Pergunta diante do espelho

Teatro é troca, mudança, percurso. No decorrer do bate-papo com a Tribuna, Sergio Lessa Arcuri conceitua o ofício dos palcos de variadas maneiras. Será possível espremer a definição em um único termo? Talvez. Que tal "convergência"? "Todas as artes estão no teatro, ainda que por meio de ausências", defende Arcuri, diretor do espetáculo "O longo caminho que vai de Zero a Ene", com estreia marcada para hoje. A produção da Cia. Afiada de Teatro, apoiada pela Lei Murilo Mendes, lança mão da metalinguagem para discutir temas universais. Na narrativa, os personagens Zero e Ene escolhem as luzes e a ribalta em uma busca pela existência.
Escrito em 1974 pelo paulista Timochenco Wehbi, morto aos 43 anos, o texto absurdo transforma em pergunta a angústia humana mais recorrente: "quem sou eu e o que estou fazendo aqui?". Segundo o diretor, foi necessário criar uma estratégia para tratar com leveza questões tão profundas e herméticas. Recorreu ao palhaço e a referências como Charles Chaplin e o mímico Marcel Marceau. Na reta final da montagem, a atriz Sandra Emília, que vivia Zero, deixou o projeto e foi substituída por Marcos Marinho. O ator já estava na equipe, capitaneando a preparação de comédia física. Ao se deslocar para a cena, Marinho tirou da bagagem suas pesquisas ligadas ao "clown". "Antes de aceitar o convite, precisei entender a proposta do Sergio. Zero não é um palhaço explícito, mas minhas experiências nesse sentido ajudaram o personagem a vir à tona", comenta. E completa, sem perder a piada: "no começo, estava com medo. Agora, estou com mais medo ainda".
Impossível sair distraído
O receio é justificável. Com pouco tempo para decorar o texto, Marinho sabia que a plateia não passaria imune por aquelas palavras. "Impossível sair distraído." Na opinião de Sergio Arcuri, é provável que os espectadores se vejam diante de um espelho e de incontáveis interrogações sem respostas. No mundo atual, como complementa ele, as pessoas nem sempre estão dispostas a se encarar. Mas o teatro está aí para provocá-las. "A linguagem escolhida facilita a aproximação, assim como o cuidado com os detalhes", menciona o diretor, contando que passou muitos anos procurando uma dramaturgia que realmente o arrebatasse. Por outro lado, a peça também não será a mesma depois da entrada da plateia. Para Marinho, todo trabalho teatral se transforma ao longo do tempo e, em cada sessão, molda-se ao choro, ao riso, às respostas e até mesmo aos cochilos do público. "Ele é o maestro", sintetiza Arcuri.
Segundo Rodrigo Doi, seu personagem, Ene, acabou explorando novos terrenos depois da entrada de Marinho. "Nosso ofício depende da energia de cada artista. Se muda um integrante, muda tudo", analisa, ressaltando alterações na trilha sonora, nas marcações e no figurino, criado por Eduardo Borges. Com os cabelos pintados de branco (um trabalho de Ulisses Hudson), Rodrigo é o ser perseguido, ingênuo e emocional. Para completar sua figura questionadora, a maquiagem traz grandes sobrancelhas franzidas. Por outro lado, Zero, provocador e irônico, é quem comanda a perseguição e tenta travar um contato com os "outros", aqueles que realmente existem.
O LONGO CAMINHO QUE VAI DE ZERO A ENE
Hoje, amanhã e segunda, às 21h
Até 5 de dezembro
Mezcla
(Rua Benjamin Constant 720)
3083-2351









