Nicoline abre mostra de fotos no Mamm

Nicoline mostra negativos e cromos, que podem ser observados com lupa

Imagem da série “Pessoas”
“Está vendo aquele passarinho ali, com essas curvas?! É uma foto”, indica Humberto Nicoline. Com as mãos a enquadrar a cena de um pássaro pousado em uma escultura, o veterano fotógrafo interrompe a entrevista e, como que por extinto, pensa no registro. “Olha o enquadramento ali”, diz. “Esse é o olhar diferenciado que estava te falando”, completa referindo-se ao que falava momentos antes: “O enquadramento faz parte do dia a dia. Nunca exporia uma foto desfocada. Porque, quando vemos, enquadramos e focamos. Assim é a vida”. Em “Olhares submersos”, exposição que o fotógrafo inaugura nesta quinta, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes, torna-se claro que essa tal vida ganha mais vigor para aqueles que carregam consigo uma câmera. Pássaros, como o que surgiu durante a entrevista, só são, de fato, enxergados em sua beleza para os que olham o mundo através das lentes. “Todo fotógrafo tem um olhar diferenciado para as coisas. Ele anda na rua e vê o que muitos não veem. Esse é o talento dele”, define Nicoline.
Com patrocínio da Lei Murilo Mendes e apoio da UFJF, a mostra sob curadoria da artista Nina Mello revela o que o veterano do fotojornalismo em Juiz de Fora viu e decidiu registrar em suas andanças por ruas brasileiras e estrangeiras. O que não saiu e não sairia nos jornais significava e não poderia “passar batido”. Era preciso eternizar, de alguma forma, o que lhe tocou. “Fotografar, poder registrar, é um privilégio. Que bom ser fotógrafo e poder contar o que vejo e sinto”, emociona-se ele, que apresenta, agora, apenas seu trabalho analógico, impresso em papel fine-art, com longa duração, em sofisticada expografia.
Expoente de uma geração que precisou driblar a burocracia dos rolos de filmes, Nicoline faz um passeio pelos tempos em que fotografar não era exercício de erros e acertos como hoje é possível. Não podiam ser feitos milhares de cliques, já que cada um gastava um frame, de um custoso filme. Originais e películas – exibidos em uma caixa de luz, onde é possível, com uma lupa ver os negativos e cromos – transportam o espectador para a cerimônia do ato fotográfico. “O fotojornalismo, para mim, é a realização pessoal e profissional. As viagens internacionais foram muito legais e deram muito sentido a tudo”, comenta ele, autor de um preto e branco emocionalmente forte.
Laboratórios em hotéis
Ainda que “Olhares imersos” – “É a exposição da minha vida”, diz – revele a dimensão de um fotógrafo sensível e de uma técnica rara nos dias de hoje, a opção pela câmera não foi sua motivação primeira. “Gostava um pouco e tinha uma máquina semiautomática, muito simples. Na faculdade, eu brincava com ela. Formei em julho de 1981, e a Tribuna começou em setembro. Entrei com a intenção de ser repórter de texto, mas acabei me identificando e nunca mais larguei”, conta. Até 1987, ele permaneceu em sua Juiz de Fora natal, até que seguiu para trabalhar na Tribuna de Minas em Belo Horizonte. Por lá ficou até 1989 e, em seguida, foi contratado pelo “Hoje em Dia”, onde seguiu por 13 anos.
Quando viajava para fora do país, recorda-se, o método analógico era extremamente complexo. “Transmitia as fotos via modem. Chegava ao hotel e transformava o banheiro em um minilaboratório. Punha um saco preto nas janelas, e o lugar virava uma câmera escura. Tinha ampliador e produto químico para revelar. Levava uma minissecadora de roupas para secar os filmes. Ampliava, passava pela bandeja de químico e punha num aparelho, depois de seco. Precisava de uma tomada de energia e outra de telefone para transmitir a foto. Colava a cópia num cilindro e passava uma luz fazendo a leitura. Era um xerox melhorado que chegava à redação”, ri, lembrando-se dos imperativos da época. “No princípio, o mais importante era a carga informativa. Tanto é que o flagrante, mesmo desfocado, tinha validade. Depois, quando os jornais ganharam a cor, a estética também tornou-se importante. Hoje é preciso atrair por essas duas vias”, reflete.
Entre as 80 imagens da exposição, apenas seis já foram apresentadas em alguns momentos, estando duas delas no livro “JF anos 80”, que lançou em 2009. Todo o restante é inédito, como o registro de um ritual de cura espiritual na crença do candomblé, feito no espaço de Mãe Marlene do Gantois, em Belo Horizonte. “É uma senhora com quatro filhas, que ficou 40 dias dentro de um terreiro comendo comida específica, vestindo outras roupas, raspando a cabeça, tudo para salvar uma das filhas que estava com câncer”, lembra-se. Em outra cena, as mãos de um macaco para fora da jaula de um circo, ao fundo, transmitem a angústia do animal privado da liberdade. “O trabalho dele é muito rico por ser pautado pela simplicidade. Não é complexo. As imagens falam muito e permitem que você as atravesse, proporcionam um diálogo para além do que está ali”, analisa a curadora Nina Mello.
Segmentada, a exposição divide, em quatro setores – “Pessoas”, “Lugares”, “Crianças” e “Animais” -, a vasta produção de um autor sempre alinhado ao fotojornalismo. “Ele quis tirar as fotos emblematicamente jornalísticas, mas não acho que o fotógrafo com essa experiência consiga se separar deste universo. O trabalho do Humberto consegue criar uma narrativa. Não temos ali o fotojornalismo engessado, objetivo, que tem sido tão discutido ultimamente, mas o jornalismo por outro viés”, comenta Nina, confirmando a intensidade poética de um artista gigante como sua altura.
OLHARES IMERSOS
Exposição de Humberto Nicoline
Abertura nesta quinta, às 20h. Visitação de terça a sexta, das 9h às 18h. Sábados e domingos das 13h às 18h. Até 15 de março
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790)








