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A vida é literária


Por MAURO MORAIS

13/11/2014 às 07h00

Psicanalista Carlos Leal lança romance nesta quinta

Psicanalista Carlos Leal lança romance nesta quinta

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Pequenas vidas servem às amarelinhas, pulando de casa em casa até chegar ao céu. E as amarelinhas também servem às vidas, pequenas ou grandes, defende “O céu da amarelinha” (editora Rocco, 142 páginas). Criando a metáfora da realidade através do jogo infantil, pontuando o desafio de ultrapassar limites até chegar a um final lírico, o psicanalista fluminense Carlos Eduardo Leal conta a história da menina Lívia, que aprende a desenhar sua própria brincadeira justamente no dia em que o pai desmaia vítima de um derrame cerebral, cuja sequela é seu total silenciamento por conta de uma tetraplegia. “Estava parada na casa nove a um passo do céu. Muda. Estancada no calor do sábado à tarde pelo grito quase selvagem de Katarina. Mais uma crise de histeria de sua mãe? A menina se equilibrava fragilmente entre atender o estranho chamado ou ir para o céu”, descreve o narrador, retratando o exato momento em que o pai, uma figura de extrema importância para a garota, “dorme para o mundo”, como diz a personagem materna.

“O pai que não fala, fala tudo, faz a Lívia falar tudo. Ela conta histórias para ele, mas, na verdade, é o que gostaria de ouvir dele”, conta o autor. “O primeiro mote da trama do livro é o jogo da amarelinha e a possibilidade de ela entrar no céu. O céu é quase o pai para ela, que tem 6 anos e nutre um amor enorme por ele”, completa. Segundo Carlos Eduardo, a narrativa surgiu ao justapor sua própria infância à sua idade adulta. “Nasci no interior, e, quando pequeno, minha bisavó contava histórias para dormirmos. Eram muitas histórias que ela inventava. Depois tornei-me psicanalista e continuei ouvindo histórias. A brincadeira da amarelinha era uma das que tínhamos na roça, e que hoje em dia quase não vemos mais. Quando vi uma criança brincando, a situação me remeteu às histórias infantis que ouvia e ao que escuto rotineiramente”, pontua.

Seguindo o mesmo percurso que muitos outros psicanalistas como Contardo Calligaris e Livia Garcia-Roza, que tornaram-se grandes e potentes vozes da literatura contemporânea brasileira, Carlos Eduardo também leva a experiência profissional para a escrita. “Esse é o terceiro romance, e em todos eles não fiz isso de propósito. O Freud tem um texto que se chama ‘Romances familiares’, o que me fez descobrir que em todos os meus textos escrevo romances familiares, dramas que se passam nas famílias. No primeiro, há uma relação simbiótica entre mãe e filha, no segundo, há a separação de um casal, e, nesse terceiro, a relação entre filha e pai. Todos são assuntos do divã, psicanalíticos. Tudo está nas tramas que escuto, e, por consequência, nas tramas da vida”, diz. Ao fazer dessa forma, o autor explicita a tênue linha que separa vida e literatura.

Normalidade poética

Com a doença batendo a porta, a pequena Lívia é confrontada com a necessidade do amadurecimento, que a acompanha até a vida adulta. Lendo histórias como as que o escritor ouvia desde criança, ela inventa tramas para contar ao pai, à medida em que se depara com as descobertas comuns à adolescência, como o amor. Sua mãe, Katarina, também segue a vida, na corda bamba do sofrimento com o marido imóvel e a obrigação de não estagnar. Optando pela linguagem poética e pelas muitas metáforas que surgem desde o título da obra, “O céu da amarelinha” entremeia vozes do narrador onisciente à da própria Lívia. “Tem horas que quero dar um tom pessoal da menina falando para o pai. Toda a narrativa é a travessia de vida dela. Nunca sabemos o que vai acontecer quando começamos a escrever um livro, esses narradores foram surgindo, e acho que deu uma consistência interessante, porque fica a sensação de que não há um salto gritante, mas uma continuidade de vozes”, comenta o autor.

“Comumente em análise, já que toda análise é a análise de uma vida, o silêncio está rodeado de palavras. E, nesses momentos de silêncio e escuta analítica, o sujeito em questão está atordoado pelo enxame de pensamentos que lhe acometem”, expõe o narrador, retratando um encontro de Lívia com seu psicanalista. Como num jogo, Carlos Eduardo parece falar em uma só voz, já que seu próprio ofício cresce ao longo da trama. Mas nem só da realidade se faz seu texto. “Tenho influências de Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, na poesia de Fernando Pessoa e Cecília Meireles. Sou um leitor compulsivo. E o escritor vem sempre depois do leitor. Sou também fruto do que leio. Mesclam-se, então, o que leio e o que escuto”, finaliza. A amarelinha está entre o mundo dos sonhos e das verdades incontestáveis.

“O CÉU DA AMARELINHA”

de Carlos Eduardo Leal

Lançamento hoje, às 19h

Museu de Arte Murilo Mendes

(Rua Benjamin Constant 790)