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Agruras humanas


Por RENATA DELAGE

17/03/2013 às 07h00

Uma Mulher Grávida que, eternamente grávida, vende seus filhos para sobreviver. Uma Menina vendida a peso de ouro para um Vendedor de Bíblias, que descobre uma lucrativa fonte de renda e prestígio político ocasionada pelos prazeres provocados pela ninfeta. Um Negro, escravo do comerciante, que almeja mudar a história do povoado em que vive – e que todos reinventam a todo tempo. Esses são os personagens que tomam o palco em Uma história oficial, da Cortejo Cia. de Teatro, nascida em Juiz de Fora, em 2010, a partir do encontro entre atores locais e de Três Rios, reunidos pelo diretor Rodrigo Portella, também da cidade fluminense.

Sob os olhos curiosos da crítica e da classe artística, o espetáculo estreou, na última terça, a temporada de oito semanas no Teatro Laura Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Após sua estreia em 2011, a trupe despertou a atenção do público e dos críticos no Festival de Teatro de Curitiba (Fringe), em abril de 2012, e, em junho do mesmo ano, a montagem se consagrou como a vencedora do Festival de Teatro Cidade do Rio de Janeiro, com oito indicações e quatro prêmios – melhor espetáculo, direção, iluminação e atriz coadjuvante (Lívia Gomes).

Para a nova temporada carioca – o grupo já havia se apresentado no Teatro Princesa Isabel também como premiação deste festival -, Marcos Bavuso e Lívia Gomes, que atuam ao lado de Tairone Vale e Bruna Portella, vão se revezar com Tales Coutinho e Verônica Rocha.

Escrito por Tairone Vale e Rodrigo Portella, o espetáculo foi patrocinado pela Lei Murilo Mendes e aprovado nos editais de Montagem de Artes Cênicas da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. O texto, que procura unir o drama e a comicidade da vida comum para discorrer sobre temas complexos, como exploração sexual, religiosidade e racismo, foi livremente inspirado na prosa de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, além de recorrer às premissas de Eduardo Galeano sobre a fictícia história oficial da América Latina. A leitura de ‘A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada’, de García Márquez, iniciou um debate no grupo e, assim, a personagem da Menina foi ganhando corpo, e a história como um todo foi surgindo, conta Tairone.

A possibilidade de debater temas políticos de maneira contundente, que envolvem as obscuridades da sociedade, surge no espetáculo sem que seja necessário levantar bandeiras ou chegar a uma moral da história. Não é um texto panfletário. A política abordada é uma política do ser humano, relativa às suas questões e opções, diz Tairone. Mas, de certa forma, acredito que meu pessimismo acaba prevalecendo em relação ao otimismo do Rodrigo, completa.

A aceitação do público em relação a Uma história oficial foi, segundo Tairone, uma grata surpresa. Esperávamos reações diferentes, já que tratamos de temas bastante fortes, que poderiam, de acordo com a plateia, provocar certa rejeição ou repulsa. Mas não é isso que vem acontecendo, avalia. A diferença entre as as plateias do interior e da capital está talvez, segundo Tairone, no maior interesse dos cariocas em avaliar a montagem em relação à técnica e ao seu valor artístico. O que mais escutamos são críticas que se referem ao texto, à concepção dos personagens, à atuação. E essas repostas têm sido bastante positivas, relata.

A Cortejo Cia. de Teatro pretende continuar a contar a história desses quatro personagens, em sua incumbência de inventar uma nova cidade, suas ruas, casas, rios e habitantes. Por mais que já estejamos dois anos em cartaz, sabemos que a peça ainda tem uma vida longa. E pretendemos aproveitar isso, levando-a a outros palcos, como, quem sabe, São Paulo e Belo Horizonte. Logo após a temporada no Rio, em maio, a companhia fará apresentação única em Nova York, nos Estados Unidos.

Embora focado no projeto, o grupo já se dedica à nova montagem Antes da chuva, inspirada no romance O leitor, de Bernhard Schlink, publicado em 1995, e que ganhou, em 2008, uma adaptação cinematográfica homônima, dirigida por Stephen Daldry. O espetáculo deve ser apresentado pela companhia no próximo Festival de Teatro de Curitiba.