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Fora de cena


Por MAURO MORAIS

14/05/2013 às 07h00

Quando havia shows noturnos no Mezcla, daqueles que ultrapassavam as 2h da madrugada, os irmãos Vânia, Tereza e Marcos Marinho, acompanhados da mãe, Dona Cléo, cerravam juntos as portas e iam embora, entre o cansaço e a diversão, para a casa que fica próxima ao espaço. Durante essa semana, os quatro poderão dormir mais cedo. Um bazar – com peças que vão desde os três grandes estandartes localizados na entrada do lugar até perucas e fantasias do acervo, passando por discos, CDs, livros, revistas, quadros e mobiliário – promovido até sábado, das 16h às 20h, espalha lembranças do espaço cultural que esse ano completou 12 anos de existência, divulgando a cena alternativa, com ênfase para a arte latino-americana.

Vendido no ano passado, o imóvel pertencia a donos interessados em arte, que acreditaram na ideia cobrando um valor aquém do mercado imobiliário local, com baixas correções anuais, o que permitia uma vida saudável ao espaço, que nos últimos anos apresentou diversos eventos com entradas gratuitas. "É uma casa que não dá lucros. Não é uma ONG, mas também não rende altas cifras", comenta. Após a venda, feita no segundo semestre do ano passado, Marinho passou a procurar imóveis com dimensões e preço semelhantes, mas, mesmo já tendo percorrido mais de 80 imóveis, não encontrou nada que se adequasse à realidade financeira do Mezcla. "O problema acontece por trabalharmos com arte, que é uma atividade que envolve muita gente", aponta o artista, que, nos últimos anos, comandou projetos importantes, como o Teatro Lido, cujo mote eram textos teatrais pouco conhecidos no Brasil assinados por autores latinos. Ainda sem lugar para acontecer a próxima edição, que deveria ocupar os meses finais de 2013, o projeto de leituras talvez seja o maior vazio que o espaço deixa, já que havia grande dependência de Marinho no processo de produção.

Servindo de abrigo ao Eco Performances Poéticas (que chegou a atrair cerca de 120 espectadores numa noite e hoje negocia com o Museu de Arte Murilo Mendes) e ao Café Filosófico (com debates sobre filosofia e arte, com enfoque para assuntos cotidianos, programado agora para ocorrer numa sala na Praça da Estação), o Mezcla se notabilizou por abraçar produções sem apelo comercial. "Existe um público muito específico e fiel. O pessoal está demonstrando muita insatisfação com o fechamento. Todos os dias alguém me telefona indicando espaços", afirma Marinho, que na última quinta anunciou o bazar no Facebook e recebeu mais de 70 comentários, entre lamentações e manifestações acaloradas sobre a cena política e cultural da cidade.

De acordo com Marinho, a cidade não se habituou a pagar caro pela cultura, e as empresas não têm muito interesse em patrocinar produtos locais, além de uma visível corrida imobiliária que elevou os aluguéis na região central e eliminou muitos dos galpões que insistiam em permanecer no Centro. "Mesmo com todos os problemas, o Mezcla viveu esse tempo todo", pondera Marinho, cujos esforços em encontrar um lugar ainda não terminaram. Pintando um velho ventilador, com tinta laranja e amarela, ele mostra como irá fazer caso se depare com um espaço semelhante: reinventar tudo.

 

Por outras vias

Aberto em fevereiro de 2002, numa casa no Alto dos Passos, o Mezcla surgiu quando o ator e diretor Marcos Marinho se desligou do Sesi Minas, onde ministrou cursos teatrais por dez anos, e viajou por Cuba. "Inicialmente seria só um teatrinho, mas acabamos ampliando e admitindo a ideia de ser maior", recorda, referindo-se à entrada de Vânia, experiente em administração, e Tereza, reconhecida por seus quitutes. "A recepção foi total desde o início. Quando inauguramos, só telefonei para alguns artistas e amigos fazendo o convite. De repente, a rua estava fechada, cheia de gente." A ideia tinha pegado. E o imóvel, ainda com ares e divisões de uma residência familiar, já não comportava o futuro de agenda lotada.

Em julho de 2003, o Mezcla transferiu-se para o atual endereço, na Rua Benjamin Constant. O enorme galpão comporta um pequeno camarim, um palco, uma plateia com cerca de dez mesas, uma arquibancada com capacidade para 30 lugares, uma cozinha e um foyer com café. A proposta, ousada para uma cidade como Juiz de Fora – que não reúne muitos espaços culturais coordenados pela iniciativa privada e desenvolve a pleno vapor a gestão pública de diversas instituições -, também sobreviveu com auxílio de importantes reconhecimentos da cultura brasileira: Prêmio Cena Minas, da Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais; Prêmio Myrian Muniz, da Funarte; Prêmio Procultura de estímulo ao circo, dança e teatro, do Ministério da Cultura; e, por duas vezes, a Lei Murilo Mendes, da Funalfa.

"Várias pessoas estão me oferecendo seus espaços para os projetos que temos. Já penso em tornar alguns deles itinerantes, tanto para Juiz de Fora quanto para fora dela", conta, para logo completar: "É uma forma de dar continuidade. Já fiquei mal com tudo isso. Agora estou tranquilo. Continuo a viver, tenho muita coisa para fazer. Inclusive, esse projeto de itinerância já está me dando trabalho", comenta.

 

 

 

 

Projeto em família

Para Tereza Marinho, a cozinheira da história e o braço forte do espaço, há uma revolta ao desmontar tudo e, por um motivo incontornável, abandonar o barco. "A batalha foi muito grande para acabar de uma hora para outra. Parece que a gente fracassou", comenta. "O Mezcla começou como um sonho do Marquinhos e logo virou o sonho de nós três. Era um trabalho que também divertia muito", diz Vânia, que ficava no caixa do espaço e, vez ou outra, tirava a câmera da bolsa e disparava sua lente para shows e peças. Aos 80 anos, Dona Cléo, a matriarca, que acompanhava todo movimento com os olhos fixos, se diz abalada, tanto por ver sua "segunda casa" terminar, quanto por ver os três filhos seguirem outros rumos.

As propostas culturais independentes e a cena alternativa perdem um espaço, lugar de memórias afetivas por ter, durante a primeira década do século XXI, trazido a Juiz de Fora exercícios do que há de fora do eixo no Brasil e na América Latina. "O que está acontecendo com o Mezcla é reflexo de um momento que a cidade está vivendo", conclui, sem lágrimas nos olhos e com a certeza de que o ciclo que se encerra inspira outra etapa.