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Outras ideias com Gilsimar Cláudio Loures de Matos


Por MAURO MORAIS

14/06/2015 às 04h00

Pepê presenciou acontecimentos históricos de Juiz de Fora (FERNANDO PRIAMO)

Pepê presenciou acontecimentos históricos de Juiz de Fora (FERNANDO PRIAMO)

Era 29 de janeiro de 1984, e Gilsimar Cláudio Loures de Matos tinha apenas 15 anos. Ao lado do pai, na carrocinha de pipoca instalada no Parque Halfeld, diante do antigo prédio da Prefeitura (hoje Funalfa), o jovem viu milhares de pessoas descerem a Halfeld com faixas na cabeça e gritos de guerra. Todos seguiam em direção à Praça da Estação para o comício Diretas Já, que trouxe a Juiz de Fora políticos como Tancredo Neves e Pedro Simon, além de artistas como Gonzaguinha, Fernando Brant, Bete Mendes e Noca da Portela. “Naquele dia, tiramos a barriga da miséria”, recorda-se.

Pouco mais de um ano depois, em 21 de abril de 1985, ele ouvia o rádio ligado ao lado da panela de pipoca quando recebeu a notícia da morte de Tancredo. “Não havia carros na rua. De repente, veio uma ambulância e atropelou um cachorro bem na nossa frente”, rememora. Dez anos mais tarde, em 3 de janeiro de 1995, dois dias depois de passar a faixa presidencial a Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco foi homenageado na Câmara Municipal. Toda a porção lateral do Parque Halfeld havia sido cercada, e o jovem, já com 26 anos e dono de seu próprio carrinho de pipoca, negociou com a comitiva e conseguiu se instalar. “Começou a chuviscar, e como estava com uma sombrinha grande, me ofereci para cobrir o presidente e sua namorada, June Drummond”, conta.

Com o cheiro do milho estourando na panela, Gilsimar viu a política nacional se transformar, os costumes se alterarem e o Parque Halfeld, onde sempre esteve, mudar de cara. Dali, encontrou sua esposa, Bia, viu os filhos – João Victor, de 9 anos, e Luisa, 7 – nascerem e crescerem. “Tenho freguesas que viraram avó. Já vi três gerações passarem por aqui”, orgulha-se. “Vi todas as modificações recentes daqui. Cheguei a pegar a Biblioteca no meio do parque, um lago grande com chafariz. Hoje sinto tristeza por ver que entra governo e sai governo e não vejo um carinho devido com esse lugar”, lamenta o dono do trem colorido que toca música clássica e, numa pequena TV, apresenta novela, futebol, jornal aos que ficam na fila ou esperam um encontro marcado no “pirulito” do Parque Halfeld (o relógio). “Esse já é o quinto carrinho em formato de trem. Tenho o projeto do próximo, mas ainda está no papel.”

Nelson e seus dez filhos

Com menos de 40 anos, Nelson de Matos já estava aposentado por invalidez e precisava complementar a renda. Na década de 1940, o pai de dez filhos, marido de Manuela, resolveu tornar-se ambulante. “Meu pai fazia de tudo, vendia bananas, bola de soprar, algodão-doce e pipoca. Cada época, fazia uma coisa. Naquele tempo, dia de domingo ele ficava no parque, pela manhã, e, na parte da tarde, ficava na Catedral. Já teve momento em que ia para o Cine-Theatro Central ou para a Rua Batista de Oliveira, em frente à loteria, nos dias de jogos. Foi assim que ganhou a vida”, comenta Gilsimar, o Pepê, de 46 anos. “Sou gêmeo e, quando eu era novo, estava passando uma novela na qual tinham os gêmeos Pepê e Bisteca. Pegou o meu, o da minha irmã não”, explica, aos risos.

Pioneiro na pelinha

Pepê, um homem de estatura baixa, cabelos brancos e voz tranquila, aos 7 já acompanhava o pai. “Saí em 1988 para a aeronáutica. Fiquei por quatro anos, mas vinha em minhas folgas para trabalhar na pipoca. Em 1992, meu pai teve um problema sério de coração e me chamou. Como sabia que seria desligado, resolvi mudar definitivamente para cá. Imediatamente estruturei o carrinho todo. Fui eu quem trouxe produtos além da pipoca. No queijinho, o pioneiro na cidade foi o pipoqueiro que está entre as ruas Marechal Deodoro e Batista de Oliveira, o Valmor”, conta ele, que chega por volta das 14h ao local, com a mulher e um único funcionário. Bia sai, com os filhos, às 19h. E Pepê fica até as 23h30.

Com queijinho e com orgulho

Na ponta da língua, Pepê fala sobre o que a pipoca lhe trouxe: “Não enriqueci, mas tenho uma vida confortável. Sempre soube administrar o que ganho”. Também é direto ao falar da receita: “Se tenho algo de especial é a qualidade do que uso, o bom atendimento e a higiene. E o principal, que é fazer o que gosto, com amor”. Só para e toma fôlego para contar as muitas histórias vividas ali: “Já aconteceu de o cara estar com a amante na fila, e a esposa chegar. Aí eu precisei contornar a confusão”. Sobre a crise, não nega e afirma que todos os produtos que usa, exceto o sal, vivem os reflexos do mercado internacional. Sereno, também não nega os olhares enviesados que já lhe foram direcionados, mas algo dentro dele sempre foi maior. “As pessoas ainda têm muito preconceito, mas tenho muito orgulho. Falo para os meus filhos: vocês são filhos de pipoqueiro, e é da pipoca que sobrevivemos”.