As superaventuras da memória afetiva
Quem passou a infância com uma camisa amarrada às costas como se fosse uma capa, já pôs uma máscara acreditando ser invencível ou sentiu-se salvador do dia após vencer um jogo de bola ou de tabuleiro certamente já teve seus dias de super-herói. É este sentimento pueril de grandeza que o álbum em quadrinhos "Futuros heróis" busca resgatar, ilustrando, por meio de histórias protagonizadas por crianças, pequenos atos heroicos do cotidiano, com referências a grandes personagens do gênero, como Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Wolverine e tantos outros que povoam o imaginário coletivo.
"Diariamente acontecem coisas dignas de heróis! Inclusive entre crianças, ainda que muitas não estejam cientes disso. Acho que esse é o grande papel do álbum, a ligação deste universo de superpoderes por meio da urgência dos personagens em atender ao ‘chamado’ para intervir em algo em que eles acreditam que possam ajudar", opina, por e-mail, o casal de ilustradores Cristina Eiko e Paulo Crumbin.
A publicação, idealizada por Estevão Ribeiro, que também assina os roteiros, traz os títulos "Cabeça de teia", com arte de Vitor Cafaggi e cores de Paula Markiewicz (homenageando o Homem-Aranha), "O menino submarino" (Namor), feita pela dupla Quadrinhos A2 (Cristina Eiko e Paulo Crumbin), "Cara de lata" (Homem de Ferro), com ilustrações de Caio Yo e as cores de Jânio Garcia, "Um garoto com garras" (Wolverine), com desenhos de Emerson Lopes, "UAAARRGHH" (Hulk), com o traço do juiz-forano Raphael Salimena, "Fantástico domingo" (Quarteto Fantástico), com arte de Leo Finocchi e "Justiça cega" (Demolidor), com roteiro e arte de Mário César.
"Tinha vontade de escrever histórias para grandes heróis da minha infância e adolescência, e essa homenagem foi uma forma que arranjei de fazer isso. Há referências que só adultos que viveram aquelas emoções ou conhecem os personagens entenderão, disfarçadas num roteiro sobre crianças e seus desafios, seja na praia, na pracinha, na escola ou em casa. São menções sutis, até para evitar problemas com direitos de propriedade, afinal estamos falando de empresas pertencentes a grandes corporações, a Warner e a Disney", explica Estevão Ribeiro.
Segundo o ilustrador juiz-forano Raphael Salimena, não há elemento algum no roteiro que aponte explicitamente para os personagens conhecidos. "Os leitores que desconhecem as histórias originais nem farão a associação, mas os fãs, sim. O Hulk, por exemplo, é homenageado com uma HQ sobre um bebê descontrolado, que toma uma vitamina verde para se acalmar e está sempre da cor dela, porque faz muita sujeira. Já as referências ao Batman aparecem na história sobre um menino negro, que mora na rua. Todas as menções são indiretas."
Liga da pracinha
Os leitores aficionados por super-heróis já devem ter notado e estranhado o fato de o álbum só reverenciar personagens da Marvel Comics, deixando de lado importantes nomes da DC Comics, como a Liga da Justiça inteira, integrada, entre outros, por Superman, Batman, Aquaman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde e Flash. A homenagem a eles veio primeiro, na edição de "Pequenos heróis", que ganhou o Troféu HQMIX de melhor publicação infantil/juvenil de 2010, disputando com grandes referências do gênero, como Turma da Mônica Jovem e trabalhos da Disney. O trabalho também já foi publicado nos Estados Unidos e distribuído por toda América e a Europa.
"O público sempre quis um álbum com os personagens da Marvel, e isso estava nos planos. Mas confesso que tive problemas em fazer
estes personagens serem heroicos, porque são sobreviventes ou pessoas com poderes, porém com dramas comuns. Mesmo assim, devido à infinidade de personagens, pensei em 14 histórias, desenvolvi sete e agora estou trabalhando em outras sete para um novo número", adianta o roteirista, que também planeja uma edição com heróis clássicos como Dick Tracy, Fantasma, Mandrake, Tex, Flash Gordon e outros.
Além das palavras
O ilustrador juiz-forano Raphael Salimena destaca que o projeto expandiu as fronteiras do público para o qual foi inicialmente concebido, o infantojuvenil. "Muitos marmanjos cresceram tendo estes personagens como referencial, e ver a releitura deles conquistou esse público, talvez até mais que as crianças. Isso pode estar relacionado com a estrutura das histórias, sem diálogos. A linguagem voltada para os pequenos poderia limitar o interesse de pessoas mais velhas."
Para Cristina Eiko e Paulo Crumbin, o fato de os quadrinhos não terem os tradicionais balões com falas aumenta as possibilidades de inserção comercial da obra. "É uma grande oportunidade para derrubar a barreira da língua, possibilitando que qualquer pessoa possa ler, seja ela brasileira ou não", opina Cristina.
Já Vitor Cafaggi, que assina a capa da publicação, além do traço que dá vida a "Cabeça de teia", acredita que a ausência de texto também abre novas possibilidades criativas. "É um desafio a mais. O desenhista tem que conseguir passar todas as informações usando as expressões dos personagens, sua linguagem corporal, os enquadramentos… tudo tem que ficar muito claro para que a mensagem não se perca."
Na visão de Vitor, quadrinista de importantes projetos como o tocante "Turma da Mônica- Laços", o sucesso de "Futuros heróis" tem a ver com a identificação que ele possibilita com os leitores, por meio da memória afetiva. "Essas histórias têm uma certa nostalgia, um saudosismo, conseguem conversar com a infância de todo mundo. Até com quem já viveu sua infância há muito tempo."
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