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Traços europeus por excelência


Por MARISA LOURES

12/07/2015 às 07h00- Atualizada 07/08/2015 às 16h51

A equipe trabalhou seis meses na restauração do conjunto pertencente ao acervo do Colégio Cristo Redentor fotos (Aloisio Castro)

A equipe trabalhou seis meses na restauração do conjunto pertencente ao acervo do Colégio Cristo Redentor fotos (Aloisio Castro)

Os restauradores procuram retardar o processo                          natural de deterioração (Aloisio Castro)

Os restauradores procuram retardar o processo natural de deterioração (Aloisio Castro)

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Foram seis meses de um meticuloso trabalho, envolvendo fichamento técnico, documentação fotográfica, banhos químicos de limpeza e reintegração estética da obra, só para citar alguns dos procedimentos utilizados pela equipe de restauração. Nas mãos, os profissionais tinham 15 quadros de formatura da Academia de Comércio das décadas de 1920 a 1930, sendo 13 deles com a assinatura do ítalo-brasileiro Angelo Bigi. O conjunto revela uma outra faceta, ainda pouco divulgada, do artista que legou a Juiz de Fora as cenas de ninfas e faunos em jardins românticos e paradisíacos do Cine-Theatro Central.

“Ele é reconhecido, principalmente, pela emblemática das pinturas parietais do Central e pela produção de pintura de gênero (retrato, paisagem e natureza morta). Esses trabalhos foram concebidos como obra de arte em suporte de papel. São peças únicas”, observa Aloisio Arnaldo Nunes de Castro, que atuou, inicialmente em seu ateliê e depois no Laboratório de Conservação e Restauração de Papel do Museu de Arte Murilo Mendes, ao lado do também restaurador Lauro Bohnenberger e do estudante intercambista de história da arte na Universidade de Córdoba/Espanha, Miguel Navas Mohedano. Já totalmente reintegradas, as peças podem ser expostas em novembro, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, abrindo as comemorações dos 125 anos da instituição de ensino. “Trata-se de um material valioso para a cidade e o país. Nossa intenção é que não só os entendidos de arte, mas o público em geral tenha acesso a ele”, destaca João Luís Polisseni Cotta, diretor administrativo e financeiro do Colégio Cristo Redentor.

O hibridismo dos quadros despertou o olhar aguçado do restaurador. “Ao mesmo tempo em que são obras de arte, – foram concebidos como criação poética, pictórica do artista -, depois mudam de estatuto e se tornam documento histórico pela sua relevância”, afirma Aloisio, apontando para o fato de que o material pode ser usado como importante fonte da memória individual e coletiva das décadas de 20 e 30 do século passado. “Eles trazem desdobramentos imensos para a história da educação brasileira e da sociedade da época. Podemos ler quantas pessoas se formaram e as origens de cada uma delas, pois apresentam as cidades de nascimento. Vemos um ou outro negro e população masculina”, acrescenta.

Símbolos da Manchester Mineira

Nas 13 peças, Angelo Bigi empregou a técnica das pinturas em aguadas. A riqueza das metáforas visuais utilizadas pelo pintor foi sendo descoberta ao longo do processo de restauração. Bigi criou um cenário arquitetônico de colunas, capitéis, coríntios e frontões para sobrepor as fotografias. Em muitas das telas, a alegoria do Deus Mercúrio, patrono da contabilidade e das escolas onde se ensinava o ofício, era evocada. “Ele faz uso desse repertório europeu por excelência para trazer essa ideia de civilidade. Um país civilizado é aquele que se espelhava nas belas artes. Quando se implementa a Academia Imperial e as belas artes no Brasil, a intenção era trazer esse ideal iluminista”, assevera Aloisio Nunes, sendo endossado pelo estudante espanhol Miguel Navas. “É paradoxal. Quando se fala da arte, da grande cultura, todo mundo pensa no antigo continente, mas é aqui que tive a oportunidade de trabalhar com restauração. Como imigrante italiano, Angelo Bigi trouxe com ele todo o renascimento da pintura do classicismo para o novo mundo.”

Não raro, os quadros trazem símbolos que reafirmam o título da então Manchester Mineira. Em uma pintura de 1926, acompanhado de uma engrenagem, Mercúrio sustenta um capacete alado, o que para o restaurador significa toda a agilidade do comércio. O ideal de progresso também é lembrado por locomotivas, navio a vapor e chaminés. Mapa mundi, compasso, pena e tinta de escrever, além de livros, representavam o universo de estudo e leitura. “Uma cidade que se dizia industrial por causa da hidrelétrica e pela fábrica do Bernardo Mascarenhas precisava de uma escola que preparasse o pessoal para trabalhar no comércio e nas fábricas. Bigi era muito hábil na forma de fazer isso”, avalia Aloisio. Ele chama atenção para outra tela em que surge a figura de Luca Pacioli, monge franciscano e célebre matemático italiano, considerado pai da contabilidade moderna. “Verifica-se, na intenção retórica e construtiva do artista, o modo como a instituição escolar deveria ser visualizada a partir de noções de cultura, de formação educacional e nação.”

Fontes primárias de estudo

Caminhando por um processo de degradação natural em virtude do tempo, os quadros de Angelo Bigi apresentavam acentuada camada de pó sobre a pintura, acidez, manchas no papel, rasgos, perda de suporte, desbotamento dos pigmentos, fotografias rasgadas e descoladas. “Caso continuassem assim, eles estariam fadados à perda irreversível. Nosso papel é retardar isso”, enfatiza o restaurador, aplaudindo a iniciativa da Academia de preservar seu patrimônio cultural. “Antigamente preservava-se para a integridade física do objeto, para que ele ficasse lindo numa redoma de museu. Hoje, na filosofia contemporânea da preservação, preserva-se para o acesso. Que essas obras possam ser fontes primárias de estudo.”

Ancorados na “Teoria de conservação-restauração de bens culturais”, de Maria José Martinez Justicia, Aloisio, Lauro e Miguel perseguem a ideia de que restaurar significa dialogar com as obras de arte do passado, respeitando a originalidade do autor. Se vista de longe a pintura parece estar totalmente reintegrada, de perto, é possível distinguir as intervenções realizadas pelos profissionais. “Existe uma visão muito romanceada daquele sujeito com um pincelzinho que vai reconstituir uma obra. Também povoa no imaginário das pessoas que uma pintura restaurada deve ficar nova. Ela não fica nova, não pode ficar nova. É preciso conservar a cicatriz do tempo, as pegadas do tempo”, conclui Aloisio.