Quando o metal desafia

Yure Mendes se dedica ao trabalho autoral, além de atender encomendas (Marcelo Ribeiro/13-07-15)

O tema precisa ressoar dentro dele, mas também prescinde de um caráter provocador para com o metal. Para que o escultor Yure Mendes desenvolva uma peça, é urgente que lhe tire da zona de conforto e seja um desafio na lida com sua matéria-prima. “Só depois que me comprometo com a ideia é que vou saber das dificuldades”, ri, certo de que as complexidades, em seu ateliê, significam força no braço e na mente. “É um cansaço físico e mental, tanto pelo material ser bruto, quanto por exigir um processo de criação. Ao longo do trabalho, vou percebendo no que ele se tornará”, conta ele, que expõe oito obras no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, sob o título “Sentir”.
Em contraste com a dureza da matéria, as peças em cartaz versam sobre algo subjetivo e abstrato: os sentimentos e emoções. “Nunca havia trabalhado com a cor chapada numa peça só. Daí comecei a pensar nos sentimentos, o que me deu o desejo de fazer estruturas humanóides. O ser humano é igual na essência, e os gêneros diferenciam. Minha ideia era fazer disso uma unidade, sem distinção sexual. Os sentimentos são iguais nos dois, apesar de eles reagirem de maneiras diversas por questões culturais e físicas”, explica o artista, que optou por relacionar cores às palavras, como, por exemplo, a grandeza representada por um amarelo vibrante de uma escultura de mais de dois metros de altura.
“Cada escultura tem uma escala diferente. Queria o aspecto reto, liso e linear. Isso gera dificuldades, porque não consigo muita flexibilidade. Mas aí está o desafio de adequar a ideia ao material. A própria anatomia sugere essa desconstrução”, comenta. “Emoções e sentimentos interagem muito. Às vezes, um parte do outro. Também considerei o que as pessoas tratam como sentimento. A morte, por exemplo, não é um sentimento, mas muitos falam: ‘Nossa, estou com uma sensação de morte'”, completa.
Partida: serralheria
Aos 36 anos, Yure realiza sua sétima individual de uma carreira que começou numa serralheria de Benfica, Zona Norte da cidade. Nascido em Barbacena e transferido para Juiz de Fora aos 3 anos, ele se envolveu com o universo dos metais aos 14. “Minha mãe arrumou um emprego para mim, e fui trabalhar. Fazia de tudo: cortava, soldava, furava. Era ajudante, depois que fui aprender a fazer estrutura metálicas, como portas, janelas, corrimãos. Comecei a me envolver com a arte brincando. Fiz um passarinho, depois uma árvore com um pássaro. Mais tarde, fiz um carrinho e deu errado. Um dia, minha mãe pediu para eu fazer uma mesinha, e começou a dar certo. Após ter muitas encomendas, aos 22, pude me dedicar integralmente ao ofício”, recorda-se.
Passados dez anos em um ateliê no Manoel Honório, Yure retornou ao bairro da infância, onde desenvolve seu trabalho autoral e também o mercadológico, que sofreu transformações. “Minha agenda é praticamente para esculturas. São poucas as vezes em que faço objetos voltados para móveis, decoração e iluminação”, diz ele, autodidata. “Fiz aulas de desenho e pintura, para dominar cor e preparar a peça em detalhes. Ainda quero fazer uma faculdade, mas a rotina dificulta”, acrescenta o artista, que se considera mais amadurecido. “O tempo permite um conceito estético mais apurado, tanto pela evolução da técnica quanto pelo maior conhecimento e domínio dos materiais, além da presença de um maquinário melhor.”
Rainha mítica
Nos últimos seis anos, desde que inaugurou sua primeira exposição, “Tarsilar” – retirando do bidimensional e das abundantes linhas curvas e transpondo para uma linguagem mais concreta e exata a obra da modernista Tarsila do Amaral -, Yure conseguiu romper com a barreira do artesanato e flertar com uma criação menos enrijecida pela utilidade e compreensão. Prova disso é o foco atual. Ele prepara, para o final do ano, a exposição “Maria Antonieta”, com patrocínio da Lei Murilo Mendes. “Já faço esculturas com uma pegada realista, mas queria fazer em uma forma encolhida. O menor possível com o máximo de detalhes. A boneca toda não terá mais que 20cm. A personalidade dela foi o que me deu as ideias. Ela é um mito”, aponta. A mostra deve excursionar por diferentes pontos, partindo do Independência Shopping e passando pelo saguão da reitoria da UFJF, Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, Instituto Granbery e CES/JF.
‘SENTIR’
Exposição de Yure Mendes
De terça a sexta-feira, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 18h. Até 2 de agosto
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)








