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Ele provou que pensa em você toda hora


Por MARISA LOURES

11/06/2013 às 07h00

Não tem explicação. Até para quem não é fanático por Roberto Carlos, estar cara a cara com o pai da Jovem Guarda suscita sensações não previstas. Trajando roupa azul, o Rei abriu o show, na última sexta, com 40 minutos de atraso, às 21h40, cantando o clássico "Emoções". Nesta hora, resistir a "olhando pra você, e as mesmas emoções sentindo" torna-se quase impossível. Apesar da fila quilométrica de veículos e do trânsito lento antes e depois da apresentação, os fãs curtiram duas horas ininterruptas de um setlist composto por cerca de 20 canções. O Rei mostrou que tem pique aos 72 anos de idade.

Na primeira fileira, a policial militar aposentada belo-horizontina, que atualmente mora em Juiz de Fora, Maria Tereza Baungatz, não conseguia conter a euforia. "Estou tremendo, vou ter um ataque cardíaco. Nunca senti isso por ninguém", gritava a poucos metros do palco. "Usei o cartão de crédito da minha irmã para comprar o ingresso na internet e tirei dinheiro na poupança para pagá-la. Não me arrependi, valeu a pena, é muita emoção."

No momento reservado à música "Além do horizonte", teve gente que não se conteve e empoleirou nas grades. O casal Adriana Mosquera, paisagista, e José Antônio Veira, médico, relembrou os velhos tempos de juventude e dançaram agarradinhos. "Roberto é melhor do que eu imaginava. Estar aqui tem um sabor especial, pois a música "Como é grande o meu amor por você" tocou na minha entrada no dia do nosso casamento, há 13 anos", disse Adriana. "Viríamos com o nosso calhambeque em homenagem a ele, mas, infelizmente, deu defeito na saída. Quando ele cantar a nossa canção, o Expominas vai ficar pequeno para nós dois", brincou José Antônio.

"Rei, rei, rei, Roberto é nosso rei", esbravejava o público surpreendido por "Cama e mesa". Os ânimos só se acalmaram com "Detalhes", executada num momento intimista, em que o cantor, sentado, mostrou que também tem talento ao violão. O palco, sem qualquer cenário, ganhou iluminação estrelada. "Para que inovar? Ele é bom exatamente desse jeito", defendeu a nutricionista Maria Helena da Silva, que cantava, em êxtase: "Não adianta nem tentar me esquecer. Por muito tempo em sua vida eu vou viver".

 

O Rei está remixado

O arranjo do refrão de "Lady Laura" pouco lembra a gravação original, mas isso não impediu que a plateia dividisse com o cantor a lembrança de sua mãe, já falecida. Deixando de lado qualquer culto ou religião, as fãs fizeram coro com Roberto Carlos na canção "Nossa senhora", seguida do instrumental de "Calhambeque", que ganhou trilha sonora com barulho de carro feito pela orquestra, e "Mulher pequena".

Como já era previsto, a batida eletrônica de "Fera ferida", canção que será relançada em setembro no álbum "Remixed" de DJ Memê, assegurou a aproximação do cantor com o público jovem. "Roberto mostrou que está jovem pra caramba", comentou o eletricista de navio Mauro Luiz Brito.

Depois da versão repaginada, a menção à autora de "Salve Jorge", Glória Peres, e ao casal de protagonista, Nanda Costa e Cláudio Lombardi, arrancou gritos e palmas da plateia. "Fiz essa canção para um cara que toda mulher queria ter, que todo homem gostaria de ser e que eu tento ser", afirmou o cantor de "Esse cara sou eu". Quando teve início o outro sucesso da mesma novela, o funk "Furdúncio", nem mesmo as admiradoras de mais idade ficaram inertes ao ritmo dançante de "onde ela vai eu vou, onde ela está eu estou. E cada dia mais doido por ela eu sou".

 

 

Ao som da Jovem Guarda

Mesmo quem não viveu a época da Jovem Guarda dançou ao som de "É proibido fumar", "Namoradinha de um amigo meu" e "Jovens tardes de domingo". Com carisma e charme, o Rei fez questão de enfatizar: "Com essa canção, tenho a oportunidade de dizer tudo o que sinto, eu amo vocês", afirmou, referindo-se a "Como é grande o meu amor por vocês". O romantismo só foi cortado com "Jesus Cristo". A música final de cunho religioso provocou correria na mulherada. Quem estava no setor amarelo conseguiu ter o gostinho de chegar perto do palco. Isso porque os seguranças resolveram dar uma colher de chá, abrindo as grades por alguns instantes.

A assistente social Daneise Esteves conseguiu pegar uma rosa jogada pelas mãos do cantor. "É a terceira vez que pego. Já conheço o show, sei o momento certo de correr. Por isso, tenho sorte. Vou colocá-la num quadro", afirmou. Para a pedagoga Sandra Tostes, ver o Rei foi o presente antecipado de Dia dos Namorados, dado pelo marido, o advogado Carlos Tostes. "Estou com a flor debaixo da blusa para ninguém tomar de mim. Até hoje, só tinha ido a uma única apresentação do Roberto. Vou guardar a rosa para, daqui a alguns anos, mostrar aos netos", contou a pedagoga, que, empolgada, perdeu a despedida do cara. "Obrigado pelo carinho e pelo amor que eu recebi mais uma vez em Juiz de Fora. Eu amo vocês."

Sentada em um dos últimos lugares, a consultora de cosméticos Élida Henriques, reclamou do som que, segundo ela, não chegava com perfeição ao setor branco. "Imaginei que não conseguiria vê-lo de perto, mas não ouvir é demais. O preço foi bem alto para enfrentarmos estas condições. Acredito que o problema seja o local, inapropriado para este tipo de evento", lamentou.

Também atrás, a professora aposentada Ligia Ferreira de Souza, que costuma acompanhar o artista em todos os shows, reclamou da estrutura. "Como se não bastassem o som e a imagem estarem péssimos, a torre utilizada pela técnica, no meio do salão, nos impedia de enxergar o palco. Perto de mim, foi uma choradeira danada, me senti humilhada. O espetáculo em si estava maravilhoso. Nos outros shows que eu fui, ele não contava as histórias que o levou a compor cada canção", afirmou ela, que, aos 74 anos, optou por assistir ao show de pé para poder "ver melhor".

Produtor local do evento, Lúcio Oliveira informou que os equipamentos utilizados estão entre os mais modernos do mundo, e a escolha do local se deve ao fato de, em Juiz de Fora, não haver um outro espaço apropriado para comportar um show deste porte. Com relação à dificuldade de visão, ele alega que, no site de venda de ingressos, já estava prevista, no desenho, a instalação da House-mix (espécie de casa onde fica o técnico de som). Contudo, o corredor foi alargado de forma que ninguém ficasse atrás da estrutura.