Pesquisadora estuda história de Juiz de Fora por meio da literatura

Moema aborda a obra de Maria de Lourdes Abreu de Oliveira no recém-lançado “Dois olhares sobre uma escritora plural”
“Juiz de Fora, na verdade, nunca foi uma cidade industrial apenas”, defende a professora e pesquisadora Moema Mendes, coordenadora do mestrado em letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF). “Foi intelectual e, por ser assim, tornou-se industrializada. É o intelectual que sempre movimentou tudo”, sugere. Foi o tempo e suas escolhas que delinearam uma posteridade partida. A cidade de Pedro Nava e Murilo Mendes nunca foi somente deles. Ainda que, no interior do Brasil, sempre se manteve alinhada com o restante do país através das penas de seus escritores. O olhar que Moema lança sobre a terra em que pisa busca, segundo ela, uma justiça que a história não foi capaz de redigir.
E não se trata de simples e reducionista afeto ao conterrâneo. Não passa por questões locais, mas por considerações anteriores. Lançado essa semana, “Dois olhares sobre uma escritora plural” (Editora Appris) joga luzes sobre a obra de uma autora, Maria de Lourdes Abreu de Oliveira, reconhecidamente importante no cenário brasileiro. “Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, ela mandou 11 contos para concursos literários em nível nacional diversificados. Enviava para Norte, Nordeste, Sul e Sudeste, sempre com pseudônimos. Ganhou todos os primeiros lugares, com bancas montadas por nomes despontando como Eduardo Portella, Antônio Candido, José Cândido de Carvalho e outros literatos que estavam começando a produzir”, comenta Moema.
Escrito em parceria com a também pesquisadora Leila Rose Maciel, o livro resgata a trajetória da mineira nascida em Maria da Fé, no Sul do estado, radicada em Juiz de Fora, e cuja carreira literária é pontuada por importantes láureas, como o Prêmio Bloch Nacional de Romance, que ela recebeu com “Antigamente, no porão”, de 1968. Autora de “Bravo Brasil!”, de 2005, seu mais recente título, que conta a história de Halfeld, Maria de Lourdes mantém-se na ativa, aos 80 anos. “Ela tem muito por escrever”, destaca Moema, curadora dos manuscritos da escritora.
Autores silenciados
Perseguindo a cidade das muitas letras, Moema Mendes coordena o grupo de pesquisa “O resgate das escrituras: Da correspondência e dos manuscritos de escritores mineiros para composição de um dossiê genético-crítico”, reunindo pesquisadores da UFJF, do CES/JF, da PUC Minas e da Fundação Casa de Rui Barbosa. No horizonte, a extinção do silêncio em torno de obras fundamentais não apenas para a literatura juiz-forana, mas mineira e nacional. “Dentro do Museu de Arte Murilo Mendes, temos acervos literários com trabalhos para mais de cem anos”, comenta Moema. “A crítica literária pode trabalhar com um manuscrito de um romance, conto, novela ou poema, ou então com epistolografia. Quando lemos a carta de um escritor – e o interesse é literário, não das intimidades e pessoalidades dele -, percebemos uma fonte de pesquisa muito grande”, completa.
Doada ao museu em 2007, a biblioteca de Gilberto de Alencar e sua filha Cosette é o foco de atenção do grupo atualmente. “O Agripino Grego, que na história da literatura brasileira consagrava ou destruía qualquer escritor, disse que ‘Memórias sem malícia de Gudesteu Rodovalho’, de Gilberto, foi um romance que só não foi conhecido além das fronteiras de Minas porque os nordestinos não deixavam os mineiros respirarem. Era a época do romance regional, e estavam estourando José Lins do Rêgo e aqueles todos do Nordeste, inclusive a Rachel de Queiroz, que é prima próxima do Gilberto. O José de Alencar era primo do avô dele. A Rachel fala de uma literatura de extrema qualidade tanto da filha quanto do pai”, pontua a pesquisadora.
Desenvolvido em parceria do grupo com o museu, um catálogo das correspondências de Gilberto de Alencar deve ser publicado, em formato virtual, no início do próximo ano. O material servirá, então, para confirmar a dimensão de um escritor de grande influência e que manteve amizade com nomes de peso nas artes brasileiras, como Carlos Drummond de Andrade. “É muito importante visitar a memória do Gilberto. Ele foi um dos criadores do jornal ‘O Pharol’, um dos mentores da Academia Mineira de Letras, que se formou em Juiz de Fora e depois foi para Belo Horizonte, e foi, também, um importante jornalista de memória na cidade, além de diretor da Escola Normal. Ele merece ser objeto de estudo”, ressalta Moema.
A vida pessoal
Em meio a cartas, telegramas e bilhetes, Moema Mendes tem contato não apenas com o universo dos livros e com os assuntos intelectuais, mas à vida privada desses personagens que construíram uma Juiz de Fora culta. “Essa vertente da literatura, a crítica genética, trabalha com o aquém da obra, com o rascunho, as versões, sejam elas datiloscritas ou autógrafas. Essa crítica veio há muito pouco tempo para o Brasil, com esse caráter de estudo literário, e já mudou muito a história de nossa literatura. E deve mudar mais”, explica. “O leitor ávido acha que lê um texto que é fidedigno ao desejo autoral. E nem sempre é”, acrescenta.
“O autor não é um semideus, não funciona só à base de inspiração. Para escrever, é preciso reescrever, a cada vez mudando algo. A crítica genética acompanha o processo de criação”, diz a pesquisadora, que durante quase três décadas lecionou para turmas de literatura do ensino médio e precisou lidar com a “ideia da obra fechada”. Ao se abrir para uma construção interpretativa mais ampla, capaz de abarcar o que não foi impresso nas páginas de uma edição, Moema também deparou-se com um desafio ético. “Tive muita crise quando lia as correspondências, porque em meio à literatura há coisas pessoais. Há coisas muito íntimas nelas. Por isso fui procurar a constituição, e ela diz que é crime ler a carta de outrem em quaisquer circunstâncias. Ponho isso nos meus artigos, e isso já me deixou sem dormir”, conta.
Ao ler uma carta datada de 1943 e escrita por Mário de Andrade, a pesquisadora titubeou ainda mais. Dizia o modernista: “E basta. Cartas não irão e declaro solenemente, em estado de razão perfeita, que quem algum dia publicar as cartas que possuo ou as cartas escritas por mim, seja em que intenção for, é filho da puta, infame, canalha e covarde. Não tem noção da própria e dignidade alheia”. Mas foi justamente Mário, quem deixou para a posteridade – e não queimou, como poderia ter feito – um imenso montante de cartas. “Comecei a ler ‘O pacto autobiográfico: De Rousseau a internet’, do Philippe Lejeune, e ele diz que cartas têm que ser publicadas, quaisquer que sejam, se tiverem informações literárias”, complementa Moema. A leitura e a compreensão das correspondências não poderiam ser suprimidas. Servem à reescrita da cidade. Devolvem à história uma Juiz de Fora intelectual em escala industrial.








