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Os livros existem e resistem


Por MAURO MORAIS

12/03/2015 às 06h00- Atualizada 12/03/2015 às 16h00

Escritora, que morreu aos 97 anos, doou seu acervo ao Mamm, que ainda não iniciou o processo de catalogação

Escritora, que morreu aos 97 anos, doou seu acervo ao Mamm, que ainda não iniciou o processo de catalogação

Preocupado em lapidar, depurar e enriquecer sua linguagem, um escritor, costumeiramente, decide-se por um gênero e nele segue até o entardecer da vida. Cleonice Rainho fez diferente. Ao longo de uma dedicada carreira literária, ela escreveu crônicas, poesias, ficções infantis, contos, romances, trovas, novela e textos acadêmicos. A mulher que fez da palavra seu ofício maior completaria um século de vida no próximo domingo, não fosse sua despedida aos 97 anos, em 22 de maio de 2012. Professora universitária e militante cultural, ela hoje dá nome a uma rua no Bairro Aeroporto e a um centro educacional no Jardim Cachoeira, Zona Norte da cidade. Um ano antes de sua morte, Cleonice doou todo o seu acervo ao Museu de Arte Murilo Mendes, mas o material, apesar de estar acessível ao público, ainda não foi catalogado pela instituição.

De acordo com informações da assessoria de comunicação do museu, o acervo documental da escritora é o maior do Mamm e exige um complexo exercício de ordenamento e classificação. São mais documentos do que livros doados. Contudo, a biblioteca do espaço prioriza, no momento, a catalogação do acervo de uma contemporânea de Cleonice, a escritora Cosette de Alencar, que exige uma crescente demanda de pesquisas ao museu. Para o presidente da Associação Cultural Luso-brasileira e biógrafo da escritora, Wanderley Luiz de Oliveira, a coleção de livros, manuscritos e documentos certamente não esconde trabalhos inéditos, já que a artista freou sua criação na última década, o que não torna o acervo menos instigante.

“Ela escreveu de tudo. Só não fez teatro por falta de tempo”, conta Wanderley. “Ela não tinha vida social. Foi professora durante muito tempo, e sua produção literária era noturna. Cleonice costumava enviar exemplares de seus livros para seus pares e mantinha correspondências com importantes nomes das artes brasileira”, completa. Um desses interlocutores era Carlos Drummond de Andrade, que costumava tecer loas à mineira de Angustura (distrito de Além Paraíba), radicada desde a infância em Juiz de Fora. “Sua prosa encanta pela fluência e poder de expressão a serviço de uma ótica sensível e perspicaz da vida”, disse, certa vez, o itabirano.

Artista e mulher comprometida

Em tempos de um individualismo onipresente e agressividades gratuitas, chama atenção uma Cleonice Rainho que se fez escritora das imagens e discursos belos. “A alma da criança/ é feita de arminho./ Ando por ela,/ de mansinho,/ para não eriçar-lhe/ a alva penugem./ Ando por ela,/ de mansinho,/ com/ passos de poesia.”, escreve no infantil “Varinha de condão”. Sua postura diante das palavras refletia seu posicionamento social. Nas crônicas escritas para folhetins como “Gazeta Comercial” e “O Lince”, ela exaltava desde as datas cívicas até a trajetória e o papel de poetas juiz-foranos. Preocupada com os aspectos educacionais, Cleonice deixou nos jornais seu comprometimento com o outro e com a leveza que a vida deve ter. “‘Intuições da tarde’ agradou muito, mas ‘Ternura’, sobre a maternidade, chegou a ganhar 20 mil exemplares, que depois se esgotaram”, pontua Wanderley, autor de “Cleonice Rainho, a busca e o encontro”, biografia publicada em 2010.

“Minha mãe era até introvertida. Ela se extravasava no que escrevia. Seu lado social estava na literatura”, conta o filho Luiz Flávio. “Lembro-me dela como professora e educadora, não só em Juiz de Fora mas em várias outras cidades; e como um escritora que deixou uma obra literária de muita repercussão, extrapolando as fronteiras da cidade. Esse legado se perpetuou em minha memória”, completa ele, que hoje vive em Brasília, mas com vem com frequência à cidade. Segundo Luiz Flávio, afora objetos pessoais, como uma máquina de escrever Remignton, na qual ela escrevia seus textos, toda a memória literária de sua mãe foi doada. “A universidade conseguirá preservar o acervo com técnicas mais modernas. O importante é socializar tudo o que ela deixou. As pessoas só morrem quando não são lembradas. Enquanto a cultura da cidade continuar se reunindo para homenagear a obra dela, ela permanecerá, mostrando que só se foi fisicamente”, emociona-se. Restam as palavras, impressas nos mais de 30 livros publicados, alguns deles editados pela renomada casa José Olympio (mesma editora de sua “quase conterrânea” Rachel Jardim). Títulos que, diante do centenário, se merecem perenes. Títulos que merecem novos leitores e novas leituras. E nunca o silêncio.