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Um anti-herói como o nosso


Por Raphaela Ramos

11/09/2011 às 07h00

Santo de casa não faz milagre. Ou faz? Exatamente por valorizar a cultura popular, o grupo mineiro Galpão desafia o ditado que tantas vezes cai na boca das multidões. A peça "Till, a saga de um herói torto", lançada em 2009 e escolhida para encerrar o 5º Festival Nacional de Teatro neste domingo, é dirigida por Júlio Maciel, um dos atores da companhia. "Natural. É preciso oferecer a alguém o poder de decisão em relação ao caminho", comenta por telefone o integrante Eduardo Moreira. Desfiando sua costumeira sinceridade, o artista admite: "é claro que não é a coisa mais tranquila do mundo, mas o grupo tem maturidade para isso". Essa é a quarta vez que alguém do elenco assume o leme da embarcação, após uma lacuna de nove anos.

Escrita pelo premiado dramaturgo Luis Alberto de Abreu, "Till" também devolve ao Galpão o espaço público. Desde 1997, com "Um Molière imaginário", a trupe não montava seu tablado na praça, lugar que exige interpretação mais aberta e maleabilidade para lidar com o inesperado. "O teatro de rua modifica o jogo e a relação com a plateia", menciona Moreira, acrescentando que um ator da companhia já foi mordido por um cachorro em uma das encenações ao ar livre. Bêbados também costumam invadir a cena e testar a atenção do elenco.

Por outro lado, ao entrar na roda, a maior parte dos espectadores está disposta a receber a história. "A rua é um espaço importante, conquistado", complementa Eduardo. De acordo com ele, entre a praça e o teatro, não há preferências. "O palco também tem sua magia, permite que o ator evolua em outros pontos." Em 2000, o coletivo se apresentou no Globe Theatre de Londres com a montagem "Romeu e Julieta", dirigida por Gabriel Villela.

No caso de "Till", a cumplicidade com o espectador nasceu antes mesmo do espetáculo. Além de escolher a peça entre outras três, o público participou de ensaios abertos. Segundo Moreira, essa troca é enriquecedora, embora o artista não deva se colocar à disposição do gosto da plateia. "Nós procuramos equilibrar as coisas." O Galpão, formado por elenco fechado, desenvolve suas pesquisas desde 1982, quando estreou "E a noiva não quer casar" na Praça Sete, ponto central de Belo Horizonte. A linguagem de teatro narrativo e a comunicação com as pessoas sempre foram marcas de destaque.

Macunaíma e Pedro Malasartes

O texto de Luis Alberto de Abreu – que iniciou sua parceria com o grupo em "Um trem chamado desejo", de 2000 – é preenchido pelo universo da cultura popular alemã da Idade Média. Típico anti-herói, Till Eulenspiegel não se distancia da realidade brasileira, na opinião de Eduardo Moreira. Tanto que a companhia gosta de compará-lo ao Macunaíma de Mário de Andrade. "A ligação com o país é imediata. Apesar do contexto europeu, a narrativa poderia ser de qualquer menor abandonado das nossas grandes cidades." Moreira conta ainda que a protagonista Inês Peixoto inspirou-se em Grande Otelo, ator do filme de 1969, para construir o preguiçoso Till. Tão preguiçoso que passa cinco anos no ventre da mãe e só resolve sair quando um anão entra para buscá-lo. Do lado de fora, o personagem esbanja amoralidade e coleciona artimanhas e pecadilhos. Não à toa, também aproxima-se do ibérico Pedro Malasartes.

Conforme aponta Eduardo, o espetáculo preocupa-se em criticar o poder e seus subterfúgios para explorar os pobres e desvalidos. Nesse sentido, retorna ao passado para trazer ao presente verdades que lhe cabem. "Esse tema tem sua força em todo o mundo de hoje." Deixado pela mãe, Till passa frio e fome até descobrir uma maneira esperta e enganadora de viver sua saga.

No teatro épico do Galpão, a música não é um mero adereço. Assim observa Moreira, incluindo-a na dramaturgia da montagem. Nas mãos dos intérpretes, surgem instrumentos como trompete, sax, tambor e outros. A trilha sonora é composta por 12 canções, e a direção musical é assinada por Ernani Maletta.

Premiação

"Till, a saga de um herói torto" será apresentado após a premiação da mostra competitiva do 5º Festival Nacional de Teatro, promovido pela Funalfa. A cerimônia, aberta ao público, acontece às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). Doze peças disputam troféus nas modalidades adulta e infantil, nas categorias melhor espetáculo, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, cenário, figurino, júri popular, iluminação e trilha sonora. Um prêmio destaque poderá ser entregue conforme avaliação da comissão julgadora, a qualquer categoria, individual ou coletivamente.

TILL, A SAGA DE UM HERÓI TORTO

Hoje, às 20h

Praça Antônio Carlos