Ouça agora

O menino voltou


Por BRUNO CALIXTO

14/10/2011 às 07h00

É do caos que o cantor e compositor Pedro Luís retira sua organização sonora. Multifacetado, o carioca também toca, arranja, produz tudo o que for necessário para manter sua vocação plural. Na verdade, vivo da multiplicidade. Ela me abastece, me impulsiona e me faz feliz. Como indivíduo, só consigo produzir nessa pluralidade, que, ao mesmo tempo em que me deixa agoniado quando estou compondo uma letra e resolvo pegar um violão para fazer uma melodia, propicia esse ambiente caótico, onde procuro render o máximo, de uma forma organizada, define o músico, introduzindo o que reuniu em Tempo de menino, primeiro disco solo, lançado essa semana.

As prateleiras só receberão o álbum daqui a um mês, mas o público já pode ouvir as 13 faixas (12 autorais e uma – Hoje e amanhã não saio de casa, de Luiz Melodia) através do link www.umw.com.br/artistas/pedroluis. Mas isso não significa que Pedro Luís tenha rompido com projetos coletivos como o Monobloco e a PlaP. Meus trabalhos coletivos continuam sólidos, mas, por uma demanda particular, embarquei nessa viagem solitária, em que posso ser autor e intérprete das minhas próprias canções, variando os gêneros musicais, ressalta. Quando o indivíduo se alimenta do particular, produz melhor no coletivo.

Tempo de menino (MP,B Produções e Universal) foi gravado no Rio, sob a batuta de Rodrigo Campello e Jr. Tostoi na produção e Renato Alscher na mixagem. A masterização foi no Abbey Road Studios, em Londres, onde finalizar um projeto parece o caminho dos sonhos para muitos do ramo. Para Pedro Luís não foi diferente. Durante um show do Monobloco em Recife (PE), Luciano Queiroga comentou que um amigo havia feito por lá (Abbey Road) e que o preço era bom. Fiquei seduzido pela ideia, mas precisava encontrar um bom engenheiro de som para executar o trabalho da forma como eu esperava. Deu certo. Josh Patch traduziu a sonoridade fonográfica almejada pelo disco, o que me garantiu uma espécie de quilate para o produto final. Fez toda a diferença, conta. Mesmo porque, o lugar tem história no imaginário coletivo da música mundial, acrescenta.

A turnê de lançamento começa no dia 15 de dezembro no recém-inaugurado Studio RJ, no Rio.

Diferentes facetas

Das 12 canções autorais, diversos ritmos e gêneros vêm à tona em dez parcerias: Sérgio Paes (Nas estrelas), Ivan Santos (Crise e Os beijos), Zé Renato (Imbora), Beto Valente e Rodrigo Cabelo (Menina do salão de beleza), Ricardo Silveira (A medida do meu coração), Roberta Sá e Carlos Rennó (Tá?), Ricardo Coelho (Só o esqueleto), Carlos Rennó (Rio moderno) e Antonio Saraiva (Lusa).

A coleção garantiu a Pedro Luís a abrangência necessária para trafegar no universo de quem admira sua atuação frente ao Monobloco ou prefere relembrar seus tempos de rock no Urge (anos 80) ou funk poético no Boato (anos 90). Isso faz parte de tudo o que faço, e são várias as possibilidades de poder escolher entre o repertório que tenho guardado há alguns anos, destaca o cantor.

Na faixa-título (Tempo de menino), por exemplo, Pedro Luís presta homenagem ao bairro onde nasceu e cresceu no Rio, a Tijuca. Tive uma infância muito musical por conta da minha família também, minhas irmãs cantavam bem. Morávamos numa rua onde haviam bons músicos que faziam shows à noite nas calçadas, além de atuarem em festas juninas e apresentações covers do bairro, lembra o compositor, cuja ligação prática com o segmento começou no colégio, durante o antigo ensino primário, levando o músico a integrar corais, como o Cobra Coral, da Cultura Inglesa. Bela fera foi composta para abertura da minissérie As cariocas (exibida pela TV Globo em 2010) e também estará em As brasileiras, atração ainda inédita.

Músico que prima, acima de tudo, pelo conceito da obra, Pedro Luís levou em consideração a questão do tempo, já que a palavra vem estampada na capa do disco. O tempo de conclusão do CD é o do menino mesmo. A maneira devagar de como tudo foi sendo preparado. Planejei 12, mas levei 15 meses para degustar todo o processo, sem pressa. Como aquela história de fazer tudo sem tempo para fazer nada. Correndo devagar, conclui.

Bons e velhos companheiros

O álbum conta com a participação de ilustres convidados nos vocais, como Milton Nascimento em Imbora, Roberta Sá em Os beijos, Erasmo Carlos em Tempo de menino e a cantora portuguesa Carminho em Lusa. Essa última, como Pedro revela, foi uma indicação que veio a calhar com a proposta do músico em banhar a canção com um pouco da melancolia do fado português, cruzando virtualmente a fronteira do espaço. Ela gravou de lá (Portugal) e mandou pela internet. Não nos conhecemos pessoalmente, o que é muito interessante no mundo atual, diz, inserindo-se entre os admiradores das novas mídias. Por meio da tecnologia, gravo e produzo. Vivo das novas ferramentas, é o modo mais democrático.

Os outros intérpretes, contudo, vieram da forma tradicional, se é que é possível classificar esse tipo de encontro. Já havia experimentado ‘Os beijos’ com a Roberta (Sá) em 2007, e deu certo. Já o Milton foi na cara de pau mesmo. Convidei-o, mas nunca imaginei que teria a honra de receber sua voz incrível no disco. Ele tem muita consciência do que cantar quando faz isso junto. Erasmo, por sua vez, só poderia atuar em ‘Tempo de menino’, pois ele também tem um pouco do início de sua trajetória musical na Tijuca, detalha Pedro Luís, atualmente produzindo a trilha para um longa de Vinícius Reis sobre a Praça Saens Peña, na Tijuca.