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A câmera no cubo


Por MAURO MORAIS

10/09/2013 às 07h00

Contemporâneo é o que está em seu tempo. Subjetivo, ocupando um espaço longo e quase disforme, esse tal tempo não prescinde de objetividades. Nesse contexto, a fotografia contemporânea, como todas as manifestações que carregam consigo o adjetivo ainda bastante abstrato mas já desgastado pelos usos imprecisos, é tão ampla que os limites que a configuram são praticamente invisíveis.

Enquanto esculturas, pinturas e colagens foram tidas como as mais importantes obras da ArtRio desse ano, feira considerada das mais relevantes no mapa das artes do país e que encerrou no último domingo, a fotografia também desempenhou seu papel. A exposição "Lost then found", que ocupou um dos armazéns do evento, reuniu imagens recém-encontradas de Andy Warhol, ícone da pop art, clicadas por Steve Woods. Mas essas obras não estavam à venda como o móbile sem título, de 1945, todo preto, do norte-americano Alexander Calder, arrematado no primeiro dia da feira, por cerca R$ 18 milhões.

Os valores estratosféricos, que transitam entre esculturas e pinturas, alcançam na fotografia cifras em torno de R$ 12 milhões, no caso do alemão Andreas Gursky. No Brasil, o cenário é tão contraditório quanto o panorama estrangeiro. Ao mesmo tempo em que a pintura "Meu limão", de Beatriz Milhazes, atingiu mais de R$ 4 milhões em um leilão da nova-iorquina Sotheby’s, tornando-se a obra de arte mais cara de uma artista viva brasileira, Miguel Rio Branco chega a custar, no máximo, R$ 150 mil, o valor recorde.

Porém, até que ponto o mercado reflete a cena? Para o fotógrafo e galerista Bruno Veiga, da Galeria da Gávea, no Rio de Janeiro, especializada no assunto, hoje já existe um mercado concreto. "Ainda é restrito, temos valores muito menores do que o resto do circuito, mas isso é natural de um processo que está em evolução", pondera. Assim, o que o mercado indica é a realidade de uma expressão. "Estamos vivendo um momento excepcional para a fotografia, pois hoje o mundo da arte a acolhe como nunca o fez, e os fotógrafos consideram as galerias e os livros de arte o espaço natural para expor seu trabalho. Ao longo de toda a história da fotografia, sempre houve quem a promovesse como uma forma de arte e um veículo de ideias, ao lado da pintura e da escultura, mas nunca essa perspectiva foi difundida com tanta frequência e veemência como agora", avalia a crítica e curadora britânica Charlotte Cotton, em seu "A fotografia como arte contemporânea".

Delineado pelo projeto "Foto 13", que encerra nesta sexta, esse panorama que surge forte e em múltiplas facetas, inclui desde registros históricos, como as fotos de Heitor Magaldi, até a intimidade exposta de Camila Marchon, passando pelo quase jornalismo de Carlos Velázques e Renata Meffe. O universo é amplo, e quase tudo é permitido, ainda mais quando existe um discurso tão fortemente delineado. "Os parâmetros que determinam a qualidade não são simples. Existem hoje muitas tendências. Acredito que o Miguel Rio Branco seja uma inspiração para todo mundo. Nas águas em que ele navegou, ninguém havia navegado", reflete Veiga, cujo trabalho mais caro, da série "Pedras portuguesas", foi comercializado por R$ 19 mil.

 

Cores frescas

"A linguagem contemporânea está mais preocupada com o conteúdo do trabalho mostrado e não com a forma que ele é apresentado. Isso se estende para a fotografia da época que estamos vivendo. Não importa muito a técnica usada ou se é perfeitamente técnica, com a luz perfeita e feita com filme. O que importa é a mensagem que aquela imagem passa, o que aquilo quer dizer", ressalta Camila Marchon, que, na série "Você pode me ler se quiser", reproduz um mosaico fotográfico de seu corpo, discutindo a construção da imagem. Segundo o colecionador e crítico Joaquim Paiva, o trabalho acessa a era das mídias sociais, em que não há mais o imperativo da personalização. "Já não há mais um retrato que possa sintetizar o indivíduo, este é muitos ao mesmo tempo e anônimo na multidão da rede mundial de computadores", analisa.

Propositalmente, o fotógrafo paulistano radicado carioca Calé, na série intitulada "Buscadores", elimina os personagem do que seria um retrato para focar o cenário no qual se encontram. Ali, discurso semelhante ao de Camila se define, mas por outros caminhos e com outros objetivos. "Acredito que só uma parte da fotografia é o clique, depois vem a edição, a conceituação, o diálogo entre imagens que colocamos propositalmente uma ao lado da outra. Tudo cria um discurso que diferencia a imagem bonita da arte", expõe o artista. Para ele, o instantâneo, a síntese e o uso de uma imagem "real", criada a partir de algo que realmente se viu, colocam a fotografia como uma arte singular.

Contudo, esse "real" tem sido esgarçado nos trabalhos do presente. Fotografia pode não ser o que está à frente da lente. Segundo o fotógrafo, pesquisador e doutor em Artes pela USP, Ronaldo Entler, pensar a fotografia como um lugar conceitual propicia olhar para a própria história de modo transgressor. "Mais do que um procedimento, uma técnica, uma tendência estilística, a fotografia contemporânea é uma postura. Algo que se desdobra em ações diversificadas, mas cujo ponto de partida é a tentativa de se colocar de modo mais consciente e crítico diante do próprio meio", define no ensaio "Um lugar chamado fotografia, uma postura chamada contemporânea", do livro "A invenção de um mundo" (Itaú Cultural).

Curador da exposição "Coleção Itaú de fotografia brasileira", apresentada no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 2012, Eder Chiodetto fez uma leitura da expressão nas últimas seis décadas, tendo como base uma das maiores coleções do país. Esclarecedora, a mostra se alinhou ao caráter mais experimental da fotografia sugerindo, assim, um recorte das vanguardas que o país soube tão bem fabricar. De Geraldo de Barros, com suas fotomontagens e colagens abstratas, à produção de Rosângela Rennó, com suas instalações que quase negam o clique, Chiodetto vê a cena nacional como um universo coerente e em permanente construção. "Com um histórico de sobressaltos sociopolíticos, econômicos, tecnológicos, estéticos e conceituais, a fotografia brasileira foi ganhando musculatura, absorveu as influências estrangeiras sem nunca deixar de acrescentar a elas o caráter nacional, mantendo assim a atitude antropofágica propalada por Oswald de Andrade, que no histórico Manifesto Pau-Brasil pedia ‘estrelas familiarizadas com negativos fotográficos’", resumiu o curador em texto de apresentação da mostra.

Fotógrafa e pioneira na cidade ao criar uma galeria especializada em fotografias, Nina Mello acredita que Juiz de Fora sempre esteve em consonância com o status da expressão no país, e no mercado local o reflexo é o mesmo. "Tanto os artistas quanto os envolvidos estão aprendendo. Esse mercado não é forte, mas existe. Estamos todos engatinhando", destaca, reivindicando o espaço poético da linguagem, certa de que nem tudo é apenas clique. Para ela, ainda há muito o que se investigar, dentro e fora da cidade. "Tudo é muito novo. A gente fala do antigo, mas esse antigo é muito novo. Tudo está apenas começando."