Livro resgata as ‘Mandalas’ de Arlindo Daibert 50 anos depois
Lançamento acontece nesta quarta-feira, no Mamm, com roda de conversa e entrada gratuita

O livro “As mandalas de Arlindo Daibert”, publicação que explora documentos, textos e anotações do artista, desenhista, gravador, pintor e professor universitário Arlindo Daibert, será lançado no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), em evento nesta quarta-feira (12), a partir das 19h. Durante o lançamento, estarão presentes o autor da obra, Ronald Polito, a ex-diretora do Centro de Estudos Murilo Mendes, Neysa Campos, amiga de Arlindo Daibert, o editor e autor do posfácio, André Colombo, e a superintendente do Mamm, Renata Zago para uma roda de conversa.
A obra busca oferecer ao leitor um olhar aprofundado, fruto de pesquisas inéditas, sobre o processo criativo de Arlindo Daibert e sua série “Mandalas”. Ronald Polito explica que o interesse pelo trabalho do artista vem desde 1976 quando, aos 15 anos, frequentou a exposição que dá nome ao livro.
Em 2026, a série “Mandalas” completa 50 anos, sendo uma data a ser lembrada, para Ronald, pelo valor da exposição. “Eu tinha 15 anos quando fui na abertura, no antigo Fórum da cidade, e voltei algumas vezes, como se pode ver pelos registros de meu nome no livro de assinaturas da exposição”, conta ele.
O impacto vivido por Ronald ao visitar a exposição foi enorme, por fatores como o apuro técnico de Arlindo em seus desenhos, a natureza enigmática das imagens, convidando à decifração, e a beleza dos trabalhos. Além de ter marcado o autor do livro, a exposição também foi um marco na vida do artista, por ter sido a primeira em que Daibert organizou todo o processo, do convite à montagem, como ele esclarece em uma anotação do diário utilizado nas pesquisas do livro.
Entre palavra e traço
André Colombo, historiador, editor e escritor que colaborou com “As mandalas de Arlindo Daibert”, coloca o artista em um lugar singular na arte contemporânea brasileira. “Poucos artistas brasileiros estabeleceram um diálogo tão sofisticado entre texto e imagem. Em sua produção, a literatura nunca aparece como simples ilustração: ela se transforma em estrutura visual, em método de criação e em objeto permanente de reflexão.”
Daibert se formou em Letras, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e, durante a década de 1970, realizou um período de estudos em Paris, onde pôde aumentar o seu repertório artístico de maneira significativa.

É durante esse momento que seu interesse pelas mandalas nasce. A série é marcada por diálogos com o psiquiatra Carl Jung, a alquimia, a cabala, a tradição simbólica ocidental e oriental e pela experimentação entre escrita e desenho.
“Talvez sua maior contribuição tenha sido compreender que o desenho não era apenas uma técnica, mas uma forma de pensamento”, define André. “Sua obra demonstra que imagem, palavra, memória e imaginação podem constituir um único campo poético. Por isso, sua produção continua extremamente contemporânea e ainda oferece inúmeras possibilidades de leitura.”
A pesquisa para o livro, segundo Ronald, começou em 2018, quando publicou um volume com transcrições de textos do diário de Arlindo, publicado pelo Mamm, ao lado de Júlio Castañon Guimarães. Muitos desses textos foram utilizados na pesquisa para “As mandalas de Arlindo Daibert”, além da bibliografia sobre o artista, matérias de periódicos, datiloscritos de seu arquivo, correspondências e outros.

Compreender a série “Mandalas” é também entender muitos dos temas tratados por Arlindo Daibert em sua trajetória, como a simultaneidade entre palavra e imagem, a construção de séries, a apropriação da literatura, a dimensão simbólica do desenho e a compreensão da obra como um campo aberto de interpretações.
O livro, para André Colombo, também representa um novo momento nos estudos sobre Arlindo Daibert. “Além de reunir um conjunto raro de documentos, ele organiza criticamente materiais que estavam dispersos entre diários, datiloscritos e as próprias mandalas, oferecendo uma base documental sólida para novas pesquisas. Vejo muitos caminhos bastante promissores.”
Uma obra imensa
Neysa Campos, amiga de longa data do artista, esteve presente na elaboração da exposição “Mandalas”. Na época, Arlindo fez algo pouco convencional em sua mostra no antigo Fórum, que foi organizada nos mínimos detalhes, da montagem à publicidade.
Dos quase 250 convites, ele escolheu 99 pessoas que receberam fragmentos da foto de uma mandala cortada, para colocar no dia da exposição. “E quando terminou a exposição, ele emoldurou esses fragmentozinhos fotografados da mandala e me deu de presente”, relembra.
Daibert rodou a Europa e o Brasil, mas nunca saiu de Juiz de Fora. Além de artista, ele também foi professor na UFJF e pesquisador, colaborando para a criação do Centro de Estudos Murilo Mendes, do qual Neysa foi diretora. Arlindo possui uma grande admiração pelo trabalho de Murilo Mendes, chegando até a conhecer a esposa do poeta, em Portugal.

Neysa explica que essa relação dele com Murilo Mendes, sobretudo com a poesia do escritor juiz-forano, o fez inclusive fazer uma viagem à Espanha, em Toledo e Ávila, na companhia do seu grande amigo Leonino Leão, também artista plástico. Como ele dizia: “Estou percorrendo os caminhos de Murilo Mendes”.
“Eu acho que merecia ter um espaço ‘Arlindo’, para que as pessoas pudessem conhecer um pouco mais a sua obra que está espalhada por diversos países do mundo, em várias coleções particulares e mesmo em Juiz de Fora”, destaca Neysa, que vê a obra do artista como algo imenso.
Serviço
Lançamento do livro “As mandalas de Arlindo Daibert”
Museu de Arte Murilo Mendes (Rua Benjamin Constant, 790 – Santa Helena)
Quarta-feira, 12 de agosto, às 19h
Entrada franca
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy









