ENTREVISTA/Santiago Nazarian, escritor


Por MARISA LOURES

14/09/2012 às 07h00

‘Tenho um gosto discutível’

Os apocalípticos são os pessimistas, os inconformados, os descrentes da salvação da raça humana. É nisso que eu acredito e trabalho, afirma o escritor Santiago Nazarian, eleito, em 2007, um dos autores jovens mais importantes da América Latina, nas comemorações do Hay Festival, em Bogotá, capital mundial do livro. Neste sábado, ele é o convidado do projeto Ave, palavra, promovido pela livraria A Terceira Margem, a partir das 15h. Representando Juiz de Fora, quem participa do diálogo sobre literatura contemporânea é o escritor Anderson Pires, professor do Programa de Mestrado em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora .

Dono de um discurso polêmico e singular, o autor paulista, solitário declarado, defende a estética do individualismo.O indivíduo é que precisa ser protegido, como o homossexual que é expulso de casa, ou o idoso que mora sozinho. Família não é o lado mais frágil e carente da sociedade. Filho de intelectuais, o artista plástico Guilherme de Faria e a autora Elisa Nazarian, Santiago é polêmico e escreve fora dos padrões da considerada alta-cultura. Em seus textos, o jacaré de esgoto que procura seu lugar no mundo, o adolescente que se apaixona pela professora infanticida e o pai que enxerga o filho morto num ator pornô são apresentados em contextos e alegorias bizarras. No bate-papo de amanhã, o escritor faz o lançamento nacional do livro Garotos malditos, o sétimo de uma produção que começou em 2003.

Tribuna – Em uma entrevista que você concedeu à revista Grito em 2007, quando lançou o Mastigando humanos, você disse que seu trabalho não podia ser comparado ao de nenhum outro escritor jovem. Por que ser diferente?

Santiago Nazarian – Acho que essa busca pela diferença faz parte da minha formação, da minha criação. Venho de uma família de artistas, e acho que eles têm mais orgulho de mim por eu ser escritor do que teriam se eu fosse médico ou advogado. De qualquer forma, um filho sempre tende a se desviar um pouco da rota traçada por seus pais, não é? Com pais intelectuais, eu não podia fazer literatura baseada na alta-cultura, nas referências acadêmicas. Sempre segui pelo caminho do trash, dos submundos, do fantástico e do bizarro. Acho que isso traz uma marca pop-trevosa ao meu trabalho que não se vê na literatura brasileira. Aliás, no Brasil, ou você é um escritor sério ou um escritor ruim. Eu prefiro acreditar que não sou nenhum dos dois.

– Em suas declarações você afirma que tem consciência de que algumas escolhas que faz dificultam o estabelecimento do seu perfil como premiável. Que escolhas são estas?

– Escolhas estéticas, alegóricas, metafóricas. Sei que tenho um gosto discutível. Usar zumbis de forma alegórica não é lá muito recomendado – isso é associado à baixa literatura. Questionar também o valor do conhecimento acadêmico é quase um suicídio nesse meio em que todos os escritores são graduados e pós-graduados. Enfim, escolhas como essas é que me fizeram conquistar um público leitor diferente, mas também me fecham várias portas… De qualquer forma, eu preciso fazer o que gosto e sei fazer.

– Você vai lançar o Garotos malditos aqui na cidade. Gostaria que você falasse um pouco sobre esta obra.

– É um livro para adolescentes entre 13 e 16 anos. Eu procuro me colocar ao lado deles para abordar questões como aceitação de diferenças, vida sexual responsável, valor das autoridades. É a história de um menino fã de filmes de terror que vai estudar num colégio para monstros, vampiros, lobisomens etc.. Escrito com humor debochado e uma pata no trash, como sempre.

– Mudou alguma coisa em sua forma de pensar e trabalhar desde o lançamento de Olívio, sua primeira publicação?

– No trabalho, hoje eu vivo apenas de literatura – não só da minha, mas traduções, roteiros, crônicas. Tudo relacionado a escrever, que acaba me acrescentando muito. Na minha obra, acho que se solidificou um estilo mais próprio – eu não renego Olívio, mas acho um livro bastante genérico, que poderia ter sido escrito por qualquer um. O triste é que não tenho mais a empolgação ou a ilusão de que minha literatura vai mudar o mundo, ou mesmo o cenário brasileiro. Cada vez mais, eu acho que quem faz diferente não faz a menor diferença.

AVE, PALAVRA

Encontro com Santiago Nazarian e Anderson Pires

Amanhã, às 15h

A Terceira Margem

(Galeria Pio X loja 127)

3216-7320