da sociedade e do setor cultural, é: qual o público alvo da política de subsídios via leis de incentivo? Quais oportunidades para os artistas emergentes? Quais grupos ou artistas já se sustentariam pela própria dinâmica de mercado, deixando portanto de utilizar os subsídios das leis de incentivo? Qual a prioridade para aplicação dos recursos públicos concedidos via leis: grupos emergentes? Grupos e artistas de mercado? Não são questões fáceis de se responder.
– Para que haja montagens de qualidade, não deveria existir monitoramento?
– Qualidade em artes é um conceito polêmico, complexo, diverso e complicado, depende da relação qualidade de elenco, texto, direção, pesquisa, satisfação do público etc. Se um grupo recebeu fomento, ele teve sua proposta avaliada pelos órgãos públicos, que concederam a verba ou a aprovação no edital. Se for visível que essa companhia tende a produzir espetáculos fracos ou sem qualidade (com todos os poréns permitidos nessa afirmação), é importante que o órgão responsável repense sua política: investir em capacitação artística dos jovens integrantes dos grupos, formação em atuação, direção e dramaturgia etc.
– Na sua passagem por Juiz de Fora, você teve a oportunidade de assistir a dois espetáculos produzidos com incentivo de uma lei local. Gostaria que fizesse um diagnóstico do que viu.
– Foi rico conhecer os dois trabalhos. Teófilo – Um sonho de liberdade aborda uma temática até hoje polêmica, a escravidão, a condição do negro no Brasil, o desejo por liberdade etc, possibilitando diversas reflexões sobre as discussões que atualmente travamos no campo das políticas públicas: cotas, inclusão e reinserção do negro no mercado de trabalho. A dança, numa coreografia maravilhosa da busca de Teófilo com a música Cordeiro de Nanã, de Margareth Menezes, expõe a energia e é a síntese do espetáculo. Bons atores numa busca bem rica. A trilha sonora é maravilhosa, bem inovadora. O espetáculo Dorian Gray me passa ainda a necessidade de elementos básicos do teatro. Assisti a praticamente 60 minutos da peça e, infelizmente, tive que sair para atender uma pessoa.
– Você disse que o projeto Ademar Guerra contempla grupos que são bons e outros que não são tão bons. Como você lida com essa questão?
– Não se trata de grupos que são bons ou que não são bons, mas grupos que estão em momentos diferentes. Um grupo não chega ao sucesso artístico sem ter estudado, sem ter tido contato com o público ou a experiência do equívoco. O que tem que pensar é que os projetos públicos (mostras, festivais, projetos de formação) devem conter em si mecanismos que potencializem o talento da companhia, fazer um diagnóstico daquele seu momento, mostrar pontos fortes e fracos, além de vetores para seu desenvolvimento. Logo, se você não permite ou não estimula esse caminho, como o grupo se desenvolverá? No caso de um festival, é legítima a cobrança por qualidade artística, mas isso não pode estar desconectado da realidade local. Se o gestor local observa que os grupos não apresentam a qualidade desejada, tendo como base um dado referencial, ele deve propor políticas para mitigar esse problema: cursos, palestras, estágios e projetos de monitoramento. O processo de assistir a espetáculos produzidos em outras cidades, através da visita a festivais e/ou temporadas ou, ver peças no próprio festival, também são possibilidades de apresentar panoramas para estes grupos locais para que eles possam refletir sobre o seu fazer. Não basta só a reflexão, o poder público tem que entrar pesado em formação, capacitação e medidas para inclusão desses grupos no circuito cultural e nos sistemas de validação das artes.
– Você disse que não devemos transformar a arte em academia e que muita coisa só é resolvida no palco. Nesse contexto, onde situa a pesquisa?
– Acredito no protagonismo da arte, e isso não exclui a pesquisa, mas a pesquisa com método, planejamento, referencial teórico/prático e recursos humanos adequados para transformação dessa pesquisa em reflexão, conhecimento, técnicas e propostas no palco, na cena. Muito academicismo, sem a prática no palco e sem o contato com o público, não valida a arte. Um grupo ficar dois anos em um processo de pesquisa com referencial equivocado, sem planejamento, sem metodologia… não está fazendo arte, pois o fenômeno teatral só ocorre através do contato com o público. De achismo, o país está cheio.
– Você vê avanços na regulamentação da profissão do artista?
– Às vezes, observo movimentos incansáveis por ampliar a verba para os editais (para o criativo) e não vejo o mesmo empenho para batalhas sobre direitos mais concretos para o trabalhador. Recentemente, foi aprovado um projeto de lei que propõe o seguro-desemprego para os artistas, uma categoria formada por 65 mil trabalhadores, que representa 0,08% da população economicamente ativa, dado que 85% deles estão desempregados ou na informalidade. Não vi nenhuma grande repercussão entre as instituições, movimentos e artistas. Muitos, inclusive, desconheciam a tramitação da lei. Não adianta nada sair de uma apresentação e ter que fazer a refeição através de permuta com restaurantes ou não ter condições mínimas de se manter. O ganho dos direitos dos empregados domésticos, através de uma emenda, que alterou o artigo 7º da Constituição (algo que exige quórum qualificado para a votação e amplas negociações político-partidárias), demonstra um pouco esse cenário. Os empregados domésticos, com todo preconceito e dificuldades pelas quais passam (dificuldades de formação, baixos salários etc.), venceram uma batalha enorme. Por que os artistas, que se dizem tão intelectualizados ou com prestígio social, não alcançam direitos elementares para a sua subsistência?









