Sobre ângulos e sombras
Dois poetas, com dois poemas, em duas linguagens, frutos de um encontro. Em Ar de arestas (Funalfa Edições/Editora Escrituras), que tem lançamento hoje, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), o texto homônimo serviu às imagens poéticas, mas, para o leitor, o oposto também pode ser feito. A dor, em sua crueza e com sentimentalismos baratos, é apresentada em sobriedade, como um grito no escuro. A dor é própria do existente. A partir do nosso nascimento, nós temos, entre as experiências fundamentais, as da alegria, do sabor, da visão. E a dor é, talvez, a primeira, já que nascemos chorando. O modo como nos relacionamos com ela, essa consciência, é o que nos forma. Se encaramos essa relação por um ângulo de finitude extrema ou de transcendência para outros mundos, a dor é um elemento essencial, reflete Iacyr.
Escrito em redondilha maior – estrofe de quatro versos com sete sílabas, rimando o primeiro com o último e o segundo com o terceiro -, o grande poema entremeado de imagens exalta seu tema até mesmo na forma proposta, incitando uma leitura angustiada, quase ofegante. A dor é o caos, é o desvario, é a completa ausência de governo. Para criar esse contraste, eu quis escrever um texto quase sóbrio. É um grau de tensão que se estabelece entre narrar algo que é muito intenso dentro de um molde, analisa o autor, que não optou por uma voz identificável. O poema foge do eu lírico, e isso é proposital, é para tentar criar uma máscara biográfica, capaz de levar ao leitor um discurso quase cirúrgico, de uma coisa extremamente sensorial e avassaladora.
Utilizando-se de elementos como a quina, a serpente, a mitologia do ouroboros (se por um lado ele é um símbolo da eternidade, de algo que sempre recomeça, por outro é também um signo de repetição dolorosa, porque você volta ao mesmo ponto, explica o poeta) e o mar, Iacyr constrói em palavras o espaço pictórico de uma dor que transita entre o subjetivo e o direto. Num dos momentos: Talvez um mar virulento, / mar-tormenta, de ressaca, / que exceda a qualquer tormento / com punhos de bate-estacas.
Dos versos e das muitas leituras feitas pelo fotógrafo Ozias Filho, bailarinos do Laboratório de Movimento e Performance I’Mmoving, coordenado pela coreógrafa Marina Frangioia, em Portugal, foram convidados para uma performance interpretativa. Tendo como referência o quadro O grito, do pintor norueguês Edvard Munch, Ozias registrou tudo, voltando sua lente para a dor constante, punitiva. Fui vendo o trabalho e descobrindo. Uma coisa é você fotografar, outra coisa é você retirar da imagem aquilo que quer dizer, comenta o fotógrafo. Vejo essas fotografias como um outro texto. É uma obra autônoma, que tem a sua força, sua expressão e seu poder. Ainda que as ligações existam na minha cabeça, vi como um trabalho coletivo do outro lado. Quando recebi, era a obra do meu amigo com uma série de elementos por trás, pontua Iacyr.
‘Faria diferente se fosse possível’
Formado em engenharia civil e mestre em teoria da literatura, Iacyr Anderson Freitas chega ao 30º livro de sua carreira, entre poesia, ensaios, prosa e infanto-juvenil, justamente no mês em que completa meio século de vida. Poeta dos tempos da D’lira e da Abre alas – revistas que marcaram um movimento efervescente da literatura nas décadas de 1970 e 1980 em Juiz de Fora -, Iacyr chegou à Europa e conquistou academia e público com seu rigor técnico e discursivo. A maturidade é também, e deve ser na melhor das hipóteses, um desafio, porque te obriga a produzir melhor. Ou escrever apenas aquilo que te pareça necessário fazer. Tenho escrito cada vez menos e quero ler cada vez mais. A experiência é um compromisso de qualidade, afirma o poeta.
Segundo Iacyr, a grande trajetória lhe trouxe altas doses de autocrítica. Eu publiquei muitos títulos que não deveria ter publicado. Olho meus primeiros livros com muitas reservas. Faria diferente se fosse possível. Não publicaria tanto. Escreveria mais para deixar decantando na gaveta, revela. Mas, por outro lado, esse excesso de publicações me deu um horizonte de contatos que me permitiu não errar de novo e ter amigos em outros cantos.
Para mim o trabalho do Iacyr foi extremamente importante. Ele me alertou para uma série de coisas que poderia descobrir como poeta, elogia Ozias Filho. Apesar de nascido no Rio de Janeiro, o fotógrafo transferiu-se para Portugal há mais de duas décadas, e seu forte sotaque confirma o envolvimento com o país do outro lado do Atlântico. Além de se considerar embaixador da poesia de Iacyr em terras lusófonas, Ozias estreitou suas relações com a terra natal através dos versos. No dia em que peguei ‘Oceano coligido’, em 2002, e li aquele livro, tinha colocado na minha cabeça, e nem pensava em ser editor, que um dia ainda editaria esse ‘gajo’. As palavras têm muita força, e, em 2005, editei uma antologia poética do Iacyr chamada ‘Terra além mar’. Esse encontro nunca mais parou, depois veio o Edimilson de Almeida Pereira, a Prisca Agustoni, o Fernando Fiorese, o Júlio Polidoro e alguns outros, conta.
Editor da Edições Pasárgada, selo cujo mote está nesse intercâmbio, publicando livros numerados e com tiragem limitada, como obras de arte, Ozias lançou, em 2005, o livro Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai. Retirado de um poema de Iacyr, o título serviu de inspiração para sete autores brasileiros e sete portugueses, que se expressaram em contos. Ali estava o embrião do encontro que se concretizou em Ar de arestas, produção que permitiu ao fotógrafo sua primeira exposição individual, que estará em cartaz na Galeria Poliedro, no Mamm. Para espetar uma fotografia na parede tinha que ter algum conceito por trás, observa o fotógrafo.
Em posfácio da obra, a fotógrafa moçambicana Susana Paiva destaca a potência das novas e inequívocas realidades perceptíveis na obra de Ozias. Mais ocultam do que revelam. É essa, naturalmente, a sua maior força, avalia. Com os olhos voltados para os versos de Iacyr, o poeta carioca Paulo Henriques Britto faz reflexão semelhante, também em posfácio. Metáfora e símile em ‘Ar de arestas’ não têm o objetivo de edulcorar uma realidade dura, porém são usados justamente no sentido de acentuar o que nela há de anguloso e intratável; apenas atuam como moeda corrente da linguagem poética de todos os tempos, escreve Britto, para logo concluir: Na perspectiva madura e desencantada de Iacyr Anderson Freitas, a dor não é moralizada nem justificada, e sim descrita na sua crueza de realidade inevitável.
AR DE ARESTAS
Lançamento de livro e abertura da exposição
Hoje, às 20h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790)









