A casa e a coleção
No dia seguinte à inauguração do Prédio Mariano Procópio, então chamado de Galeria de Belas Artes, o Jornal do Commercio reservou duas colunas para contar aos leitores sobre o evento que entregou à cidade um museu com padrões europeus. Há exatos 90 anos, tecidos ainda cobriam os bustos esculpidos por Rodolpho Bernardelli, representando a Princesa Isabel e o Conde d’Eu, minutos antes de Alfredo Ferreira Lage receber o público entusiasmado com a novidade. Para comemorar a data, o Museu Mariano Procópio organizou uma mostra com 12 fotos inéditas do circuito expositivo de 1922, pertencentes ao acervo particular da família Ferreira Lage. A proposta faz parte da 10ª Semana de Museus, lançada hoje e com atividades até o dia 20.
A página amarelada do jornal da época – que estará na exposição ao lado do projeto de construção desenvolvido pelo engenheiro e arquiteto Gustavo Tonagel a partir de plano de Bernardelli – destaca a presença de uma jardineira em estilo Luiz XVI. Em uma das fotografias, o móvel surge entre os bustos, revelando a presença de plantas e flores na galeria, algo que não é usado atualmente. Esses registros nos ajudam a compreender o mundo do colecionador Alfredo Ferreira Lage e a forma como ele concebeu o espaço, num exercício de curadoria, atesta Douglas Fasolato, diretor superintendente da instituição. Um ano antes, a Villa Ferreira Lage, transformada em museu particular em 1915, havia sido inaugurada para celebrar o centenário de nascimento de Mariano Procópio, construtor da Estrada União e Indústria. Alfredo queria marcar na memória local a figura de seu pai como um dos fundadores da cidade, explica o professor Rogério Rezende Pinto, autor da dissertação de mestrado Alfredo Ferreira Lage: suas coleções e a constituição do Museu Mariano Procópio.
Segundo Rogério, o colecionador decidiu reunir suas relíquias em Juiz de Fora – e não no Rio, onde possuía outra grande propriedade – pelo fato de a Villa ter hospedado o imperador Dom Pedro II. Assim, o Prédio Mariano Procópio foi o primeiro do país a ser erguido exclusivamente para abrigar uma coleção. Em entrevista já publicada pela Tribuna, a museóloga Célia Maria Corsino, diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), relembra esse pioneirismo a fim de salientar a importância da iniciativa para a história da museologia.
No texto de apresentação da mostra, Douglas Fasolato aponta a influência do museu local sobre as instituições criadas naquela década e nas seguintes. Ele nasceu privado, mas com a determinação de se tornar público, a serviço da sociedade, completa. De acordo com Rogério, como o Museu Histórico Nacional, no Rio, foi criado em agosto de 1922, o Mariano Procópio é o primeiro museu histórico do país. Ele foi oficialmente doado ao município em 1936.
Conforme o professor, no início do século passado, Juiz de Fora ocupava posição de destaque e costumava ser comparada com terras europeias. Por aqui, havia cinemas, teatros e confeitarias. As confeitarias eram símbolo de civilidade, pontua o acadêmico, concluindo que a cidade abria espaço para acolher o empreendimento.
‘Gosto do dono’
Outra curiosidade é a ausência de etiquetas explicativas. Essa é uma questão muito discutida atualmente. Certos estudiosos afirmam que uma obra não necessita de legenda, assinala Douglas, contrapondo o circuito expositivo de 1922 à espetacularização do mundo contemporâneo. Segundo o diretor, a princípio, os registros foram cedidos para a mostra, mas os originais permanecem com os herdeiros. Estamos em fase de negociação.
Marcelo Ferreira Lage, bisneto de Frederico (irmão de Alfredo), conta que essas fotografias fazem parte de sua vida. Quando minha avó morreu, elas ficaram com meu pai e agora estão comigo. A família está discutindo a questão da doação, diz Marcelo, que pretende se reaproximar do museu. Para ele, as reproduções evidenciam a forma como seu tio-bisavô gostava de visualizar as obras. Trata-se de uma grande coleção particular, disposta conforme o ‘gosto do dono’.
Na visão do professor Rogério Rezende Pinto, talvez a única falha de Alfredo Ferreira Lage tenha sido a de não produzir uma publicação para divulgar o acervo – histórico, artístico e científico. Mas isso seria bem avançado para a época. Em compensação, ele imaginou o Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio. Rogério afirma não existir outro grande colecionador no país que tenha feito uma doação sem exigências. Ele só quis continuar morando no prédio e coordenando a instituição, complementa o acadêmico, lamentando a demora para a reabertura do local.
90 ANOS DE INAUGURAÇÃO DO PRÉDIO MARIANO PROCÓPIO
Abertura hoje, às 16h30. Visitação de terça a domingo, das 8h às 18h. Até 1º de julho
Parque do Museu
(Rua Mariano Procópio 1.100)









