Literalmente complexo

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Enquanto um garoto anda num rolimã, outros dois jogam bete, uma mulher carrega uma lata d’água na cabeça, um violeiro faz seu som, um feirante movimenta seu carrinho e um jogador chuta a bola. Na cabeça do artista visual Lúcio Rodrigues, essas são algumas das cenas que servem para falar um pouco da Zona Norte de Juiz de Fora. Morador de Benfica, ele exalta uma mistura entre urbanidade e ar interiorano, na pintura que orna o prédio do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) da Zona Norte. As múltiplas faces e tipos dos habitantes correspondem, também, à variedade que marca as funções do espaço, inaugurado neste domingo, na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek 5.899, próximo à entrada do Bairro Araújo, ao lado da Escola Estadual Almirante Barroso.
Após pouco mais de dois anos de obras e com um custo avaliado em R$ 4,4 milhões (sendo R$ 3,5 milhões do Governo Federal e R$ 950 mil da Prefeitura), o complexo é o quarto do modelo no Brasil e o primeiro na Região Sudeste do país. De acordo com informações do Ministério da Cultura, praças com 7.000m² só foram inauguradas em Teresina (com duas unidades), no Piauí, e em Joinville, em Santa Catarina. Segundo o último balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), apenas 53 dos 342 CEUs espalhados pelo Brasil foram inaugurados, sendo a maioria com 3.000m².
Ao passo que confere sabor diferente à inauguração, o ineditismo também sugere os muitos desafios que o projeto encerra. Numa área livre de grades, o complexo conta com salas multiuso, biblioteca com telecentro, cine-teatro com 125 lugares, pista de skate, equipamentos de ginástica, playground, quadra poliesportiva coberta, quadra de areia, jogos de mesa e pista de caminhada, além do Centro de Referência e Assistência Social (Cras), que passa a atuar ali. Para as múltiplas funções, uma equipe de 30 funcionários deverá oferecer atividades esportivas, como vôlei e futsal, e culturais, como hip-hop e teatro. Segundo o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o lugar, aberto de segunda a sexta, das 8h às 20h, e no sábado, das 9h às 16h, deve atrair as mais diferentes gerações, chegando a um público de três mil pessoas por semana.
Inserido em uma região com população estimada em 111.319 habitantes, segundo o Censo de 2010 do IBGE, o espaço ainda carece do uso para que, assim, tenha um perfil. “O desafio está em adaptar uma estrutura padrão a uma realidade específica. Esse contorno só é construído ouvindo a comunidade”, comenta Dutra. Nesse sentido, a pintura de Lúcio Rodrigues torna-se ainda mais representativa, já que o Ministério da Cultura sugere que cada CEU receba uma intervenção artística que dialogue com a comunidade. “É preciso criar uma cultura do pertencimento. Por isso previmos a articulação comunitária, que vai apresentar os serviços existentes para as comunidades e trazê-las para o CEU”, completa o superintendente, durante visita ao espaço, ao lado do prefeito Bruno Siqueira, acompanhada pela Tribuna.
Quem dita as regras
O grande dilema enfrentado pelos espaços já inaugurados no Brasil é o alto custo de manutenção. Enquanto o Governo Federal é o principal financiador da obra, é o município quem arca com as despesas posteriores. A conta pode ser pesada demais e, da caixa de surpresas, pode surgir um elefante branco. De acordo com o prefeito Bruno Siqueira, essa não será a realidade de Juiz de Fora. “Foi inserido no orçamento algo novo para atender a praça. E isso não vai comprometer em nada as atividades que já são realizadas pela Funalfa”, diz. Questionado sobre o acréscimo nas despesas, iniciado justamente em momento de crise, Bruno é direto: “Não queremos fazer festas, oba-oba, nada que seja desnecessário para a população, principalmente nesse momento de aperto financeiro”.
A Funalfa receberá a verba e repassará a uma organização social (OS), que, nesse caso, é a mesma que gere o programa “Gente em primeiro lugar”, a Associação Cultural Arte e Vida (Acav). Alvo de polêmicas no Rio de Janeiro, após o governo fluminense adotar a gestão compartilhada para o Parque Lage e a Casa França-Brasil – críticos acreditam que o Estado acaba por perder as rédeas da cultura -, esse modelo de administração foi o único caminho encontrado pela Prefeitura. “Se não fosse por OS, teria que ser por concurso público, que queremos fazer há um ano, mas está na Justiça, com duas empresas travando o processo licitatório. De outro modo, então, não conseguiríamos inaugurar”, afirma Bruno.
“O grande problema é o uso indevido. Pode haver um trabalho correto e um totalmente equivocado. Nossa experiência tem sido positiva, e nossa fiscalização, absolutamente rigorosa. Essa é uma porta, dentro da legalidade, que pode ser exitosa”, defende Toninho Dutra, apresentando o nome da funcionária de carreira Márlen Paradela Butilheiro como a responsável pelo projeto dentro da PJF. “Fizemos um processo de mobilização social com vários líderes comunitários durante dois anos, e foi muito eficaz, bonito e emocionante”, acrescenta o superintendente. Ao longo dos anos, essa população se viu impossibilitada de frequentar cinemas e teatros devido às grandes distâncias. Agora, eles têm a chance de estarem na plateia e também no palco.








