‘Sou um filhote de dinossauro’
Em seu currículo, constam formação em regência orquestral, composição musical, habilitação em canto lírico e piano erudito. Porém, para grande parte do público brasileiro e de países como Japão, Alemanha e também dos escandinavos, ele ficou conhecido com o heavy metal. Hoje será a quarta vez que André Matos, ex-vocalista de importantes bandas do heavy metal brasileiro, como Viper, Angra e Shaman, vem a Juiz de Fora.
Por aqui ele passou duas vezes com a turnê do disco "Ritual", do Shaman, e outra com a excursão do álbum "Reason", quando a banda passou a adotar a grafia Shaaman. Desta vez, porém, André vem com um projeto novo e totalmente diferente. No lugar de um show de sua atual carreira solo com a banda André Matos Solo, ele ministra uma masterclass, a partir das 19h, em que irá abordar temas como história da música e técnica vocal.
Em entrevista à Tribuna, por telefone, André se lembrou dessas passagens – uma delas marcante – pela cidade. Um segurança exaltado, em um show em outubro de 2003, partiu para cima do público, quase agredindo uma garota. Vendo a cena quando estava no teclado, André pulou do palco e quase levou, como ele mesmo diz, "uma bifa do segurança", que, ao perceber que se tratava do cantor da banda, segurou a mão. "Ainda bem que isso nunca se repetiu. Quando vi o que ia acontecer, virei um bicho. Nem tive tempo de falar nada e me joguei em cima do cara. Se algum dia eu escrever um livro, esse momento vai estar presente."
Tribuna – Como funciona a masterclass? A que público ela se destina?
André Matos – Na masterclass, parto de um lado acadêmico, com uma explanação sobre a história da música, sua matemática, acústica e física. Depois falo da minha vivência neste meio, sobre como é a postura de um cantor, a vivência de um músico dentro de uma banda. Em seguida, abro para perguntas. Ao final, chego à conclusão de que está tudo conectado. Você não pode ensinar uma pessoa a cantar sem passar pela questão do conhecimento da música como um todo. Não só em música erudita, mas também rock, pop ou jazz.
– A masterclass é um projeto novo. Como surgiu a ideia de criá-lo?
– Sempre tive convites para fazer masterclasses e workshops, mas, de alguma maneira, dei um jeito de protelar já que sou muito criterioso em tudo que faço na música. Como me formei como maestro e compositor, sempre quis inserir este conhecimento dentro do espectro da vivência que tive na minha carreira em todas as minhas bandas. Para mim é muito importante esclarecer qual a gênese dessa coisa toda que chamamos de música hoje em dia. Uma forma para entendermos porque escutamos música e como ela influencia a vida de todos nós. O projeto já aconteceu na Europa e no Japão. A masterclass de Juiz de Fora será uma das primeiras que faço no Brasil.
– Você é mais conhecido como vocalista, mas tem formação clássica e erudita, além de compositor. O que mais gosta de fazer?
– Fiquei realmente mais conhecido como cantor, mas o que gosto mesmo é de compor. Me tornei cantor por acaso, pela necessidade de cantar e expressar o que escrevia. Foi uma forma de usar o dom da voz para expor minhas ideias.
– Há algum tempo, você está morando na Suécia. Como é conciliar vida e carreira lá e no Brasil?
– Costumo brincar que a mudança foi somente no aeroporto de embarque. Tenho família aqui e lá, e minha carreira sempre foi no Brasil e fora. Mas estou tendo a experiência de morar em um país onde todos têm acesso à educação musical desde cedo de uma forma muito mais correta que no Brasil. Aqui a música sempre foi vista de maneira superficial. O Brasil é um lugar cheio de talentos mal apresentados.
– Como esses talentos podem ser trabalhados?
– Na Suécia, as crianças aprendem a cantar, tocar um instrumento, têm aula de leitura musical na escola. Aqui é preciso inserir de fato um curso de música real no currículo escolar. Crianças que crescem aprendendo música têm outra visão do mundo, mesmo que não vivam disso depois. O fascínio que a música causa pode influenciar a vida da pessoa. Acho que minha função como músico e como ‘educador’ é mostrar a importância e a profundidade da música para o ser humano. Mostrar que a música pode ajudar a construir um mundo melhor.
– Na semana que vem, você está no line-up do Metal Open Air, festival que vai juntar em São Luís, no Maranhão, grandes nomes do metal mundial, como Megadeth e Anthrax. Como será o seu show?
– Faremos um show da banda solo, como já estamos fazendo desde 2006. O festival é uma iniciativa única. Chamaram grandes nomes internacionais e da cena nacional, então me sinto bastante orgulhoso de estar ali como uma das figuras principais. Ninguém imaginava um festival desse tamanho e dedicado à musica pesada no Maranhão, já que o heavy metal não é visto como um estilo muito comercial. Os festivais no Brasil costumam chamar medalhões do chamado rock de rádio, e as bandas tradicionais ficam de fora. O Metal Open Air é algo grandioso e corajoso.
– Como você concilia o repertório do Viper, Angra, Shaman, Synfonia e da carreira solo hoje em dia?
– Esta é a grande vantagem de estar em carreira solo, pois consigo abraçar o repertório de mais de 20 anos. Quando fazia parte de bandas, tínhamos que dedicar o repertório àquela determinada banda, ao álbum de trabalho. Já são dois discos solos que toco com os sucessos do passado. São músicas de minha autoria que tenho o maior prazer de tocar de novo e sentir o prazer do público ao ouvir essa ou aquela.
– Nos shows, o público sempre vai pedir "Carry on" ou "Lisbon", da época do Angra…
– Nunca é chato ou pesado tocar ‘Carry on’. Fico pensando em quando a escrevi com 20 e poucos anos. Nunca podia imaginar que 20 anos depois aquilo se tornaria quase um hino. É um momento importante do show. O Rolling Stones tem ‘Satisfaction’, e eu tenho ‘Carry on’. O problema é que ‘Carry on’ é um pouquinho mais difícil de cantar.
– Você já tem mais de 20 anos de carreira reconhecida no metal nacional e no exterior. O começo foi no Viper, quando ainda era adolescente. Quais as principais diferenças daquela época para os dias de hoje?
– Não posso fugir dessa observação. O que mudou foi a globalização e o acesso. Não sou um dinossauro do rock até porque os dinossauros ainda estão por aí. Sou um filhote de dinossauro. Quando me criei não existia internet ou download. Para conseguir tocar um instrumento ou ter acesso à técnica musical, era muito difícil. Hoje você tem tudo e tudo demais. É preciso aprender a separar a quantidade da qualidade, o que é novo e o que é uma mera repetição do que já foi feito. Mas, acima de tudo, acredito que nada substitui o talento. Sou adepto da tecnologia, mas a criatividade é humana. Ninguém vira um bom fotógrafo só porque comprou uma boa câmera. Com a música, é a mesma coisa.
– No passado você participou, ao lado da Orquestra de Câmara da Ulbra, do Concerto Popular Clássicos do Rock, cantando ‘Bohemian Rhapsody’, do Queen, e ‘Sabbath bloody sabbath’, do Black Sabbath. Como funciona esta mistura do rock com o erudito? O que faz dar certo?
– Talvez se fosse contabilizar o tempo que escuto música, passo mais períodos ouvindo música clássica que rock, até como forma de inspiração. Mas a resposta para essa mistura dar certo é muito simples: uma coisa vem da outra. Há paralelos entre os dois estilos, e abordo isso na masterclass. O heavy metal é um estilo que tem muita abertura para a variedade que a música clássica possui. Você tem sinfonias com seus temas principais, que são como se fossem os riffs de guitarra, a percussão orquestral que é uma coisa pesada, momentos de lirismo, partes mais agitadas e vibrantes entre outros aspectos. Comparo muito a massa sonora dos dois estilos. Quando você coloca um elemento ao lado do outro e os junta, fazendo isso bem feito, sem se tornar um pastiche, é excelente. Poucos fizeram isso direito ainda.
– Quem fez bem e quem não fez?
– Muitos tentam fazer um disco com banda mais orquestra. Com o Metallica eu não gostei do resultado. No ‘S&M’, a orquestra virou um mero acompanhamento para a banda. Os arranjos usados poderiam ter sido feitos somente por um teclado que daria no mesmo. Já o disco do Scorpions com a Orquestra Sinfônica de Berlim possuiu arranjos orquestrais fantásticos e feitos com extrema criatividade. Tem também o Apocalyptica, que toca muito bem canções de heavy metal no violoncelo e já tocaram com o Metallica. Mas de qualquer maneira vale a intenção e a busca pela sonoridade.
– O Edu Falaschi, atual vocalista do Angra, causou polêmica reclamando da cena metal e do underground brasileiro no ano passado. Qual a sua opinião sobre o metal e o underground nacional hoje em dia?
– O underground sempre existiu. Quando era moleque e comecei a escutar metal, já havia o underground brasileiro. Acompanhava isso em São Paulo. O que mudou foi realmente o acesso. Antes éramos fãs das bandas do underground, quando sabíamos do show da banda X ou Y no bairro tal, íamos todos. Hoje em dia está tudo mais banal. Se você quer ver um show é só ligar a internet. Ou a grande banda estrangeira vem e toca na sua cidade. O underground talvez tenha perdido um pouco aquela aura que existia nos anos 80.
– O que faz uma banda do underground aparecer?
– Estar no mainstream não faz ninguém melhor do que ninguém. Você pode encontrar pedras brutas no underground e bijuterias falsas no mainstream. Isso não é o que difere o talento. A oportunidade e uma soma de fatores levam uma banda a aparecer. Tanto que muitas vezes aparece alguém que não tem talento. Mas eu ainda acredito que o talento seja o motivo inegável do sucesso. Você pega bandas como Queen, U2 ou os Beatles. É inegável que há muito talento ali. Nenhuma grande banda aconteceu por acaso. No final das contas, o sucesso só é importante pois você acaba levando sua mensagem para mais pessoas. Vale muito a pena deixar um legado, uma marca para quem vier depois de você e tem esse sonho de seguir na música.
– E os planos para o futuro? Está preparando um novo álbum? Será uma continuação dos álbuns ‘Time to be free’ e ‘Mentalize’, ambos da sua carreira solo?
– Estamos sim preparando o terceiro álbum solo. Está em fase de pré-produção e data de lançamento já marcada no Japão. Será na segunda quinzena de agosto e tem que ser, pois, quando você marca algo no Japão tem que acontecer. Entraremos em estúdio entre maio e junho. Vamos aprofundar sim o que fizemos nos dois anteriores. Estou com vontade de um disco incisivo, provocador e profundo, tanto musicalmente quanto nas letras.
MASTERCLASS ANDRÉ MATOS
Hoje, às 19h
Space Club (Av. Rio Branco 1.303)









