‘Sequestro da Rua das Margaridas’: refém por 24h, médico revela bastidores inéditos de sequestro que marcou a cidade
Miguel Jacob foi um dos civis feitos como reféns no episódio que marcou Juiz de Fora

“Uma percepção totalmente diferente, incomum e imprevisível.” É assim que Miguel Jacob define suas impressões como refém do chamado sequestro da Rua das Margaridas, episódio que aconteceu nos anos 1990 e marcou a história de Juiz de Fora. Em seu livro, lançado de forma digital na última semana, o médico conta como foi passar 24h ao lado dos sequestradores, algo até então pouco divulgado.
“Durante esse tempo todo, as notícias falaram a respeito do que aconteceu dentro da casa eram muito distorcidas”, explica Miguel sobre o que o motivou a escrever o livro, que recebeu o nome de “O sequestro da Rua das Margaridas: 24 Horas”. “Aí, deve ter uns 3 anos, eu falei: ‘Vou escrever essa história’.”
Entre uma cirurgia e outra, o médico urologista da Santa Casa passou a escrever o que hoje é seu livro, em uma conversa consigo mesmo por WhatsApp. “Eu não esqueci nada. Nada, nada.” E complementa: “É uma situação que deixa trauma. Com certeza. Mas eu saí bem, graças a Deus”.
O sequestro que parou o país
Em 24 de agosto de 1990, cinco detentos da Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, renderam agentes penitenciários e fizeram nove reféns. Naquele momento, os presos possuíam armas passadas na véspera pela mulher de um deles, dentro de um botijão de gás – os detentos utilizavam para confecção de artesanatos, o que dispensou as suspeitas – e escaparam após horas de negociações, deixando um policial morto durante a ação.
Já no dia seguinte, os perpetuadores do crime chegaram a Juiz de Fora, estacionando na Avenida Barão do Rio Branco. A reportagem da Tribuna da época relata o episódio: “As lojas foram fechadas mais cedo e a agitação do comércio se transformou em tensão e medo”.
De lá, foram em direção ao Bairro Grajaú, recebendo armamento e veículo exigidos nas negociações, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Líbano. O próximo passo do grupo foi se deslocar em direção a BR-040, com o coronel Edgar Soares, liberando reféns.
Logo em seguida, renderam o carro do ex-presidente do Sport Club, José Simão, tomando todos do veículo como reféns, em um posto de gasolina. O grupo retornou à cidade, onde, guiado pelo desespero de uma das reféns – Glair, esposa de José -, se dirigiu ao sítio na Rua das Margaridas, número 425, que era utilizado como casa de veraneio da família.
Chegando ao local, o carro entrou na garagem, surpreendendo Miguel Jacob, sua então namorada – hoje, esposa – e cunhado: “Eu estava lá lavando o carro e estudando para a de residência, porque estava no último ano da faculdade. Aí o carro chegou. Quando o portão abriu, é como tudo começou”.
‘Eu não falo nada, nem antes, nem depois’
“A minha história se resume única e exclusivamente do momento que eu virei refém ao momento que eu deixei de ser. Eu não falo nada, nem antes, nem depois”, começa Miguel, que narra diversos episódios em seu livro, como a natureza das suas interações com o grupo de sequestradores.
Alguns capítulos, como “Banho quente e presentes”, já deixam pistas sobre o que se passou na casa ao longo do dia em que Miguel Jacob esteve presente como refém. Porém, ele faz mistério: “Não quero contar agora, você precisa ler o livro”, diz, instigando a curiosidade.
Mas, apesar do suspense, Jacob compartilha alguns dos momentos vividos. “Se visse a ficha criminal deles, não é para ninguém sair vivo de lá não. Então, eu tive duas opções. Ou eu aceitava a situação ou eu ficava louco. Cinco sequestradores armados, duas metralhadoras, duas pistolas, a casa cercada, a polícia tentando entrar na casa pela laje… Eles não perceberam, graças a Deus. Eu percebi.”

“Eles jogavam aquelas granadas sem capa de metal, que é bomba de efeito moral, que faz um impacto tão grande que abre e quebra tudo. Quebra parede, quebra vidro. Eu e meu pai não tínhamos noção que aquela casa era tão segura. Eles quebraram todo o telhado… Quebraram todos os fios, mas não entraram.”
Miguel relata que diversos detalhes acerca dos reféns civis foram divulgados de forma errada. Para ele, a partir do momento que o grupo liberou os reféns, exceto o coronel Edgar Soares, os sequestradores perderam qualquer garantia ou meio de negociação. Mas reitera: “Ninguém se preocupou com a gente, os reféns civis. É uma coisa muito interessante”.
O desfecho e a memória

Com o e-book publicado de forma autônoma pela Amazon e com a expectativa de, no futuro, publicar de forma física, Miguel demonstra animação em, finalmente, contar a sua versão, antes inédita. “Tentaram muito fazer entrevista com a gente, com o amigo, com o irmão. A gente sempre negou. Então, você não vê nada meu público.”
Além de sua experiência na casa, Miguel também tenta explicar o seu comportamento ao interagir com os sequestradores que, segundo ele, beira a loucura. “Tem uma coisa que eu falo no livro é sobre a Síndrome de Estocolmo. Hoje em dia falando, comparando a gente, é Síndrome de Estocolmo. Eu nunca concordei que fosse isso.”
“Eu explico no livro o que eu acho que foi. Tem uma parte no capítulo que eu falo: ‘Não, na minha opinião, o que aconteceu foi isso’. E isso diferencia muito a afinidade que existe entre o refém e o sequestrador na Síndrome de Estocolmo e o instinto de sobrevivência quando você se mostra não ser uma ameaça para ele. Então, eu não fui amigo dele, que não foi ameaça para mim.”
No décimo dia, após a liberação dos reféns, o grupo tentou fugir do sítio e trocou tiros com a polícia, ocasião na qual três deles ficaram feridos e se entregaram. No dia seguinte, outros dois fugitivos deixaram a casa. Um dia depois, houve a liberação do coronel e a prisão dos outros dois criminosos.
Após os eventos, a família retornou para a sua casa de veraneio, que foi vendida em 2003. “Logo depois do 17º dia que liberaram a casa, eu lembro que a polícia autorizou a gente ir lá retomar a nossa propriedade. Eles acabaram com a casa, acabaram. Pareceu uma cena de guerra, coisa fora da realidade. O governo não pagou o custo do prejuízo.”
O sequestro da Rua das Margaridas foi amplamente coberto e divulgado durante os 12 dias de cerco. 36 anos depois do ocorrido, além do livro de Miguel, também está em produção o documentário “12 dias” com a co-direção de Fernanda Vizian, que busca preservar a memória da cidade.









