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Outras ideias com João Francisco Condé


Por MAURO MORAIS

15/03/2015 às 06h00

Coteca é um dos homenageados em mostra no CEU, aberto hoje na Zona Norte

Coteca é um dos homenageados em mostra no CEU, aberto hoje na Zona Norte

O dia começa e termina e continuamos acreditando que nossa pressa é maior, nossos problemas são os mais graves, nossas dores são mais agudas e nossos planos são mais relevantes. Até chegarmos ao outro, um abismo. Nos armamos e até nos esgotamos de nós mesmos. Individualmente seguimos, até nos darmos conta de que um homem, com seus 50 anos, diagnosticado, aos 10, com paralisia infantil, o que o deixou com sérias dificuldades de locomoção, morador de uma casa com apenas um cômodo, numa região bastante empobrecida da cidade, desperta e vai dormir tendo no outro a grande causa de sua vida. João Francisco Condé, o João Coteca, é um incansável. Durante o tempo de nossa conversa, mostrou-me alguns dos 150 pacotes de pão de forma que havia ganhado naquele dia e começado a distribuir pela Vila Mello Reis, na Zona Norte, onde mora. Por algumas vezes, teve seu nome gritado no portão, por moradores próximos. E um vizinho, com os óculos quebrados nas mãos, pedia-lhe uma carona até a ótica mais perto.

Em 2007, um amigo emprestou uma parte de sua garagem, em uma rua no alto do bairro, para que Coteca instalasse dois alto-falantes e fizesse sua rádio, de sexta a domingo, das 17h às 18h. “Tinha uma programação variada, mandava música, falava de cachorros perdidos no bairro, pessoas pediam para eu anunciar documentos que elas perderam, notas de falecimentos, bingos e outras coisas”, conta ele, que desde 2012 passou a atividade para seu Escort 1987 e para um programa numa rádio comunitária de Benfica. Quando é preciso fazer fretes ou receber uma doação maior, como camas hospitalares, ele usa a Kombi que lhe foi doada. “São muitos pedidos de cadeiras de rodas e de banho. Sempre tem alguém doando e alguém precisando. Devo ter umas 50 cadeiras espalhadas por aí, fora muletas e andadores”, diz. Tudo o que Coteca recebe, inscreve seu nome e faz um registro, para que consiga acompanhar os empréstimos, fazendo com que tudo circule, sem nenhum custo.

Os ombros do pai

Baixo e magro, Coteca não aparenta ter a força que demonstra ao levantar com agilidade uma cadeira de rodas para guardá-la no bagageiro do carro. “Como tive paralisia infantil, minha cadeira de rodas era o ombro do meu pai”, conta, justificando o andar manco. “Fiquei dois anos internado no Hospital da Baleia, em Belo Horizonte, e não resolveu. A mãe trabalhava com uma senhora em Barbacena, e ela falou que estava indo para uma cidade que tinha a igreja do Senhor dos Passos. Eu nem tinha roupa, e a mãe comprou aquele saco de linhagem para fazer a camisa e a calça. Quando cheguei lá, era uma escada subindo e outra descendo. Subi carregado e desci andando, a muleta e os aparelhos ficaram lá”, recorda-se, com lágrimas nos olhos. “Não desanimo fácil. As coisas não me interrompem. Passo por cima e vou fazendo meu trabalho social.”

Precisar e ajudar

Nascido em Desterro do Melo, a cerca de 30km de Barbacena, no Campo das Vertentes, Coteca chegou a Juiz de Fora na adolescência, ao lado dos quatro irmãos e da mãe. “O pai tinha largado da mãe, e nós viemos para cá, em 1977”, pontua. Ele ainda estudava, mas com as dificuldades, foi obrigado a começar a trabalhar. Ficou por um tempo ajudando em uma olaria, depois abriu um bar no Jóquei Clube, no qual permaneceu por dez anos, até assumir a função de cobrador de ônibus. Há cerca de 20 anos, dedica-se ao trabalho voluntário. “Algumas pessoas falam que preciso mais de ajuda do que as pessoas que ajudo, mas o que faço é através dos outros”, explica ele, que recebe uma pequena aposentadoria e complementa a renda vendendo produtos de limpeza que fabrica na própria casa.

Rua da Amizade

O que sonha em conquistar?, pergunto, ingenuamente, porque na resposta de João Coteca, não mora o individual. Ao falar de si mesmo, ele sempre fala dos outros. E por isso, seu sonho é ter uma máquina de fazer fraldas descartáveis e um pequeno galpão para reunir todo o material das doações, que ficam espalhados por sua casa. “Minha vontade é ajudar muito mais pessoas, porque são muitos os que precisam”, afirma ele, que tem anotada as necessidades de muitos de seus vizinhos na Zona Norte. Nas últimas eleições, foi candidato a vereador e recebeu pouco mais de 1.700 votos. Ainda quer ter mais voz e mais força para fazer o que faz. Coincidências do destino, Coteca, que cumprimenta todos que cruzam seu caminho, o homem de mãos amigas, mora na Rua da Amizade, sentimento que prescinde do outro para existir.