Cravo Verde traz montagem de ‘Antígona’ com olhar moderno para Juiz de Fora

Inspirada na tragédia grega, produção tem datas neste fim de semana no Teatro Carlos Paschoal Magno


Por Beatriz Bath*

15/04/2026 às 06h00

A produtora Cravo Verde traz a tragédia grega de ‘Antígona’ para Juiz de Fora, com apresentações no sábado (18) e domingo (19), no Teatro Carlos Paschoal Magno, a partir das 18h. Com um olhar voltado para questões de gênero e identidade, a peça dialoga com a contemporaneidade. Os ingressos podem ser adquiridos pela plataforma Uniticket.

Originalmente escrita na Grécia Antiga, a tragédia ‘Antígona’ segue a personagem, filha de Édipo-Rei, que perde os dois irmãos em uma batalha. Contudo, a rainha nega a um deles todos os direitos fúnebres, e Antígona está disposta a enfrentar o poder e a própria morte para honrar seu irmão. Sobre a adaptação, o ator Leandro Stephan explica que a história tem uma relação profunda com a teoria queer.

“Antígona foi tomada pela teoria queer para discutir quais corpos importam ou deixam de importar. O espetáculo é exatamente sobre o descaso com uma pessoa após sua morte e a possibilidade de uma pessoa se erguer contra esse sistema. No país que mais mata pessoas transviadas no mundo há 14 anos consecutivos, ainda é vital discutir quais vidas importam”, destaca.

antigona
Liz Piza interpreta a personagem Antígona no espetáculo homônimo (Foto: Divulgação)

A Cravo Verde realiza montagens que dialogam com uma ideologia “transviada e estética subversiva”. Stephan explica que “nós vivemos dentro de uma ideologia. Dentro de uma ideologia heterossexual, que regulamenta ‘homens’ e ‘mulheres’ e mata corpos trans, não-binários e de sexualidade desviante. Nossa proposta é sempre criticar essa norma e propor outras formas de existência. A subversão vem exatamente do virar a norma heterocentrada de cabeça para baixo.”

O artista complementa explicando que produções como essas são essenciais em Juiz de Fora, que, para ele, possui um teatro ainda muito heterocentrado e absolutamente cisgênero e binário. “Estamos explicitando a falta de respeito para com o corpo do irmão de Antígona a partir de uma lente transmasculina”, diz. “No entanto, isso, de modo algum, ‘inventa’ corpos trans onde eles ‘não existiam’. Em qualquer regime de gênero, há corpos desviantes.”

Antígona e novos passos

A produção para a peça começou ainda em 2025, pois a equipe queria trabalhar com textos que remetessem à Antiguidade Clássica no ano seguinte. Por conta das questões políticas da obra, ‘Antígona’ foi escolhida, com ensaios e montagem que seguiram a atuação de método e uma combinação de uma estética clássica com o mundo em ruínas cubista. A produção, no momento, não pensa em estender as datas, mas gostaria de trazer a peça de volta para a campanha durante o mês de agosto.

A Cravo Verde também lançará, em junho, o evento Solstício: Desordem & Progresso, no Maquinaria, que junta cenas do teatro e do cinema brasileiros, além de músicas brasileiras, para propor que a ordem positivista da história do Brasil é falsa.

Já em agosto, é a vez do musical “Distrito infernal”, baseado no mito de Orfeu e Eurídice e, em outubro, uma montagem de Shakespeare. Em dezembro, estreia o evento Solstício: Escândalo Estético, que debate o que é arte além da estética.

*Estagiária sob a supervisão da editora Gracielle Nocelli