Livro infantil para colorir conta história da educadora juiz-forana Áurea Bicalho

‘Letras Áureas’ conecta história de duas ‘Áureas’ e tem lançamento nesta quarta; livros vão ser distribuídos gratuitamente


Por Elisabetta Mazocoli

12/05/2026 às 16h09

áurea bicalho
(Foto: Arquivo pessoal)

O livro “Letras Áureas” é lançado nesta quarta-feira (13), no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. A obra tem como objetivo contar a história de duas “Áureas”: a da Lei Áurea, que marca o Dia da Abolição da Escravatura no Brasil, e a professora Áurea Bicalho, que teve uma trajetória pioneira na educação de Juiz de Fora.  A proposta é celebrar a liberdade enquanto convida o público a refletir de forma lúdica sobre cidadania, valorização da negritude e empoderamento. Toda essa narrativa é feita em formato de livro para colorir, de modo que as crianças possam participar da elaboração da história. O evento de lançamento acontece a partir das 15h e terá a equipe presente, quando os exemplares também serão distribuídos de maneira gratuita para o público, fortalecendo o diálogo dessa história com as novas gerações.

O projeto teve início quando a também educadora Tânia Bicalho recebeu uma visita da prima, Ana Paula, que a levou a refletir sobre a história de Áurea, que é sua tia avó. “Houve um apagamento da vida dela em função de machismo e misoginia. Mas hoje em dia, essas coisas têm nome, a gente estuda e pesquisa sobre isso tudo. Mas naquela época não se falava sobre isso”, conta Tânia, que mais tarde realizou o desejo da prima de contar a história ao idealizar o projeto. Ela percebeu, durante essa elaboração, o quanto a familiar era realmente pioneira: nascida em 1884, se formou em Farmácia e Bioquímica (algo pouco comum entre as mulheres da época) e fundou, ao lado do pai, o importante Colégio Bicalho, onde atuou como professora e diretora por quase cinco décadas.

Além disso, ela percebeu vários aspectos que atestam o caráter visionário da tia-avó e que confirmam que ela merecia ser lembrada: foi uma forte defensora do ensino infantil e ofereceu cursos noturnos para mulheres operárias, entre várias outras medidas que mostravam o seu amplo compromisso com a educação. A escola, que funcionava onde atualmente é o Colégio Equipe, no Bairro São Mateus, chegou inclusive a fomar várias pessoas que contribuíram bastante com a mudança de Juiz de Fora — inclusive o presidente Itamar Franco, como ela conta.

Mas a ideia de contar a história dessas duas “Áureas” juntas também foi a de questionar o que foi essa liberdade conquistada no dia 13 de maio e em que medida ela foi efetiva. Como a narrativa é voltada para o público infantil, a possibilidade de que as crianças pudessem interagir com a história colorindo também foi algo que a atraiu. “A ideia de ser um livro para colorir veio antes desse ‘modismo’ de agora. O meu motivo era que na minha família já faleceu todo mundo, e eu fiquei sozinha, porque sou a mais nova, e permaneço como a única ligada à educação e à cultura. Então, não tinha a quem eu pedir fotos nem nada. A ideia de colorir veio por falta de material e, ao mesmo tempo, por achar que seria uma forma de as crianças interferirem e irem construindo junto essa história, vendo a importância que elas têm no futuro da educação”, explica Tânia.

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Tânia Bicalho e Carolina Magalhães, com imagem de Áurea Bicalho exibida na TV (Foto: Arquivo pessoal)

Escrevendo a própria história

O projeto tem ilustração e autoria de Alberto Pinto, fundador da Grimorium Escola de Artes, junto com Victor Calazans e Carolina Magalhães, também professores da Grimorium, que assinam os desenhos e pesquisa de cenários. Para Carolina, também foi importante trazê-los para o projeto do livro por se tratar de uma iniciativa que foi contemplada pelo Edital Quilombagens da Lei Murilo Mendes, da Prefeitura de Juiz de Fora, reconhecendo assim que o trabalho que realizam dá continuidade à história da arte e da cultura na cidade. Incentivar as crianças a colorirem, nesse sentido, também foi uma forma de colaborar para que desenvolvam habilidades que podem estar sendo deixadas de lado neste mundo contemporâneo.

Ao final do livro, os leitores descobrem que “as letras que realmente nos libertam são aquelas que a gente mesmo escreve”. Por isso, Tânia reforça que a expectativa dos envolvidos no projeto é colaborar positivamente para a formação dos alunos e jogar luz sobre a memória de Tânia Bicalho para que ela sirva de inspiração. E arremata: “Queremos um mundo cada vez melhor. Se cada um fizer um pouquinho, vamos caminhar para isso. Queremos que as crianças criem uma história melhor, com menos machismo, misoginia e racismo”.