Tesouro em palavras
Na escola municipal Professora Áurea Nardelli, no Bairro Vila Esperança II, todos os dias, no começo das aulas, alguns minutos são reservados para um passeio por um mundo repleto de aventuras. Desde 2007, professores, direção e coordenação unem esforços para levar aos alunos da educação infantil ao 9° ano o projeto Hora da leitura, que trabalha a diversidade dos gêneros textuais, associando a literatura a um leque de atividades lúdicas. Utilizamos diferentes dinâmicas para ler e trabalhar livros, reportagens de jornais e revistas, poesias, textos relacionados a datas comemorativas e que são do interesse deles, explica a professora do 5º ano Fernanda Ramos. Como resultado, é apontada a progressiva melhora nos índices alcançados pela escola no Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa), da Secretaria de Estado de Educação. As notas vêm melhorando, mas ainda queremos alcançar índices maiores, avalia o vice-diretor Gutemberg Rodrigues.
Desenvolver o gosto pela leitura e pela escrita dentro da escola é algo visto como essencial pelo vice-diretor. Livro é caro. Nós sabemos disso. Muitos dos meninos não têm acesso à leitura em casa. Por isso, buscamos oferecer e organizar um espaço de leitura acessível, disponível a eles. Não adianta conseguir material e deixá-lo guardado, enfatiza. Neste sentido, as portas da biblioteca da escola, comandada pela bibliotecária Lucimar Valverde, estão sempre abertas aos alunos. Pelo menos uma vez na semana, as turmas têm um momento reservado para visitar o espaço. E eles cobram isso, diz Gutemberg. Mais que uma obrigação, a atividade, que se tornou um hábito prazeroso, estimula a criatividade, a comunicação e a visão crítica dos pequenos.
Para marcar o Dia Nacional do Livro Infantil amanhã, quando também se comemora o aniversário de 130 anos de Monteiro Lobato, vale a reflexão de que iniciativas como essa podem, no futuro, fazer com que a sociedade vislumbre resultados mais satisfatórios que os apontados recentemente pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil – considerada um dos mais aprofundados levantamentos dedicados a conhecer o perfil do leitor brasileiro -, realizada pelo Instituto Pró-Livro. De acordo com o estudo divulgado no último mês, o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, e apenas metade da população (88,2 milhões de pessoas) pode ser considerada leitora. Encaixam-se nesta categoria aqueles que leram pelo menos um livro – inteiro ou em partes – nos últimos três meses. O levantamento entrevistou mais de cinco mil pessoas em 315 municípios.
Em 2008, pesquisa semelhante divulgada pelo instituto apontou que o brasileiro lia, em média, 4,7 livros por ano. A entidade não considerou que houve queda no índice de leitura no país, já que a metodologia da pesquisa sofreu pequenas alterações que visavam torná-la mais precisa. Para a gerente de projetos do Instituto Pró-Livro e uma das coordenadoras do levantamento, Zoara Failla, diferentes seguimentos da pesquisa devem servir para orientar políticas públicas de incentivo à leitura, mas ela acredita que a responsabilidade com a causa deve ser assumida por toda a sociedade. É absurdo sabermos que 40% da população têm dificuldade para ler. A base, a alfabetização funcional, precisa ser melhorada, pois dificilmente uma pessoa vai gostar de ler quando existem lacunas de letramento, constata.
As práticas de leitura na escola devem ser repensadas, pois esse momento acaba se transformando em tarefa, em obrigação. Ao invés de despertar o prazer da leitura para a vida, vai causar aversão. O modelo de biblioteca adotado na maioria das cidades brasileiras também é visto como fator prejudicial ao incentivo à prática pela especialista. As bibliotecas estão fechadas à comunidade. Não estão abertas nos horários de lazer, como nos finais de semana, e não oferecem atrações culturais que convidem as pessoas a frequentá-la. Ela apenas guarda livros, e isso precisa ser revisto, enfatiza Zoara.
Sensível mundo que é só deles
Um dos escritores de livros infantojuvenis mais consagrados do país – ganhador do Prêmio Jabuti e autor da série de sucesso protagonizada pelos karas, A droga da obediência -, Pedro Bandeira aposta na sensibilidade dos pequenos leitores para prender a atenção de crianças e jovens e estimular o precioso interesse pela leitura. Precisamos fornecer histórias em que sejam retratados os pensamentos, os anseios e as opiniões desse público. Os livros devem ser como espelhos, em que os jovens leitores se vejam refletidos; nada de conselhos, nada de tentar ‘ensinar’ coisas através da literatura. A literatura tem de fazer vibrar, chorar, emocionar-se.
Contudo, adentrar no universo infantojuvenil nem sempre é fácil. É um universo de espontaneidade, e nele todas as possibilidades estão abertas para a criação, destaca a professora e escritora Maria Helena Sleutjes. Autora de livros destinados a esse público, como Teodoro e Marina, a educadora acredita que para atingir crianças e jovens – e fazer com que eles se identifiquem com os livros – é preciso estar aberto às aventuras deste mundo que é só deles. À medida em que vamos amadurecendo, perdemos esta espontaneidade. Para a escritora, existem bons títulos focados no entretenimento e nos temas educativos, mas, compartilhando a ideia de Pedro Bandeira, a autora acredita no poder das obras que falam sobre sentimentos infantis. Esses temas fazem com que as crianças se identifiquem com a leitura, já que muitas vezes não há espaço para eles nas conversas, nem em casa, nem na escola.
Maria Helena é idealizadora de um projeto de formação de leitores, que leva como meta aos pequenos a leitura de 50 livros ao longo de um semestre letivo. O programa Clubinho do livro não é uma obrigação, mas uma brincadeira, pois a cada livro adotado na biblioteca do colégio e comprovadamente lido, uma nova estrelinha – ou qualquer outro símbolo de incentivo – é acrescido à caderneta do aluno. Isso acaba se tornando um hábito muito saudável, avalia a educadora, que já implantou o projeto no Colégio Santos Anjos. Não há como negar que a escola é hoje a grande educadora, pois a sociedade vive um momento em que os pais são obrigados a estar ausentes.
O ideal, segundo Bandeira, seria que cada criança fosse apresentada aos livros no colinho da mamãe, do papai ou da vovó. Como isso nem sempre é possível, a solução encontrada foi, de acordo com o escritor, encarregar as pobres professoras, mal pagas e mal formadas a não só alfabetizar as crianças, como torná-las capazes de entender o que lêem e encontrar prazer na leitura. E muito elas têm conseguido. As gerações mais novas, graças à escola, lêem muito mais que seus pais, avalia o autor.
Sempre fomos analfabetos, com a coroa portuguesa nos mantendo no atraso, numa colônia escravocrata, em que a imprensa e os livros sempre foram proibidos. Mesmo depois da independência, da libertação dos escravos e da república, continuamos a viver sem escola, ou com uma escola que só existia para as minorias. Somente após a redemocratização ou, para falar a verdade, só a partir de 1996, estamos tentando construir uma escola democrática, aberta para todos os brasileiros. Mas, até conseguirmos criar gerações letradas, com famílias capazes de introduzir seus próprios filhos no mundo da leitura, como já acontece nos países desenvolvidos, temos de ter paciência e esperar uns bons anos, observa Bandeira.









