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Cristiano Rodrigues estreia em individual com ‘Máquinas de ver’


Por MAURO MORAIS

15/10/2014 às 06h00- Atualizada 17/10/2014 às 12h49

Dividida em cinco espaços, exposição apresenta diversas técnicas com materiais reciclados

Dividida em cinco espaços, exposição apresenta diversas técnicas com materiais reciclados

Ao que ainda não tem nome: coisa. Ao que está por surgir, ao que ganhou nova leitura, novo corpo: a mesma coisa. O artista visual Cipriano é um fazedor desses que, ao impor novos significados a objetos cotidianos, acaba por recriar o mundo. Pseudônimo do produtor e professor da Faculdade de Comunicação da UFJF Cristiano Rodrigues, Cipriano – “esse é meu apelido desde criança, quando meus irmãos queriam me irritar, chamavam-me assim” – representa o reposicionamento de um sujeito comunicador. “Não que esteja em crise com a comunicação, nunca houve isso. Não sou jornalista, sou formado em Rádio e TV, mas só fiz o curso, porque sempre gostei do outro, das pessoas. Achava que a comunicação era uma espécie de acesso privilegiado ao outro. Com o tempo, fui percebendo que nem tanto. A arte é a forma de chegar ao outro efetivamente”, comenta Cristiano, que inaugura “Máquinas de ver” nesta quinta, às 20h15, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

Dividida em cinco espaços, a exposição apresenta, logo na entrada, uma instalação feita com potes e papeis descartáveis, denominada “Pirarucu” – “são bichos que parecem peixe, parecem ave”. Em seguida, Cipriano expõe caixas de acrílico nas quais uma placa de madeira serve de suporte a colagens de objetos memorialísticos. “É uma ideia de laboratório, como se o mundo tivesse acabado, e cada caixa foi encontrada na casa de alguém, então, de cada pessoa só restou aquilo, uma foto, uma joia, um pedaço de exame de sangue. Isso também pode ser encarado como estudo de personagem no cinema, quando se separa os pontos de cada perfil”, explica o artista.

Nos ambientes restantes, quadros elaborados com montagens de filtro de pó de café e outros elementos que poderiam estar no lixo ganham iluminação com lâmpadas de LED, esculturas de plástico com embalagens recicladas formam seres estranhos, e painéis elaborados também com os filtros e recortes de jornais e revistas, além de cartões e outros papeis pessoais, remontam o universo particular e referenciado de um artista provocativo. “Arte não é só o belo. No cinema, por exemplo, que é minha praia, área de estudo e atuação, há filmes que me fazem muito mal e depois vejo que adorei, mas a experiência, que é uma porrada, mexe comigo. A arte tem que cutucar, incomodar, tirar da zona de conforto”, comenta Cristiano, na pele de Cipriano.

Movimentos sensoriais

“Tenho um pouco de compulsão por guardar. Naturalmente comecei a eleger alguns objetos que gosto, que tenho afeto e acho interessante”, diz Cristiano, que encontrou a motivação necessária para se revelar artista quando foi morar, por alguns meses, na Espanha. “Senti a solidão da pesquisa, quando saí do âmbito da criação coletiva – em cinema, TV ou sala de aula – e fiquei sozinho. Eu, as ideias e meu orientador. Isso me levou a criar. No doutorado estudo uma dimensão estética da atitude humana, de ter uma reação às coisas. Meu orientador espanhol chama de compreensão performativa, que é fazer alguma coisa com o que você vê, com o que aprecia, oferecendo sua resposta ao mundo e às coisas”, diz.

A resposta de Cristiano ao mundo se dá numa criação pautada pela reelaboração do que é lixo. Na produção de Cipriano, não há lixo, há coisas. “Fico muito impressionado com o volume de lixo que geramos. Há alguns objetos que gosto tanto do design que não consigo jogar fora. O Caetano Veloso tem uma música que fala do amor que impregnamos nos maços de cigarro (“Livros”), e eu tenho isso com o coador de pó de café. Não consigo descartar aquele papel poroso. Acho bonito, gosto do tato, acho que é uma coisa preciosa”, conta ele, que diz não apenas selecionar o que deve permanecer, mas pensa na destinação de tudo, com uma composteira que tem em casa, além de outras atitudes sustentáveis.

Contudo, ainda que a padronagem dos filtros de pó de café saltem aos olhos, bem como os bichos criados com garrafas e potes plásticos, o que está em jogo é a formatação de uma nova sensorialidade para o que já foi tocado. “Minha expectativa é criar sensações. O trabalho não tem objetivos comerciais, mas outro valor. São obras de deslocamento, de questões. Algumas têm perguntas e ideias, mas não necessariamente penso em um discurso. Cada obra fala por si”, aponta o artista. “Máquina transmite movimento. A obra nunca é só o que você vê. Os painéis têm transparência e mudam com a variação da luz, os objetos de acrílico têm lugar para mexer, a instalação tem vento e áudio. Acho que tem a ver com o cinema, uma história de imagem em movimento”, destaca, comentando o título.

Acadêmico constantemente identificado com a linguagem contemporânea – ele produziu diversos filmes do cineasta Marcos Pimentel -, Cristiano Rodrigues diz tentar “cobrar do mundo, de tudo o que vivo, algo além do tempo a que pertenço”. “Tem um olhar contemporâneo, mas também é quase artesanato. Em alguns momentos, me peguei nessa encruzilhada, até relaxar e não me importar. Como não é a minha área de formação ou atuação, existe um medo, mas também uma não cobrança. É o que estou a fim de fazer, é a minha onda. Tanto que não pergunto às pessoas que já viram se gostaram ou não. Não passa pelo gosto. Me desperta muito mais saber o que provocou.”

“MÁQUINAS DE VER”

Abertura nesta quinta, às 20h15. Visitação de terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 21h. Até 9 de novembro

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Av. Getúlio Vargas 200)