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Memórias, aos 29 anos


Por MAURO MORAIS

16/07/2013 às 07h00

A tia gritava ao ver um urubu: urubu urubu sua casa / tá pegando fogo. O pai gritava ao ouvir um barulho na rua: aposto qué bujão de gás. A vó gritava quando via avião: é seu tio!. Mas o que mais lhe marcou foi a mãe dizendo: seu irmão não vem mais brincar com você / papai do céu levou. Na porta de entrada de Rua da padaria (Editora Record, 66 páginas), de Bruna Beber, o poema o que dói primeiro, é o ápice sentimental do memorialismo que a poeta nascida em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, estabelece em seu percurso rumo à infância.

Logo na capa, uma referência ao saudoso papel avermelhado que servia para embrulhar, com fita durex, mercadorias em mercearias ou padarias mais humildes. Na contracapa, os velhos sacos de pão, que também serviam como espaço para anotações. Aos 29 anos, Bruna, certamente, não tem um mundo a contar, mas se apoia nas sutilezas de um passado quase presente para escancarar algumas ruínas. não há / sequer / um ser // humano que caminhe / pela bola – há quem / a diga achatada – // que não tenha / não teve / ou nunca terá // uma / toalha / bordada, brinca em as avós e as tias.

Lançado na última Festa Literária de Paraty, a Flip, que terminou no último dia 7, Rua da padaria é um dos expoentes da nova produção poética contemporânea. Sua autora integrou, junto a Alice Sant’Anna e Ana Martins Marques, a mesa O dia-a-dia debaixo d’água, sobre a poesia brasileira atual. Como sua geração, Bruna lança mão dos versos livres e de altas doses de humor para recompor uma geografia afetiva da Baixada Fluminense que abandonou há pouco mais de seis anos. felicidade é o que tem dentro / das bolinhas de papel, diz em de castigo na merenda, quando conclui, após resgatar guerra de travesseiros, pique-pega, pipa e outras diversões: a felicidade é muito mais / desconcertante que a dor.

Se é no tom nostálgico que Bruna Beber atinge a leveza dos discursos sentimentais, o mesmo não ocorre no conjunto de poemas sob a temática do amor, agrupados em bloco no meio da obra. Em romance em doze linhas, a autora estabelece 12 pontos que resumem todo o processo do amor. De quanto falta pra gente se ver hoje, até quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu, o eu-lírico passa pelo quanto falta pra gente se ver dia sim dia não e quanto falta pra gente não querer se ver.

Segundo o poeta Chacal, um dos principais nomes da cena poética carioca, o trabalho de Bruna magnifica a poesia. A Bruna me encanta, talvez porque goste de contos de fadas adaptados à pancadaria do clube da luta de hoje. Bruna vai escrevendo a história de sua geração, entre gotas de sangue e rasgos de risos, derrete-se na apresentação do livro o fundador do CEP 20.000, um dos maiores saraus do país.