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Entre a galeria e a vitrine


Por MAURO MORAIS

15/10/2013 às 07h00

Arte no corpo sugere performance, mas dificilmente relaciona-se à moda. A arte que se veste ainda não é vista em igualdade com trabalhos expostos no cubo branco. Isso, porque, mesmo na área, os debates que se arrastam há anos ainda são inconclusivos. Incendiada pela aprovação, via Lei Rouanet, dos projetos dos estilistas Pedro Lourenço, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch, a discussão ganha ainda mais fôlego diante de um cenário controverso. Em Juiz de Fora, ainda que existam quatro graduações superiores em moda, a cena artística e cultural ao redor da expressão é bastante tímida, mesmo com a presença vigorosa de criadores reconhecidos fora da cidade.

Perguntadas se inscreveriam projetos para a Lei Murilo Mendes, as profissionais de moda na cidade entrevistadas pela Tribuna se dividem. A estilista, produtora de moda, figurinista e diretora de arte Babi Crivellari já tentou aprovar projetos, mas nunca foi contemplada. "Não há esse foco ou uma modalidade específica. Tenho outros projetos que nunca nem tentei pois vejo que não há essa abertura. Torço por mudanças. O cenário nacional e o local, proporcionalmente, são semelhantes nesse aspecto", comenta. "Já pensei em instalações urbanas, mas sei da pouca abertura. Além disso, tudo é muito burocrático", complementa a estilista Gabriela Gonçalves. "Se eu tivesse alguma ideia de trabalhar a moda como manifestação cultural, não seria através de um desfile da minha marca", destaca Maria Hallack, professora da Faculdade Estácio de Sá e estilista da marca Pocossô Mulé.

De acordo com o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, a lei municipal não aprovaria desfiles de uma marca, já que o edital estabelece a necessidade de que o produto seja eminentemente cultural. "Não há qualquer resistência e nenhuma vedação na lei", afirma Dutra, que diz admirar a expressão. "O comportamento de moda tem muito a ver com o comportamento humano", acrescenta, pontuando que projetos como um livro de história da moda na cidade, uma exposição de moda ou outros semelhantes seriam muito bem-vindos. "É uma aproximação a se fazer", diz. Fazendo coro à Toninho, Maria destaca: "A sociedade tem que se interessar mais pela moda, para que ela passe, assim, para outro patamar, e, quem sabe, depois disso possa ser considerada uma expressão artística por todos".

 

 

Obra para ser usada

Formada em artes e design pela UFJF, Gabriela Gonçalves exporta sua marca, a Maria Buzina, para Japão, Portugal, Estados Unidos, Grécia, Alemanha e Venezuela, além de diversos estados brasileiros. Segundo ela, as vendas na cidade ainda são muito pequenas. "O carinho e o reconhecimento no exterior são muito maiores. Acredito que isso se deve a uma ausência de cultura de moda, de saber valorizar", comenta. Eis, então, um ponto fundamental capaz de diferenciar a moda das outras expressões artísticas: mercado e criação são aspectos que andam juntos, se relacionam influenciando um ao outro.

"Existe todo um processo por trás de uma coleção, desenhos técnicos e ilustrativos superartísticos, a escolha das cores, as estampas e os shapes. Funciona como na arte, em que o artista transmite e expressa seus desejos, sensações, estado de espírito e sentimentos através da obra. Além de tudo, utiliza-se a plena criatividade. A arte e a moda têm algumas metodologias semelhantes, além de estarem convivendo de forma próxima", explica Babi Crivellari. "A moda, assim como a arte, busca inspiração em tudo, em diferentes culturas, na arte, na sociedade e no que acontece no mundo, e no que mais o estilista tiver em mente", complementa Maria Hallack.

"Um objeto de arte que as pessoas vão usar faz muito mais efeito que uma arte exposta na galeria. Cada pedaço das minhas peças conta as histórias dos caminhoneiros, dessas pessoas que estão em nossas vidas diariamente", afirma Gabriela. "Busco referências pessoais, e elas podem ser de qualquer natureza: artes plásticas, literatura, filmes, meu quintal, desenhos, pesquisas de matéria-prima para minhas roupas, minha vontade de ver uma ideia materializada. O que estiver ’em voga’ no meu momento de vida. Se este processo é considerado ou não ‘artístico’, eu não sei, e não me preocupo", conta Maria.

 

 

O preço da criação

De acordo com Selma Flutt, professora do curso de moda da Faculdade Estácio de Sá, um trabalho benfeito em moda demanda altos custos, mas, ainda assim, doses mais altas de subjetividade e conhecimento. "O grande desafio da criação é encontrar seu próprio fio condutor. Identidade é conhecimento e autoconhecimento. Moda é cultura, sim", defende.

Como os pintores, que precisam despender de altas cifras na compra de tintas, telas e pincéis, além de outros materiais, ou o fotógrafo, que sempre necessita alcançar a tecnologia e comprar equipamentos atuais, o agente da moda também está envolto em cifras. "A moda precisa de um incentivo à carga tributária. O cenário brasileiro é muito desanimador", pontua Selma. Para Gabriela Gonçalves, ajudas financeiras contribuem para estruturar uma criação. "Temos exemplos de grandes estilistas que inserem a arte, a ousadia, a inovação em sua profissão. Se não houvesse alguém para investir neles, eles não seriam ninguém", observa.

Autorizados pelo Ministério da Cultura a captar mais de R$ 7 milhões via Lei Rouanet, conferindo isenção fiscal às empresas que patrocinarem os projetos, Pedro Lourenço, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch exemplificam um momento em que o governo começa a voltar atenções para a moda, na certeza de que é uma expressão capaz de exportar a imagem do país. Contudo, também são exemplos de sucesso no mercado. Alvos de inúmeras críticas, os estilistas produziram projetos nos quais defendem uma releitura da cultura nacional, apesar de manterem a afinidade com as elites.

 

"O Pedro Lourenço forçou a barra. No desfile que ele fez, não vemos a Carmen Miranda, só frágeis referências", avalia Selma, que acredita haver, atualmente, uma má distribuição de verbas na área. "Há sempre questões políticas maiores que sociais. No final das contas, quem sai ganhando são muito poucos estilistas e não a classe inteira." Para Maria Hallack, o formato de desfiles como manifestação cultural é muito delicado, tendo em vista que se limita a um grupo fechado e pequeno de pessoas e da mídia. "Já que a Lei Rouanet propõe promoção, proteção e valorização das expressões culturais nacionais, deveriam priorizar artistas que atendam às premissas citadas e que realmente precisem desta ‘ajuda’", ressalta Maria.

Segundo a professora Selma Flutt, os incentivos públicos deveriam priorizar a inserção de novos nomes no mercado, já que os mais experientes conseguem se sustentar pelas vias comerciais. "Vejo mais incentivos públicos para a moda sustentável (para estimular as exportações) que simplesmente incentivo para a criação de uma coleção, sendo essa uma forma de arte e integrante ativa da cultura", observa Babi Crivellari. "Há de se ter esperanças na Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Cnic), que já discute há tempos a acessibilidade da moda/arte/comércio. A iniciativa de dar um empurrão na moda brasileira via renúncia fiscal é tão polêmica sempre que hoje a realidade ainda é a do não acesso, com tantos indeferimentos das propostas já tentadas para esse fim", acrescenta.